Capítulo 3 3
Elena caminhou mais um pouco e então se virou para lançar um olhar a Jack, que vinha logo atrás, completamente coberto de lama.
— Então, cadê o carro?
Jack abriu um sorriso sem graça e passou a mão pelo cabelo enlameado.
— Sobre isso... eu me perdi no caminho, aí começou a cair o maior temporal, e o carro atolou num lamaçal. Não consegui tirar, então peguei carona até a vila no trator de um velhote.
Elena apenas ficou encarando-o. Não era de se admirar que ele estivesse daquele jeito. Sinceramente, ela também não estava muito melhor. Se Jack parecia um monstro de lama, ela era uma bagunça encharcada.
— A que distância você deixou ele? — perguntou.
Jack hesitou.
— Ah... provavelmente... mais de dez quilômetros? Talvez um pouco mais... — A voz dele foi sumindo, e ele olhou para qualquer lugar, menos para ela.
Jack tentou consertar as coisas depressa.
— Senhorita, talvez seja melhor a gente esperar um pouco e ver se passa algum carro indo pra cidade?
Mas já estava tarde, a chuva caía forte e, numa vila de montanha como aquela, todo mundo provavelmente já estava em casa e dormindo. Conseguir uma carona ia ser difícil. Elena até tinha uma motocicleta, mas ela tinha ficado lá no Walsh.
— Vamos só andando — disse ela.
Caminharam em silêncio por uns dez minutos, a chuva encharcando as roupas, até que, de repente, faróis surgiram atrás deles.
Jack se animou.
— Senhorita, tem um carro! — Ele começou a acenar com os braços, mas o sedã de luxo preto mal diminuiu; passou voando, buzinando. Os pneus levantaram um jato enorme de água barrenta, encharcando os dois da cabeça aos pés.
Elena fechou os olhos e suspirou.
Jack limpou o rosto com a manga e resmungou:
— Só porque você dirige um Rolls-Royce não quer dizer que é dono da estrada. — Ele parou, então franziu a testa. — Espera... um Rolls-Royce?
Ele ficou olhando o carro se afastar, vendo as lanternas traseiras desaparecerem na escuridão. O que um carro daqueles estava fazendo num lugar como aquele?
Elena percebeu a expressão dele.
— O que foi?
Jack balançou a cabeça.
— Deve ser coisa da minha cabeça. Por um segundo, eu achei que conhecia aquele carro.
A placa que ele tinha visto de relance era quase idêntica à de Damien Clifford, o filho mais velho de uma das famílias mais poderosas da Capital. Mas isso não podia estar certo. Por que ele estaria por ali?
Elena também tinha notado o carro. Lembrou-se do homem em quem esbarrou mais cedo na montanha, o sujeito que parecia ao mesmo tempo azarado e cheio de si. Ela franziu a testa, mas afastou o pensamento. Não era problema dela.
Enquanto isso, no banco de trás daquele mesmo Rolls-Royce, um homem estava largado, encharcado e pálido. Era Damon. Ele segurava um pingente barato, do tipo que se encontra em qualquer feira, com um único caractere entalhado no verso: E.
Ele ergueu os olhos para o homem ao lado, a voz cansada e áspera.
— Verifique todo mundo que esteve na montanha Highridge esta noite. Eu quero encontrá-la.
Zeke assentiu na mesma hora.
— Sim, senhor. — Aquela noite tinha chegado perto demais. Se aquela garota misteriosa não tivesse aparecido, Damon provavelmente não teria sobrevivido.
De volta à estrada, Elena e Jack caminharam por mais dez minutos até finalmente avistarem uma caminhonete pequena. O motorista, um rapaz que tinha ido instalar aparelhos de ar-condicionado na vila, estava voltando para a cidade. Bastou olhar para os dois para fazer sinal, mandando entrarem na cabine sem pensar duas vezes.
Enquanto sacolejavam pelo caminho, Jack pediu que ele parasse quando chegassem à estrada asfaltada. Ele tirou do bolso um cartão de visitas encharcado e entregou ao rapaz.
— Se você algum dia precisar de ajuda, me liga.
O motorista sorriu, pegou o cartão e o jogou no painel.
— Pode deixar.
Assim que desceram, Elena viu um carro meio enterrado num lamaçal à beira da estrada, completamente coberto de barro. Ela se aproximou para olhar melhor, erguendo as sobrancelhas, surpresa.
