Capítulo 2 Vindo para levá-la para casa
Sob o brilho do lustre de cristal, o lado de dentro do braço de Sophia exibia várias marquinhas de perfuração.
Ainda vermelhas e inchadas — claramente recentes!
Todos os convidados no salão empalideceram.
“São marcas de agulha mesmo!”
“Será que ela armou tudo isso sozinha...”
Sophia tremia de pânico, tentando desesperadamente puxar o braço de volta, balançando a cabeça em meio às lágrimas. “Eu não sei... eu não sei de onde vieram essas marcas... Mãe, mãe, por favor, acredita em mim...”
Como Grace e Jack poderiam não entender o que estava acontecendo?
O rosto dos dois se fechou.
A expressão do policial também se tornou sombria. Ele avançou imediatamente para examinar as marcas no braço de Sophia e encontrou exatamente o que Eleanor havia descrito.
Ele encarou Sophia com um olhar glacial. “Srta. Brown, explique de onde vieram essas marcas de perfuração. Se você encenou tudo isso e registrou uma denúncia falsa para incriminar outra pessoa, você será responsabilizada legalmente.”
O corpo inteiro de Sophia tremia, as lágrimas escorrendo pelo rosto.
Mas ela já não tinha energia para se defender.
A reação alérgica estava piorando.
Os lábios começavam a ficar roxos, os olhos reviravam, e a respiração enfraquecia a cada segundo. Ela estava à beira de desmaiar.
Fosse o que fosse que ela tivesse feito, ela estava realmente morrendo.
“Sophia! Sophia, aguenta!” Afinal, ela ainda era sua filha. Grace se desvencilhou do policial e correu para o lado dela, chorando em pânico.
Nesse instante, o pulso de Eleanor foi agarrado com força.
Ela olhou para baixo e encontrou os olhos injetados de sangue de Grace.
Grace baixou a voz, num sibilo. “Eleanor, escuta. Você precisa assumir a culpa por isso.”
Eleanor arqueou uma sobrancelha.
“Vai dizer à polícia que colocou alguma coisa na bebida da Sophia. Depois pede desculpas e implora para ela te perdoar. É o único jeito de proteger a reputação dela. Se as pessoas descobrirem que ela tentou incriminar a irmã adotiva, a vida dela acaba.”
Grace ficou ainda mais desesperada, as unhas cravando na pele de Eleanor. “Nós te criamos todos esses anos. Está na hora de você nos retribuir. Eu prometo: se você confessar, a gente não vai prestar queixa contra você.”
Eleanor olhou para ela e, de repente, achou tudo aquilo quase ridiculamente absurdo.
“Por que eu faria isso?”
A voz dela saiu fria e sem emoção. “Nesses mais de dez anos na família Brown, eu fui tratada pior do que os empregados. Qualquer dívida que eu tivesse com vocês por me criarem, eu já paguei faz tempo — com juros.”
Ela soltou os dedos de Grace, um por um, e puxou a mão de volta.
“Em vez de perder tempo comigo, você devia chamar uma ambulância. Se ela não for para o hospital logo, vai morrer.”
Dito isso, Eleanor se virou, pegou a mala e as coisas que Grace tinha chutado pelo chão e foi embora sem olhar para trás.
Atrás dela, a Mansão Brown mergulhou no caos.
Felizmente, um dos empregados encontrou um kit de primeiros socorros e colocou uma máscara de oxigênio em Sophia enquanto esperavam a ambulância.
O policial já havia juntado todas as peças. Ele olhou para Sophia, a expressão carregada de desprezo. “Srta. Brown, considerando seu estado atual, você pode ir ao hospital com a ambulância. Mas a questão da denúncia falsa e da tentativa de incriminar outra pessoa será formalmente investigada e tratada de acordo com a lei.”
Sophia ficou deitada no sofá, respirando pela máscara de oxigênio, tremendo inteira — se era por causa da reação alérgica ou do medo, era difícil dizer.
Grace entrou em pânico e agarrou a manga do policial. “Senhor policial, minha filha está desse jeito e o senhor ainda vai levar isso adiante? Ela também foi quem foi—”
“Senhora, a lei não é brincadeira.” O policial puxou o braço, o tom impassível. “Registrar uma denúncia falsa desperdiça recursos públicos. Haverá consequências.”
Ele se virou e foi em direção à porta.
Ao passar por Eleanor, pediu desculpas a ela em voz baixa.
Eleanor não disse nada, apenas o observou ir embora.
“Sinos de Natal, sinos de Natal, tocando sem parar...”
Do nada, uma melodia alegre veio flutuando lá de baixo, da estrada.
A música brilhante, tilintante, parecia completamente deslocada naquele bairro silencioso e sofisticado.
Eleanor seguiu o som. Um caminhão de sorvete cor-de-rosa vinha rolando devagar pela avenida arborizada.
“Jingle Bells” tocava num alto-falante no teto. As laterais do caminhão eram pintadas com casquinhas gigantes e arco-íris, e uma fileira de cata-ventos coloridos pendia da frente, girando na brisa da noite.
