Capítulo 2 2

Damon congelou, completamente pego de surpresa.

Sua visão sempre fora ruim por causa de uma lesão antiga, sobretudo no escuro. Agora, com o veneno embaralhando seus pensamentos, tudo parecia nebuloso. Ele não conseguia distinguir o rosto de Elena, mas sentiu os lábios dela roçarem nos seus. Eram macios de um jeito impossível, com um toque de doçura que ficava.

Sem pensar, seus lábios se moveram, só um pouquinho. Aquela reação mínima foi o bastante. Elena se ergueu num pulo, como se tivesse levado um choque, e se afastou atrapalhada, com as bochechas em brasa. “Seu… seu idiota!”

Ela esfregou a boca com força com o dorso da mão. Por um segundo, quis dar um tapa nele, mas se lembrou de que ele estava ferido. Então, ainda ardendo de raiva, se virou e saiu pisando duro.

Que sorte a dela, sinceramente.

Tentou salvar alguém e acabou perdendo o primeiro beijo para um completo nojento.

Damon ficou estendido no chão, vendo a silhueta borrada dela desaparecer na chuva. Apertou um pequeno objeto na mão e murmurou: “Eu vou te encontrar.”

Encharcada da cabeça aos pés, Elena desceu a montanha arrastando os pés, carregando a cesta de remédios. Chegou ao portão da frente da velha casa da família Walsh e, então, viu uma figura salpicada de lama se levantar perto do muro. O homem correu até ela, sorrindo de orelha a orelha. “Senhorita! Finalmente encontrei você!”

Assustada, Elena se esquivou para o lado quando o homem enlameado quase trombou com ela. Ele cambaleou e então abriu um sorriso sem graça, mostrando os dentes. “Desculpe, senhorita. Não quis assustar.”

Elena o encarou com cautela. “Quem é você?”

Antes que ele pudesse responder, a voz impaciente de uma mulher ecoou de dentro da casa. “Elena, você não é mais uma Walsh. Seu novo sobrenome é Holmes. Ele veio da família Holmes para buscar você. Vá com ele.”

Elena ergueu os olhos e viu duas figuras no alto dos degraus: Kayla, a verdadeira herdeira da família Walsh, e Rebecca, a mãe adotiva de Elena.

Dois meses antes, o “irmão” mimado dela sofrera um acidente de carro que o deixou com danos nos rins. Como a filha negligenciada, Elena foi a primeira a fazer exame de compatibilidade. Mas o que o teste revelou foi muito mais chocante — ela e o “irmão” não eram parentes coisa nenhuma.

A notícia pegou todo mundo de surpresa, inclusive Elena.

Seu pai adotivo, Jenson, não poupou dinheiro nem esforço para encontrar a filha biológica. Depois de dois meses procurando, finalmente a encontrou. A busca de Jenson saiu em tudo quanto é notícia, já que ele era o homem mais rico da cidade.

Agora que a verdadeira herdeira tinha voltado, Elena — que nunca fora a favorita e que fora criada no interior pela avó — foi expulsa na mesma hora.

Ela só tinha ficado por ali nesses últimos dias porque a perna ruim da avó piorara com o tempo úmido, e Elena queria colher ervas e preparar remédio para ela. Mas os Walsh achavam que ela só estava se recusando a ir embora.

Então, ontem, ela recebeu uma ligação. Alguém disse que eram seus pais biológicos e que viriam buscá-la hoje. Elena não acreditou muito, mas, inacreditavelmente, ali estavam.

O homem enlameado deu mais um passo, abrindo um sorriso largo. “Senhorita, eu sou Jack. Seus pais me mandaram para levar você para casa.”

Antes que Elena conseguisse dizer qualquer coisa, Rebecca a interrompeu de novo, com a voz fria. “Tem cinco mil dólares nesta mochila para você. Deve dar por um tempo. Nós criamos você por dezoito anos, então não venha pedir mais quando esse dinheiro acabar.”

Ela jogou uma mochila preta aos pés de Elena.

Só para garantir que Elena realmente fosse embora, Rebecca e Kayla tinham empacotado as coisas dela enquanto ela estava fora colhendo ervas, prontas para despachá-la no instante em que voltasse. Rebecca não sabia muito sobre a verdadeira família de Elena, exceto que vinham de um vilarejo pobre do norte, estavam sem trabalho, tinham quatro filhos homens solteiros e um avô idoso em casa. Era óbvio que não tinham boas condições.

