Capítulo 1 Pessoas inferiores
“Nora, você não é uma Flynn. Seus pais de verdade moram no distrito velho.”
“Nós criamos você por vinte anos. Não estamos pedindo gratidão. Só queremos que você saia do caminho para a Leila. Você concorda com isso?”
Mesmo agora, três meses depois, as palavras de Kevin e Mary ainda ecoavam nos ouvidos dela.
A frieza no rosto dos dois deixara claro: mal viam a hora de empurrar Nora Thorne para fora.
E, ainda assim, na suposta festa de despedida de Nora, seu pai adotivo, Kevin Flynn, enfiou em sua mão um colar com um trevo de quatro folhas. “Nora, eu peguei isto para você. Use. Vai manter você segura.”
Ele tentou parecer triste, mas o esforço era evidente.
Nora ficou ali como uma flor forçada a desabrochar no inverno, olhos baixos, expressão indecifrável. Não tinha o menor interesse em barganhar com a ternura encenada da família Flynn. Aceitou o colar com dedos pálidos e perguntou, sem emoção: “Já posso ir agora?”
A expressão de Kevin se contraiu. Sustentar a encenação de pai dedicado estava ficando difícil. “Sua família de sangue ainda não chegou. Espere mais um pouco.”
“Vou ver o portão.”
Nora estava vestida com simplicidade, em preto e cinza, a pele de uma brancura marcante.
Branca demais, quase irreal, como se todo calor tivesse sido drenado dela.
Kevin engoliu a irritação e a observou se afastar, os punhos cerrados.
“Viu? Eu falei. Aquela garota é arisca. Nada a ver com a nossa própria filha”, sibilou Mary Johnson, chegando mais perto. “Lixo de favela, do começo ao fim.”
Kevin ergueu a taça de vinho e a girou, um brilho frio por trás das lentes. “Com essa atitude, ela vai aprender como é a vida quando voltar pra lá.”
Três meses atrás, a irmã de Kevin, Evelyn Flynn, ficou gravemente doente e foi levada para a UTI.
Nora se oferecera para fazer os exames e o teste de compatibilidade, determinada a doar medula se fosse possível.
Ninguém esperava que aquele único ato de devoção expusesse a verdade: Nora não era a filha biológica dos Flynn.
Kevin e Mary mexeram todos os pauzinhos e gastaram o que fosse preciso para encontrar a filha desaparecida.
Quase foi fácil demais. Em dois meses, um número desconhecido ligou para a casa dos Flynn. A pessoa disse ser da família biológica de Nora e combinou que alguém viria buscá-la hoje.
Vinte anos atrás, quando Mary deu à luz no hospital, tudo tinha sido um caos.
Ela não conseguia parar de pensar naquilo: um erro, um ato de negligência, e a filha verdadeira deles crescera em outro lugar, enquanto eles despejavam tempo e dinheiro criando Nora. Só de pensar, ela fervia.
Mas, por questão de aparência, os pais Flynn mantinham o ressentimento trancado entre quatro paredes.
Ouvindo-os, Leila Flynn — o verdadeiro centro das atenções naquela noite —, de pé num vestido em tom perolado, perguntou com uma inocência ensaiada: “Mãe, pai... eles são mesmo a família dela? E se forem golpistas? Eu ouvi dizer que o distrito velho é perigoso. Tráfico, golpes, aquela bagunça toda...”
— Quem se importa com o que acontece com ela? — Mary disparou. — Que vá tarde.
A satisfação tremeluziu no rosto de Leila antes que ela a apagasse. Manteve a voz suave:
— Mesmo assim, eu deveria me despedir da Nora.
Afinal, ela era a filha da família Flynn: doce, sensata, nascida para pertencer. Precisava parecer graciosa.
Nora estava parada junto à entrada do pátio, com as luzes e as risadas atrás dela parecendo vir de outro mundo.
A criada, Willow, largou a bolsa de viagem de Nora no chão. Papéis escorregaram para fora e se espalharam pelas pedras.
Nora lançou um olhar, seus olhos límpidos e frios captando tudo.
— Ops, foi mal, Nora. Sou tão desastrada — disse Willow, sem fazer menção de ajudar. — Suas tranqueiras caíram.
Desde que os Flynn tinham encontrado Leila, os funcionários tinham se apressado em escolher uma nova favorita, e Nora vinha pagando por isso.
Uma leve ardência apertou o peito de Nora. Aquelas páginas eram a prova de anos de trabalho.
— Você se importa tanto assim com papel velho? — a voz de Leila cortou o ar quando ela chegou. Trocou um olhar com Willow e então olhou Nora de cima. — Planejando vender isso para pagar a janta quando voltar?
Nora não estava disposta a discutir. Agachou-se para juntar os papéis. Por um breve instante, a folha de cima mostrou um título: “Relatório de Pesquisa sobre Implante Cerebral”.
Depois de vinte anos de conforto, as mãos dela eram lisas e de ossos finos. Uma pulseira de diamantes no pulso captou a luz. Só aquilo já bastava para despertar inveja.
Leila reconheceu na hora. Era uma relíquia dos Flynn.
— Onde você conseguiu isso? — O ciúme deixou a voz dela mais afiada. — Isso não era para ir para quem se casasse com a família Smith? Você nem é uma Flynn, e o James não vai casar com você. Por que está usando?
Nora se levantou, enfiou os documentos de volta na bolsa e fechou o zíper com calma, sem pressa. Então se virou, o olhar firme e gelado.
— Se você quer, é só dizer. Não precisa se exaltar.
Como se cortasse a encenaçãozinha de Leila, Nora tirou a pulseira.
Leila quase explodiu. Ao ver Nora realmente oferecendo, ergueu o queixo e zombou:
— Estou te avisando para não esticar a mão para o que não é seu. Não inventa moda, sua coisinha barata.
— Quem é barata? E quem decide isso? — Nora prendeu a pulseira entre dois dedos, com um fio duro no olhar.
Leila estendeu a mão para pegá-la.
— Precisa alguém decidir? Ouvi dizer que sua família biológica tem três filhos homens além de você. Pobre se reproduz como coelho, né? Só bocas para alimentar. Devem estar revirando lixo atrás de resto de comida.
Mas, antes que os dedos de Leila se fechassem em volta dela, Nora soltou a pulseira.
Ela bateu no chão, aos pés de Leila.
