Capítulo 4 Pessoas ociosas e diversas
Assim que aquelas palavras foram ditas, a discussão arrefeceu.
O que se seguiu foram alguns resmungos de desdém.
O clique agudo de saltos no piso ecoou quando a diretora foi até a estação de trabalho de Sidney.
A diretora mais jovem de todo o hospital parecia completamente alheia ao fato de Nora estar bem na frente dela. Ela apenas aproveitou o momento, e, quando se roçaram ao passar uma pela outra, arrancou o raio-X das mãos de Nora.
— Sidney, quantas vezes eu vou ter que dizer para você não deixar nenhuma pessoa não autorizada entrar aqui?
Ficou claro que a presença de Nora colocara instantaneamente as duas diretoras do mesmo lado.
A outra diretora entrou na conversa na mesma hora.
— Exatamente. Se todo mundo trouxer germes de fora, qual é o sentido de todos os nossos procedimentos de desinfecção?
— Essas eram as regras que o antigo diretor estabeleceu.
Ao ouvir aquilo, os punhos de Sidney se cerraram com força.
— Ela...
Antes que ele terminasse, Nora estendeu a mão e segurou a manga dele, o olhar frio fixo nas duas pessoas à frente.
— Vocês estão falando de Parker Wright?
A diretora não conseguiu evitar de travar. Décadas antes, Parker havia sido transferido discretamente pela administração para Phoenix City. Na verdade, além de estabelecer aquelas regras e procedimentos, Parker nunca tinha aparecido publicamente, e sua identidade era confidencial.
Como aquela jovem, que mal parecia ter vinte anos, sabia que o sobrenome de Parker era Wright?
— O quê, você conhece ele?
Nora sorriu de leve.
— Tomei café com ele na semana passada.
— Mas eu ouvi ele dizer que o hospital só tem uma regra: fazer todo o possível para salvar cada paciente.
Enquanto falava, Nora enfiou a mão no bolso e tirou um frasquinho branco de spray, então apontou para a pia ao lado da porta.
— Quanto à desinfecção, eu me higienizei antes de entrar. Álcool setenta por cento.
— Mas eu reparei que na pia só tem sabonete comum, e tem um monte de resíduo seco e encrostado ao redor da torneira. Parece muco ressecado.
— Acho que da próxima vez que eu vir o Parker, eu devia perguntar na cara dele se esses padrões de desinfecção são aceitáveis.
A discussão se calou de novo, mas, ao contrário da última vez, agora foi a vez de Sidney soltar um resmungo.
A expressão de Nora não mudou.
— Podemos voltar a discutir o plano de tratamento do paciente agora?
— Hazel, eu tenho uma cirurgia que preciso acompanhar. — A outra médica, percebendo o clima constrangedor, arrumou uma desculpa e saiu.
A porta do consultório foi empurrada com força e, em seguida, fechada com cuidado.
Só a diretora, Hazel Carter, permaneceu na sala, olhando de maneira desconfortável para Sidney e Nora.
Mas era evidente que ela ainda não estava pronta para recuar.
— Então, qual é a sua ideia brilhante?
A voz de Nora não era alta, mas era firme.
— Agendar a cirurgia imediatamente.
Hazel parecia ter antecipado essa resposta, e o canto da boca, que tinha caído havia pouco, voltou a se curvar para cima.
— Mas o nosso hospital simplesmente não tem uma equipe capaz de realizar essa cirurgia agora, especialmente sem um cirurgião-chefe.
— A não ser que... — Por trás dos óculos, aqueles olhos afiados se estreitaram. — A não ser que ela vá ser a cirurgiã-chefe?
Sidney, ao lado, percebeu algo de repente e se apressou em estender a mão para segurar a manga de Nora.
Mas era tarde demais.
Sem hesitar nem por um instante, Nora assentiu.
— Se o seu hospital está mesmo com tanto medo de assumir responsabilidade, então eu posso tentar.
Antes que ela terminasse de falar, sentiu um puxão no pulso e foi arrastada para fora da sala.
Quando conseguiu se firmar outra vez, deu de cara com a expressão desesperada de Sidney.
— Nora, você não está vendo que isso é uma armadilha?
— A pessoa deitada naquela cama de hospital é o John!
Nora parou por um instante e então deu de ombros, com indiferença.
— Eu sei, e é exatamente por isso que eu preciso salvar ele. Ele é um cara bom. Até me pagou um café antes.
