Capítulo 3 Pássaros de uma pena
Apesar de a família deles ser podre de rica em Cloud City, ainda assim precisa se desdobrar para agradar quem está acima.
— Como é que poderia ser placa do governo? Leila, você deve estar vendo coisa — disse Mary, com deboche.
Leila descartou a dúvida. Na verdade, ela estava ansiosa para ver o quão miserável a vida de Nora ficaria quando ela voltasse para as favelas.
Se fosse obrigada a se vender e virasse o tipo mais baixo de brinquedo de alguém, seria perfeito!
Nora estava sentada no carro, com a coluna ereta e os olhos baixos; um vinco discreto sobre cada pálpebra, e cílios longos e espessos semicobrindo o olhar profundo.
Logan só conseguia roubar olhares pelo retrovisor quando paravam no sinal vermelho.
Não tinha como não se maravilhar com o que a genética era capaz de fazer. Os traços de Nora eram surpreendentemente parecidos com os da mãe, Talia Thorne, quando jovem: linhas bem definidas, proporções perfeitas.
Mas Nora era bem diferente de Talia. Talia era calorosa e alegre; Nora, fria e silenciosa.
Nora olhou pela janela para as ruas familiares que vinha observando havia vinte anos.
Na família Flynn, não havia nada de que sentir saudade.
A única coisa que ela não conseguia largar era Evelyn, ainda na UTI.
Ao pensar em Evelyn gravemente doente, uma dor relampejou nos olhos de Nora. Ela disse a Logan:
— Ir para o Condado de Ironvale depois não vai ser um problema, certo? Antes eu preciso ver alguém.
— Srta. Thorne, não vamos para o Condado de Ironvale. Vou levá-la ao aeroporto, e um jato particular vai levá-la para Phoenix City.
— Phoenix City? Não o Condado de Ironvale? — Nora confirmou de novo.
Phoenix City era a capital, ainda maior e mais próspera do que Cloud City, mas a família Flynn tinha deixado claro que a família Thorne morava no Condado de Ironvale, um lugar pobre e atrasado.
Embora Nora percebesse que aquele Rolls-Royce Ghost era especial, ela presumiu que a família Thorne o tivesse tomado emprestado para manter as aparências, afinal, provavelmente ninguém no Condado de Ironvale poderia bancar um carro tão caro.
Além disso, os pais da família Thorne não trabalhavam e tinham três filhos para sustentar.
— Sim. A casa ancestral do Sr. Thorne e da Sra. Thorne fica no Condado de Ironvale. Este carro está parado lá há muito tempo. Pensei que a senhorita talvez tivesse muita bagagem e precisasse de um transporte mais conveniente, então fui até o Condado de Ironvale e o trouxe dirigindo.
Logan tinha um rosto honesto e não parecia estar mentindo.
O canto da boca de Nora se ergueu, interessada...
Aquilo estava ficando interessante. Ao que parecia, a família Thorne não era tão quebrada quanto tinham dito.
Pelo contrário: uma família capaz de deixar um carro de luxo personalizado parado, sem usar, talvez fosse até mais abastada que a família Flynn!
Nora lhe deu o endereço, e Logan parou o carro do lado de fora do hospital.
Enquanto ela caminhava em direção ao prédio principal das enfermarias, Logan bateu no pneu com a ponta do sapato e suspirou, impotente. Olhando de perto, a calota também estava coberta de ferrugem.
Nora riu baixinho. Logan era meio cativante.
O hospital fervilhava de gente. Nora foi direto ao andar da UTI e viu dois médicos correndo em direção ao quarto de Evelyn.
— Vocês conseguiram falar com a família da paciente? O que disseram? Ainda não há doador de fígado. Mantemos na diálise ou paramos?
— Não sei. Eles contrataram um cuidador e pagaram as despesas, mas ninguém veio visitar!
— Para irmãos fazerem isso... se ela estivesse consciente, como não ficaria de coração partido?
Eles vestiram os trajes de proteção e entraram no quarto de Evelyn. Nora parou e não foi além.
Aquilo era a família Flynn — uma família sem calor humano!
Kevin só sabia se gabar e falar de negócios.
Mary vivia para competir com as amigas, jogando golfe e fazendo tratamentos de spa.
A preciosa filha deles, Leila, era do mesmo jeito. Estava de volta havia dois meses e não tinha posto os pés no hospital uma única vez!
A pobre Evelyn era irmã do próprio Kevin.
Ao longo dos anos, ela ajudara Kevin a tocar o Grupo Flynn, sozinha, sem filhos.
A família mais próxima que ela tinha era justamente a casa do Kevin.
Mas, no fim, com Evelyn em estado crítico, com a vida por um fio, a família Flynn não conseguia nem oferecer o cuidado mais básico!
