Capítulo 4 4

“Tudo bem, Rosie”, disse Julian, baixinho. “Vamos deixar a Elena entrar e trocar por algo limpo. Depois conversamos com ela direito.”

Rosie enxugou as lágrimas depressa e assentiu, com o coração doendo. “Sim, claro. Não acredito que eu me esqueci. Elena, vem, vamos te levar pra dentro.”

Não eram os Walsh a família mais rica de Lakeview Town? O estilo de vida deles não deveria ser tão precário. Como puderam deixar a filha preciosa dela acabar daquele jeito? Rosie não conseguia evitar a pergunta: será que os Walsh eram mesmo tão ricos quanto todo mundo dizia, ou será que algum dia chegaram a se importar de verdade com a criança dela?

Elena caminhou entre Julian e Rosie enquanto os dois a conduziam pelos enormes portões da mansão. O terreno se estendia para todos os lados: uma fonte que tocava uma música suave, um jardim explodindo de flores exóticas, uma piscina cintilante e até um heliponto. Era quase informação demais para absorver.

Serviçais estavam em duas fileiras alinhadas, uma de cada lado da entrada principal. Quando Elena entrou, todos se curvaram profundamente.

— Bem-vinda de volta, senhorita Holmes.

Julian pousou uma mão quente no ombro de Elena. “Esta é a sua casa agora, Elena.”

Rosie sorriu por entre as lágrimas. “Sim, Elena. Estamos em casa.”

Por dentro, um longo corredor se estendia à frente, com cômodos se abrindo dos dois lados. Havia uma sala de estar aconchegante, um escritório com estantes altas e uma sala de jantar que parecia ter saído de uma revista. O lugar era lindo, e cada canto tinha uma decoração com estilo próprio.

Na sala de estar, um homem idoso de cabelos prateados estava sentado com a postura impecável no sofá, segurando uma bengala. Não se mexeu; apenas observou Elena com um olhar afiado, sem piscar. A testa dele estava franzida desde o instante em que ela entrou.

Então aquela era a neta de verdade dele, a que tinham trazido para casa depois de tantos anos? Por que ela estava tão mal-arrumada?

Elena o notou na hora, e seu instinto disse que aquele velho não estava feliz em vê-la.

Julian e Rosie a levaram até ele, os dois radiantes de empolgação. “Pai, a Elena voltou.”

A expressão de desaprovação do Sr. Holmes apenas se aprofundou. Ele não se levantou; só ficou encarando Elena.

— É assim que a filha da família Holmes deveria parecer? Vão rir de nós. Levem-na para o andar de cima e deem um jeito nela agora.

O clima de alegria na sala sumiu num instante.

Julian hesitou e então tentou amenizar. “Pai, a Elena pegou chuva no caminho até aqui. Por isso ela está assim.”

O velho virou o rosto, desdenhoso. “Não vi mais ninguém encharcado daquele jeito.”

Nesse momento, a voz de Jack veio da porta. “Senhor, o senhor não sabe como foi. A chuva em Lakeview Town estava caindo com tudo, e as estradas estavam uma bagunça.”

Todos se viraram para olhar. Jack estava ali, coberto de lama da cabeça aos pés, os dentes aparecendo num sorriso. Se não fosse pelo porte e pela voz, teria sido impossível reconhecê-lo.

Rosie pigarreou, levando a mão à boca. “Pai, olhe para o Jack. Ele está ainda pior do que a Elena.”

Elena lançou um olhar ao avô, que parecia constrangido e irritado. Ela falou com calma: “Se o senhor tivesse ido lá fora, estaria em estado ainda pior do que o Jack.”

A sala inteira ficou em silêncio.

O Sr. Holmes a encarou. “O que foi que você disse?”

“Só estou dizendo a verdade.”

Ele se eriçou. “Eu sabia. Criada numa família pequena, sem educação nenhuma.”

A voz de Elena continuou fria. “Se eu não tenho educação, então o senhor só está usando seu status para me intimidar.”

Ele ia responder, mas Julian se colocou rapidamente na frente de Elena, protetor. Olhou para o pai, cansado e frustrado. “Pai, a Elena acabou de chegar em casa. Não dá pra pegar leve com ela?”

