Capítulo 5 Ninguém se move

A essa altura, a natureza daquela aposta havia mudado completamente.

Os dois lados já tinham colocado na mesa suas apostas mais preciosas: a dignidade de uma diretora de departamento e o futuro de dois profissionais talentosos.

Nora baixou os olhos para o relógio no pulso e então se virou para pegar o raio-X que acabara de ser arrancado dali.

— O tempo acabou. Me leve até o quarto do paciente e, em seguida, contate as enfermeiras e os outros assistentes imediatamente.

A voz de Hazel, que acabara de se acalmar, voltou a soar, cheia de incredulidade.

— Você... você está me dando ordens?

No entanto, as duas pessoas à sua frente agiram como se nem tivessem ouvido o protesto. Depois de juntarem suas coisas às pressas, empurraram a porta e saíram.

Do mesmo jeito que ela havia ignorado a reação de Nora instantes antes.

A porta do escritório bateu com força, num estrondo, como resposta ao seu ataque de fúria.

Hazel murchou na hora, desabando na cadeira.

— Isso é um absurdo, um absurdo completo! Dois moleques ainda com cheiro de leite querendo abrir o crânio de um homem de oitenta anos... isso é praticamente assassinato! Vou ligar para o Sr. Percy agora mesmo, e eu vou garantir que vocês paguem por isso!

Enquanto isso, o quarto de John já estava em plena agitação.

Para coordenar todo mundo, Nora estava em pé num banquinho, gesticulando sem parar com as duas mãos no ar, a voz rouca de tanto gritar.

— Verifiquem o ventilador e os equipamentos de monitoramento. Precisamos monitorar os níveis de oxigênio no sangue durante toda a cirurgia. Parece haver uma inflamação leve ao redor do tumor, possivelmente causada pela radioterapia. Deixem a dexametasona pronta imediatamente.

Nesse momento, a porta se escancarou, e uma série de máquinas de formatos diversos foi empurrada para dentro do quarto.

Sidney, vindo por último na fila, parecia empolgado enquanto gritava a plenos pulmões:

— Nora! Eu trouxe reforços!

Nora desceu do banquinho com um leve impulso na ponta dos pés. Franziu a testa ao encarar as estruturas metálicas que tomavam o quarto inteiro.

— São todos os equipamentos auxiliares do modelo mais recente, não é? De onde você tirou isso?

O rosto de Sidney exibia um orgulho descarado quando ele bateu no próprio peito, como se estivesse reivindicando o mérito.

— Dei um jeito de conseguir emprestado. Bom, né? Eu tenho certa influência neste hospital.

A expressão de Nora se fechou quando ela virou o rosto.

— Tirem tudo isso daqui.

De início, Sidney achou que tinha ouvido errado e, por instinto, se inclinou para a frente.

— O que você disse?

Nora ficou de mãos para trás, sem se virar.

— Na semana passada, uma cirurgia no estado vizinho usou esse lote de equipamentos novos. Um dos componentes principais não cumpria os padrões de higiene, e isso causou uma infecção grave no ferimento do paciente. A gente não pode correr esse risco.

Ao ouvir isso, Sidney ficou um pouco decepcionado e só conseguiu acenar para os internos, que encaravam as máquinas, boquiabertos.

— Pessoal, desculpem o transtorno, mas levem isso de volta. E tragam o lote antigo de equipamentos.

No entanto, Nora, que acabara de subir novamente no banquinho, vetou aquilo outra vez.

— Não. Não há tempo. Vamos começar a cirurgia agora.

Sidney sentiu a visão escurecer e as pernas bambas, quase desabando no chão.

Voltando a si, ele se atirou até o banquinho e agarrou as pernas de Nora, sacudindo-as de um lado para o outro.

— Nora, aquela velha te fez perder o juízo? Sem a ajuda de equipamento moderno, nem Deus consegue fazer uma cirurgia de tumor cerebral!

Nora puxou um dos pés com impaciência para se soltar do abraço de Sidney, franzindo levemente as sobrancelhas.

— Já desperdiçamos mais de dez minutos no escritório, e agora gastamos mais de dez preparando o campo cirúrgico. Isso significa que o paciente só tem mais uma hora e meia. Nem vou entrar no mérito se isso é tempo suficiente para concluir a cirurgia; mesmo que o equipamento chegasse agora, quanto tempo você acha que levaria para calibrar e esterilizar?

Enquanto os dois se enfrentavam naquele impasse, uma risada presunçosa soou de repente do lado de fora da porta.