Se ela estava vendo direito, só podia ser o mais novo carro esportivo da Ferrari, lançamento daquele ano, com apenas três unidades no mundo inteiro.
—As chaves —disse ela, com a mão estendida.
Jack parecia querer se explicar, mas apenas comprimiu os lábios e entregou as chaves.
Elena abriu a porta, entrou e deu a partida. O carro soltou um ronco feroz e, num instante, saiu sozinho do buraco de lama como se não fosse nada.
A boca de Jack ficou aberta, em choque.
O que acabou de acontecer...
—Entra! —gritou Elena, baixando o vidro.
Jack piscou, depois correu para o outro lado e puxou a porta do passageiro.
Ao que parecia, a jovem senhorita deles tinha habilidades de verdade.
—Para onde? —perguntou Elena, lançando um olhar de lado.
Jack respondeu na hora.
—A Capital, Mayfield Villas.
Elena parou, surpresa.
Mayfield Villas?
Aquilo era um endereço nobre, bem no coração da Capital, onde cada centímetro de terra custava uma fortuna. Só os verdadeiramente ricos e poderosos podiam morar ali. Mesmo que você tivesse dinheiro, provavelmente já não conseguiria comprar uma casa lá. E os pais biológicos dela moravam justamente naquele bairro?
O pai adotivo dela, Jenson, era considerado o homem mais rico de Lakeview Town. No ano passado, ele tinha conseguido comprar uma pequena vila na extremidade mais distante da Capital, com pouco menos de duzentos metros quadrados. A mãe adotiva, Rebecca, passou semanas esnobando todo mundo por causa disso.
Mas os pais de verdade dela viviam em Mayfield Villas?
—Eu achava que meus pais estavam no Distrito Norte —disse Elena.
A Capital tinha dezoito distritos, e o Distrito Norte era o mais remoto e menos desenvolvido de todos.
Jack assentiu.
—É de lá que a família do Sr. Holmes é originalmente.
Elena assentiu, entendendo.
—Segura firme —disse ela.
Jack mal teve tempo de reagir antes de o carro disparar para a frente como um foguete.
Noventa minutos depois, a Ferrari freou com um guincho diante da villa mais luxuosa de toda a Capital. A viagem deveria levar duas horas e meia. Elena fez em apenas uma hora e meia — se não precisasse ficar controlando a velocidade, provavelmente teria chegado ainda mais rápido.
Jack saiu cambaleando do carro, se agarrou a uma árvore para se apoiar e começou a vomitar. O grupo de pessoas que esperava na entrada da villa congelou, olhando, chocado.
Um homem deu um passo à frente, com expressão ao mesmo tempo atônita e preocupada. Julian, o pai biológico de Elena, foi o primeiro a conseguir falar:
—O que... o que aconteceu?
Ao lado dele, uma dama elegante, de olhos suaves, apressou-se para a frente. Era Rosie, a mãe de Elena. Ela falou ansiosa:
—Jack, o que houve? Você trouxe minha filha de volta?
Jack continuou a ânsia, mas conseguiu apontar, tremendo, para o banco do motorista.
Julian e Rosie correram até lá.
Elena saiu do carro e encontrou um par de olhos lindos, avermelhados nas bordas, cheios de calor. Rosie parecia tão digna e graciosa, com traços delicados quase um espelho dos de Elena.
—Elena... é você mesmo —sussurrou Rosie, com a voz trêmula.
Ela puxou Elena para um abraço, envolvendo-a com força. Tinha um cheiro suave, floral, e seu abraço era tão quente... Elena nunca tinha sentido nada parecido. Rebecca nunca a abraçara, nem uma vez. A única pessoa na família Walsh que já demonstrara cuidado de verdade por ela fora a avó.
Rosie a apertou, com o coração doendo ao perceber que Elena estava encharcada e tremendo.
—Ah, minha pobre Elena... olha você, toda molhada e tão magrinha. Eles realmente te trataram bem na casa dos Walsh?
Elena esboçou um sorriso fraco.
—Eu estou bem —disse, baixinho.
Julian, normalmente tão comedido, estava com lágrimas nos olhos. Ver as roupas simples, enlameadas, de Elena era quase insuportável. Que tipo de vida a filha dele vinha levando todos esses anos? Eles tinham achado que os Walsh cuidariam bem dela. Como puderam deixá-la sofrer assim?