Tudo aquilo parecia coisa de sonho.
Os convidados dentro da mansão foram atraídos pelo barulho e começaram a espiar para fora.
Grace, vigiando Sophia enquanto esperava a ambulância, olhou pela janela e imediatamente fez uma careta. “De quem é esse caminhão ridículo? O que um vendedor de sorvete está fazendo aqui? Cadê a segurança? Como é que deixaram essa pessoa entrar num bairro desses?”
O caminhão de sorvete encostou com suavidade e parou bem na frente de Eleanor.
A porta se abriu de supetão.
Um jovem saltou para fora.
Ele usava uma camisa havaiana com a gola bem aberta, bermuda de surf e chinelos. Um par de óculos escuros enormes repousava no nariz, e o cabelo amarelo-vivo era todo bagunçado pelo vento. Um pirulito pendia do canto da boca.
Ele parecia exatamente um artista de rua sem destino.
Na mão, segurava um cone de sorvete expresso.
Sabor morango, com um guarda-chuvinha de papel enfiado no topo.
“Você deve ser a Eleanor.”
Ele abriu um sorriso para ela e veio direto, enfiando o cone na mão dela.
“Prova. Pedi pra fazerem um lote especial — não muito doce, não muito pesado. Você vai adorar.”
Eleanor ficou imóvel.
Olhou para o cone na mão, depois ergueu os olhos para o cara da camisa havaiana e do cabelo amarelo.
“Quem é você?”
Ele tirou os óculos, revelando um rosto de traços marcantes, com um ar descontraído e levemente canalha. Os olhos se inclinavam um pouco nos cantos — quase idênticos aos dela.
“Eu sou seu tio Leo Mitchell. Meu irmão mais velho me mandou buscar você pra levar pra casa.”
Tio?
A testa de Eleanor se franziu de leve. Sem chamar atenção, ela observou melhor o caminhão cor-de-rosa.
Sob o brilho dos postes, a pintura tinha um reflexo estranho, luminoso. Não era tinta comum — era um acabamento perolado iridescente, do tipo que não se compra pronto, misturado com pó de gemas raras.
Os relevos na lataria pareciam infantis à primeira vista, mas eram, na verdade, padrões rococó entalhados à mão e cobertos com folha de ouro envelhecida.
Até o logotipo nos cubos das rodas tinha sido propositalmente raspado.
Mas Eleanor reconheceu na hora.
Bugatti.
A menos que estivesse enganada, a base do veículo era um Bugatti Chiron Super Sport, avaliado em mais de quatro milhões de dólares.
Aquilo não era um caminhão de sorvete. Era um artigo de luxo sobre rodas.
E as roupas do homem — pareciam algo que um andarilho vestiria, mas eram a peça mais recente de passarela de uma grife de alta-costura. O desenho nos punhos era bordado à mão. Só existiam três unidades no mundo.
Nada daquilo estava ao alcance de alguém que não fosse absurdamente, absurdamente rico.
Não tinham dito a ela que os pais biológicos viviam de assistência do governo? Que havia um irmão com deficiência e uma montanha de dívidas?
Então quem, exatamente, era esse Leo?
Leo percebeu que ela encarava e coçou a nuca, com um ar meio sem graça.
“Eleanor... você não gostou?”, ele perguntou, um pouco cauteloso.
Eleanor voltou ao presente num estalo.
Pegou o cone dele e mordeu.
Morango. Doce, mas sem enjoar; gelado e macio ao descer.
Exatamente como os que ela costumava colar o rosto no vidro para olhar quando era pequena.
Ela ergueu os olhos e, pela primeira vez naquele dia, algo quente se insinuou naqueles olhos normalmente frios e imóveis.
“Obrigada, tio Leo. Eu adorei.”
Provavelmente era a única coisa daquele dia que não a fazia se sentir mal.
Lá dentro, Grace observou os dois conversando e rindo ao lado do caminhão de sorvete e sentiu apenas desprezo.
A ambulância chegou pouco depois.
Os paramédicos estavam colocando Sophia na maca. Grace caminhou ao lado deles e, ao passar pela porta, cuspiu na direção de Eleanor. “Um sorvetinho e você já se vende? Você é mesmo patética. Vai vender sorvete com seus parentes falidos — é exatamente onde você pertence.”
Leo arqueou uma sobrancelha, já tendo uma boa ideia de quem aquelas pessoas eram, mas olhou para Eleanor. “E eles são...?”
Eleanor nem sequer olhou na direção deles. “Ninguém.”
“Você—!” O rosto de Grace ficou vermelho de raiva.
Mas Leo já tinha parado de prestar atenção nela. Ele abriu a porta do passageiro do caminhão de sorvete e fez um gesto para Eleanor entrar.
Eleanor pegou a mala e entrou sem olhar para trás.
O alto-falante no teto voltou a tocar — “Jingle Bells”, a musiquinha alegre flutuando noite adentro.