— Sou médico há mais de dez anos, e esta é a primeira vez que ouço falar de alguém fazendo uma cirurgia sem a ajuda de equipamentos. Deixa eu perguntar: quando você cozinha, ainda faz fogo esfregando dois gravetos?

Todos se viraram para a porta e viram Hazel parada ali, com o diretor homem que tinha escapulido mais cedo logo atrás dela.

Pelas expressões de alegria no rosto dos dois, era evidente que tinham se unido de novo.

O diretor homem parecia inflamado e entrou atacando com ainda mais força do que antes.

— Senhorita, isso está além do que até um gênio da medicina conseguiria fazer. Agora, você devia estar rezando para ser uma especialista em desarmar bombas. Sem o apoio de equipamentos modernos, um único corte seu pode seccionar o tronco encefálico do John.

Os dois caíram na risada outra vez, as vozes ecoando pelo cômodo.

Desta vez, Nora não retrucou. Em vez disso, saltou novamente do banquinho, os olhos varrendo rapidamente as várias ferramentas na mesa de cirurgia antes de dizer, em voz baixa:

— A cirurgia vai começar. Todo pessoal não essencial, saiam imediatamente.

Sidney se moveu como um robô recebendo ordens, caminhando rápido até os dois diretores.

— Vocês dois, os médicos assistentes e as enfermeiras já estão todos designados. Não há lugar para vocês. Saiam agora, ou vou chamar a polícia por interferência maliciosa na cirurgia.

Em seguida, a porta bateu com força, e os comandos metódicos de Nora puderam ser ouvidos lá de dentro.

— Verifiquem a broca óssea, a fresa e a coagulação bipolar.

— Verificação concluída.

— Esponja de gelatina pronta.

— Sim.

A boca de Hazel se contraiu quando seus saltos altos bateram violentamente no chão, fazendo um escarcéu.

— Zachary, eu não tinha razão? É assim que eles tratam a gente, líderes sêniores!

Zachary balançou a cabeça, um tanto impotente.

— A atitude não importa tanto. Jovens sempre precisam ter ideias novas. O que me preocupa é aquela garota de origem desconhecida e o estado do John. Mesmo que o Sidney fique prometendo que assume a responsabilidade se algo der errado, se o John realmente morrer ali dentro, como é que a administração vai simplesmente nos livrar disso?

Lá dentro, o som da broca óssea já tinha começado.

Enquanto isso, as palavras anteriores de Sidney passaram pela mente de Hazel, e os olhos dela se iluminaram de repente.

— Já sei! Vamos chamar a polícia agora mesmo! O que você acha?

Enquanto falava, ela remexeu todos os bolsos, com uma expressão confusa no rosto.

— Cadê meu celular? Eu tinha certeza de que estava comigo.

Zachary, ao ver aquilo, pareceu se lembrar de algo importante e começou a caminhar em direção às escadas.

— Não se preocupa, meu celular está lá embaixo. Vou pegar. Você fica aqui e fica de olho neles. Já volto.

Vendo-o sair às pressas, Hazel parou de procurar freneticamente, e um sorriso significativo surgiu em seus lábios.

Dentro da sala, o clima tinha chegado ao auge da tensão.

Todos mantinham os olhos fixos na pinça de preensão de tecido na mão de Nora.

Para surpresa de todos, Nora, diante da mesa cirúrgica, se movia como se estivesse em transe.

Cada incisão, cada corte, caía precisamente no lugar certo.

Sidney, ao lado dela, também estava atônito.

No início, ele tinha providenciado em segredo a equipe de apoio de primeira linha do hospital, esperando exibir seus contatos diante da garota por quem estava caído.

Mas agora parecia que Nora era o verdadeiro trunfo que ele havia trazido.

De repente, um suspiro coletivo encheu a sala.

A pinça na mão de Nora tinha controlado com precisão o ponto de sangramento.

Isso significava que o trabalho de separação do tumor tinha chegado ao seu passo mais crítico.

— Limpem minha testa.

Dava para ouvir a voz de Nora tremendo levemente.

— Limpem minha testa.

A enfermeira ao lado dela estava tão absorta que não respondeu nem depois de Nora chamar duas vezes.

Sidney pegou rapidamente a gaze e se aproximou da mesa cirúrgica.

No entanto, no instante em que estendeu a mão na direção da têmpora de Nora, a sala mergulhou repentinamente na escuridão.

Logo em seguida, os bipes do ventilador e dos monitores preencheram todo o ambiente, e as luzes de emergência dos aparelhos iluminaram instantaneamente incontáveis rostos aterrorizados.

— Ninguém se mexa!

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