A expressão no rosto de Sidney foi do pânico ao completo silêncio, e ele apenas virou o rosto, sem dizer nada.
Depois de um instante, como se tivesse tomado uma decisão difícil, ele colocou as duas mãos nos ombros de Nora.
— Tudo bem, vou arriscar tudo com você. Vou ajudar nessa cirurgia.
Nora franziu levemente a testa, pôs as mãos na cintura e avaliou Sidney de cima a baixo.
— Você não disse que nasceu para ser cirurgião-chefe e que nunca ajudaria ninguém na sua vida?
Sidney coçou a cabeça, sem graça.
— O que você sabe? Se a gente conseguir fazer essa cirurgia, o cargo daquela velha vai ser meu!
— Não se preocupa. Quando eu virar diretora, a primeira coisa que eu vou fazer é trocar esse sabonete.
Nora não respondeu; apenas segurou de leve as duas mãos grandes apoiadas em seus ombros.
Sidney sentiu o coração acelerar de repente, e o olhar dele ficou ainda mais decidido.
— Nora...
No segundo seguinte, Nora sacudiu as mãos dele com firmeza.
— Você encostou na minha roupa. Lembre de desinfetar de novo antes de entrar.
Dito isso, ela se virou e voltou para a sala, deixando Sidney ali, parado, atordoado.
Lá dentro, ao ver os dois voltarem, o rosto de Hazel se abriu num sorriso.
— Então, vocês dois saíram para discutir o plano cirúrgico?
Sidney transformou todo o constrangimento de antes em irritação e apertou com força o dispensador de sabonete.
— Isso mesmo. Vou ajudar a srta. Thorne. Vamos marcar a cirurgia agora.
Hazel franziu a testa, claramente insatisfeita com aquela resposta.
— Sidney, você ainda é jovem, mas já publicou artigos e fez inúmeras cirurgias grandes. Seu futuro é promissor.
— Não destrua sua carreira por um impulso.
Sidney não suportava ouvir nenhuma oposição. Os olhos dele se arregalaram na hora.
— Minha carreira? Eu vim aqui para salvar vidas, não para construir carreira!
— Se você ainda está preocupada com essa cirurgia, eu estou disposto a colocar minha carreira inteira em jogo!
Hazel evidentemente não esperava que Sidney falasse daquele jeito com ela. As sobrancelhas, já franzidas, se juntaram ainda mais.
— Sidney, você está disposto a correr um risco desses por causa de uma garota que nem licença médica tem?
Antes que ela terminasse de falar, Sidney enfiou a mão na bolsa transversal de Nora e, ignorando a luta confusa dela, puxou três documentos.
— Isso não é da sua conta. A srta. Thorne se formou numa faculdade de medicina de prestígio. Aqui estão as credenciais dela.
— Ela não só tem licença médica, como também já participou de vários casos de tratamento no nosso hospital.
— O quê, quer que eu vá ao arquivo e puxe os registros anteriores?
Aquilo estava completamente fora das expectativas de Hazel.
Mas, àquela altura, ela se viu na mesma situação que o diretor havia descrito: entre a cruz e a espada.
Depois de respirar fundo várias vezes, Hazel, com relutância no coração, fez sua aposta final.
— Está bem. Nesse caso, vou deixar algo bem claro.
— Eu continuo me opondo a trazer médicos de origem desconhecida e habilidade incerta para participar do atendimento aos nossos pacientes. Então, se a cirurgia falhar e a família Percy jogar a culpa em nós, vocês dois vão assumir toda a responsabilidade.
Dito isso, um dedo trêmulo apontou para Sidney.
— E, se isso acontecer, você não vai precisar ficar aqui por mais tempo.
As pupilas de Nora se dilataram um pouco quando ela abriu a boca para recusar.
Como ela tinha dito, só estava se envolvendo porque John era uma boa pessoa.
Mas, se isso realmente afetasse a carreira de Sidney, então essa aposta mudaria completamente de natureza.
No entanto, Sidney já estava completamente inflamado; bateu com força na mesa ao lado.
— Fechado! Se a cirurgia falhar, eu mesmo vou ao gabinete do diretor e entrego minha demissão!
Então Sidney virou o jogo e também apontou o dedo para Hazel.
— Mas e se a cirurgia der certo?
Hazel pensou por um instante e abriu a boca, um tanto hesitante.
— Der certo? Então... então eu vou pedir desculpas a ela na frente de todo mundo e admitir que eu estava errada a respeito dela.