Nora se lembrava de que tinha sido Evelyn quem a ensinara a falar, a comer, quem lhe contava histórias e cuidava dela quando estava doente...
Quando os olhos de Nora se encheram de tristeza, uma voz límpida chamou:
— Nora, você veio?
Nora se virou. Um jovem alto entrou em seu campo de visão; sua presença era luminosa e cheia de energia, e o jaleco branco não conseguia esconder a vitalidade que ele exalava.
— Toma, me ajuda a entregar isso pra Evelyn.
O frasco de remédio que Nora segurava estava escorregadio de suor.
Ela o carregara na mão o caminho inteiro desde a casa da família Flynn.
— Peptídeo polissacarídeo? De onde você tirou isso? — Os olhos de Sidney Robinson se acenderam quando ele avançou para pegar. — Isso pode combater o câncer com eficácia, mas ainda não passou por testes clínicos. Não dá pra comprar, por mais dinheiro que você tenha!
— Não se preocupe com isso.
Nora olhou demoradamente para o quarto de Evelyn.
— Se nada der errado, esse remédio deve ajudar a Evelyn a aguentar até encontrarem um doador de fígado compatível.
Era tudo o que ela podia fazer por Evelyn.
— Nora, você é incrível! — Sidney, empolgado, quis abraçá-la, mas ela percebeu e recuou com cautela dois passos.
Sidney coçou a cabeça, sem graça.
— A família Flynn simplesmente ignora ela, mas você, uma sobrinha adotiva, se preocupa tanto. Eles não sentem vergonha?
— Eu só quero fazer o que posso. Não tenho tempo pra me preocupar com eles. — Nora olhou para Sidney com sinceridade. — Enquanto eu estiver fora de Cloud City, por favor, cuide bem da Evelyn.
— Sem problema! — Sidney concordou de pronto. Além de Nora, ele não tinha conhecido ninguém no hospital que conseguisse colocá-lo no lugar com tanta facilidade.
Sidney se formara numa faculdade de medicina renomada. Suas notas excelentes e sua competência profissional o deixavam orgulhoso e distante.
Mas, depois de conhecer Nora por acaso, ele descobriu que aquela garota bonita e dedicada não só tinha uma base sólida em medicina, como também uma capacidade de pesquisa acadêmica que o deixava comendo poeira.
Nora conseguia perceber insuficiência cardíaca só pelos números da saturação de oxigênio.
Quando uma mãe recém-parida começou a ter soluços, Nora imediatamente mandou iniciar medidas de emergência, diagnosticando embolia de líquido amniótico.
Sidney ficou espantado com o julgamento dela. Sua atitude em relação a Nora passou de curiosidade para um entusiasmo escancarado. Durante a internação de Evelyn, ele realmente aguardava ansioso para ver Nora.
— Obrigada.
Nora estava prestes a ir embora quando Sidney agarrou a manga de sua jaqueta preta.
— Um “obrigada” não basta. Por coincidência, eu tenho um problema espinhoso aqui e preciso que você me ajude.
Antes que ela pudesse recusar, Sidney a puxou até a sala de discussão.
— John Percy está no nosso hospital. Pela imagem pré-operatória, é um aneurisma cerebral que pode causar morte súbita a qualquer momento. Mas o problema é que o médico que consegue fazer essa cirurgia só vai chegar daqui a dois dias.
— E a família do paciente está numa viagem de negócios em Phoenix City. Sem um familiar pra assinar, a direção também não quer correr o risco.
Sidney continuou falando sem parar:
— Me ajuda a calcular quanto tempo dá pra esperar com segurança e qual é o risco de ruptura.
Na estação de trabalho de Sidney, ele mostrou os raios X, enquanto, em outras bancadas, dois médicos-chefes discutiam com veemência.
— Se acontecer alguma coisa com o John e ele não sair vivo da mesa de operação, quem vai se responsabilizar? Você ou eu? — A médica de meia-idade cuspia as palavras, batendo o prontuário na mesa, os olhos em chamas.
O outro chefe esfregou, irritado, o cabelo ralo, angustiado.
— A gente está entre a cruz e a espada! Se ele morrer e o Oliver colocar a culpa na gente, como é que explicamos?
— Então a gente espera o especialista de fora e dá amlodipina e atorvastatina pro John primeiro, com monitoramento contínuo de oxigênio. Esperamos até ter uma segurança razoável da cirurgia antes de operar!
A chefe gritava a plenos pulmões. Depois de olhar as imagens, os olhos lindos de Nora ficaram graves, e sua voz fria e clara interrompeu:
— Ele aguenta no máximo duas horas, não dois dias. Se a cirurgia não for providenciada imediatamente, a família só vai chegar pra buscar um cadáver!