A voz de Rosie tremeu quando ela também tomou a palavra. “Pai, se o senhor quer culpar alguém, culpe a mim e ao Julian. Não desconte na Elena. Ela ficou perdida por dezoito anos, e a culpa é nossa.”

Rosie abraçou Elena bem forte, os olhos vermelhos de tanto chorar. Dezoito anos. Sua filha preciosa tinha estado lá fora, no mundo, por dezoito anos. Cada vez que pensava nisso, o coração doía, agudo e implacável.

O velho soltou um resmungo baixo e se levantou do sofá. “Chega. Não quero dizer mais nada, mas vou ser claro. Keira ainda é minha neta e membro da família Holmes. Eu espero que as duas meninas se deem bem. Vou voltar para o meu quarto.”

Ele balançou a cabeça e se apoiou na bengala ao sair da sala de estar. Elena não conseguiu evitar franzir a testa.

Keira?

Rosie percebeu a confusão dela e disse com suavidade: “Keira é... a criança que seu pai e eu criamos. É uma longa história. Vá tomar um banho e trocar de roupa. Eu explico tudo quando você terminar.”

Elena assentiu. “Tá bom.”

Julian e Rosie haviam preparado um quarto para ela no segundo andar. Pegava sol e parecia saído de um conto de fadas. Era maior do que a vila inteira da família Walsh, com quarto, uma sala de estar, closet, uma área para joias, um espaço para maquiagem, banheiro e até uma sacada com vista. Era informação demais para absorver.

Logo, as empregadas trouxeram arara atrás de arara de roupas.

Rosie ficou ao lado dela, ajudando a escolher. “Elena, dá uma olhada. São todas as coleções mais recentes das marcas mais populares da Capital. Você gostou de alguma?”

Era verão, então a maioria das peças era leve e fresca. Os olhos de Elena percorreram as fileiras intermináveis de roupas. Ela pegou uma etiqueta, e sua expressão mudou para algo indecifrável.

Rosie percebeu e perguntou baixinho: “Elena, você não gostou? Se não gostou, eu mando trazer mais opções agora mesmo.”

“Eu gostei”, Elena respondeu com um sorriso pequeno e complicado.

Rosie não acreditou muito e falou depressa: “Tudo bem, escolhe alguma coisa por enquanto. Daqui a pouco eu peço para mandarem mais roupas.”

“Não, sério. Eu gostei.” Elena estendeu a mão e pegou um vestido branco simples. “Esse aqui tá bom.”

Cerca de vinte minutos depois, Julian esperava lá embaixo, mal conseguindo ficar sentado. Quando Elena finalmente apareceu, com aspecto renovado e já trocada, ele quase desabou em lágrimas.

Ela estava tão parecida com a mãe.

Naquele vestido branco, Elena estava deslumbrante, como um pedaço de cristal puro — límpido, brilhante e impossível de ignorar. Ela tinha o mesmo tipo de beleza que a mãe tinha quando era jovem, mas também havia algo diferente. Rosie tinha uma doçura graciosa, um calor que fazia as pessoas se sentirem à vontade. Elena, por outro lado, carregava uma força fria e silenciosa, como uma espada escondida na bainha, com o fio afiado logo abaixo da superfície.

“Elena, minha menina”, Julian engasgou com as palavras, as lágrimas escorrendo livremente pelo rosto. “Como eu e sua mãe deixamos você escapar?”

Elena sentiu uma dor estranha no peito. “Como vocês descobriram que eu era mesmo a filha de vocês?”

Julian enxugou o rosto e lançou um olhar para Rosie, soltando um suspiro pesado. “A cidade inteira estava falando da família Walsh procurando a filha verdadeira. Sua mãe e eu percebemos que a senhora Walsh deu à luz no mesmo hospital, exatamente no mesmo dia que a sua mãe. Parecia coincidência demais, então começamos a investigar em silêncio. A gente nunca imaginou... que no fim tinha havido um erro. Os bebês das três famílias foram trocados na maternidade.”

A testa de Elena se vincou. “Três famílias?”

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