O cara que veio buscar Elena nem apareceu de carro. Só pegou carona num trator vindo do vilarejo. Rebecca olhou para ele sem nem se dar ao trabalho de esconder o desprezo. Se Elena achava que algum dia voltaria a ter uma vida tão confortável quanto a que teve com a família Walsh, estava sonhando.

Elena franziu levemente a testa e se abaixou para pegar a mochila, mas Jack foi mais rápido. Ele a apanhou, os olhos ardendo de raiva enquanto encarava Rebecca. "Nós achamos que vocês tratariam Elena com um mínimo de respeito. Como puderam tentar se livrar dela com apenas cinco mil dólares?"

Rebecca revidou com um olhar gelado. "Se não fosse por nós a acolhermos, ela teria morrido de frio ou de fome lá fora dezoito anos atrás. E você pode dizer à família Holmes que não queremos nada por ter criado a filha deles. Só queremos que nos deixem em paz de agora em diante."

Ela estava apavorada com a possibilidade de os Holmes tentarem se agarrar a eles de novo, então fez questão de deixar aquilo bem claro ali mesmo.

Jack tremia de fúria, apontando para Rebecca. "Você... você é inacreditável! O sr. e a sra. Holmes até escreveram uma carta de agradecimento e—"

"Poupe-me", Rebecca o interrompeu, com a voz pingando desdém. "Eu não preciso disso. Se vocês dois sumirem da minha frente, já vai ser agradecimento suficiente."

Elena falou, a voz calma, mas distante. "Eu vou embora depois de preparar o remédio da vovó."

Rebecca apenas zombou. "Nem precisa. Sua avó já está dormindo."

Kayla entrou na conversa, com o queixo erguido e os olhos cheios de ressentimento. "Elena, se você sabe o que é melhor para você, desaparece logo. Não há lugar para você na família Walsh."

Durante todos aqueles anos, Kayla culpou Elena por ter roubado a vida dela e feito com que sofresse num vilarejo esquecido. Na visão dela, deixar Elena ir embora sem exigir compensação por aqueles dezoito anos perdidos já era generosidade demais.

O rosto de Elena estava quase pálido como o de um fantasma sob a chuva. Seus lábios se curvaram num leve sorriso de deboche, e seus olhos escuros se fixaram em Kayla. Para Elena, tirando as roupas caras, Kayla continuava completamente deslocada.

Kayla sentiu um arrepio percorrer a espinha sob o olhar de Elena, mas se obrigou a soltar um muxoxo. "O que está olhando? Eu sou a verdadeira herdeira dos Walsh. Você não é nada."

Os lábios de Elena se entreabriram, mas Rebecca entrou na frente antes que ela pudesse falar. "Elena, quantas vezes eu tenho que dizer? Vá embora."

Elena não se deu ao trabalho de discutir. Olhou para a casa uma última vez, deixou a cesta de bambu junto à porta e se virou, os ombros caídos só um pouquinho.

As palavras da avó ecoaram em sua mente. "Lena, sendo você uma Walsh ou não, sempre será minha menina preciosa."

Rebecca e Kayla observaram Elena finalmente ir embora e trocaram um olhar de alívio e satisfação. Estavam preocupadas que ela usasse o carinho da avó como desculpa para ficar.

Jack lançou um olhar fulminante para as duas mulheres na escada, a voz trêmula de raiva. "Vocês vão se arrepender disso, podem esperar."

Rebecca soltou uma risada e balançou a cabeça, como se não conseguisse acreditar no que estava ouvindo. "Eu já fiz mais do que o suficiente por ela. Do que eu deveria me arrepender?"

Jack quis dizer mais alguma coisa, mas Elena o chamou baixinho. "Jack, vamos."

Ele engoliu as palavras e a seguiu, com a fúria queimando em seu peito. Os Walsh não faziam ideia do que tinham acabado de jogar fora. O sr. e a sra. Holmes haviam preparado dez conjuntos de joias sem preço, dez mansões de luxo na capital e um bilhão em dinheiro como presente de agradecimento. Um dia eles perceberiam o tamanho do erro que cometeram.

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