Capítulo 3 Se algo acontecer, assumirei a responsabilidade
O caminhão de sorvete saiu do distrito de vilas e seguiu para o norte.
Eleanor observou a paisagem mudar aos poucos do lado de fora e franziu levemente a testa.
Aquela direção... não parecia estar indo para a favela.
— Tio Leo, para onde a gente está indo? — ela não conseguiu evitar perguntar.
— Para casa — disse Leo, animado.
— Mas eu ouvi dizer que a nossa casa fica num bairro pobre.
Leo pareceu sorrir.
— Isso é só para manter as aparências na internet — evita que as pessoas erradas fiquem curiosas demais. Seus pais têm um status especial, então precisam ter cuidado.
Eleanor ficou sem reação. As perguntas que ela já tinha antes voltaram de uma vez.
Quem, exatamente, eram seus pais biológicos?
— Então onde a gente mora?
— Crestview Estates.
O coração de Eleanor deu um salto.
Crestview Estates.
O endereço mais nobre de Sovereign City — uma propriedade de mil acres onde gente de fora simplesmente não conseguia entrar.
Diziam que pertencia a uma família que existia havia várias centenas de anos.
Em Sovereign City, todo mundo conhecia o nome Crestview Estates, mas quase ninguém tinha visto como era de verdade lá dentro.
Era como uma lenda — luxuosa, discreta, e com aquele ar silencioso que dizia mantenha distância.
Ela se lembrou de uma vez em que Grace tinha ido a um chá da tarde e voltou para casa em êxtase por dias, contando para qualquer um que quisesse ouvir:
— Eu fui a Crestview Estates! Só consegui ficar do lado de fora e espiar de longe, mas só aquele portão da frente já era mais impressionante do que todas as vilas do nosso bairro inteiro juntas! A dama de lá era uma Mitchell — pelo visto, um ramo da família Mitchell...
Grace tinha dito tudo isso com um orgulho que ela nem tentava esconder, como se um pouco daquele glamour tivesse respingado nela.
— Ver com os meus próprios olhos... isso já dá para uma vida inteira! Você não tem ideia. Os peixes do lago do jardim dela custam centenas de milhares de dólares cada um. Dá para sustentar uma família comum por anos!
Eleanor era pequena naquela época e, ouvindo aquilo, achou que parecia um mundo que não tinha nada a ver com ela.
Que engraçado.
A família rica da qual Grace tinha se esforçado tanto para se aproximar acabou sendo a dela.
Os Browns achavam que tinham entrado no círculo dos ricos e poderosos de Sovereign City — mas, perto de uma família daquelas, eles não eram nada.
Ela ficou em silêncio por um instante e então falou:
— Tio Leo, a gente pode parar antes?
Leo inclinou a cabeça.
— Onde?
— No Sunrise Assisted Living Center.
Leo pareceu um pouco surpreso.
— Para quê?
— Minha avó mora lá — a voz de Eleanor suavizou. — Quero vê-la uma última vez antes de ir para casa.
Leo olhou para ela pelo retrovisor e não perguntou mais nada. Apenas assentiu.
— Claro.
Eleanor realmente é bondosa, pensou ele. Depois de tudo o que os Browns fizeram com ela, ainda se importa com os mais velhos deles. Com um coração desses, não é à toa que ela é uma de nós — uma Mitchell.
Eleanor passou o endereço para ele e não disse mais nada.
Quando seus pais adotivos estavam começando o negócio, viviam ocupados demais para dar atenção a ela. Não gostavam dela, e os empregados da casa ou a batiam ou gritavam com ela. Quem a criou foi a avó.
A avó dela, Nova Ramirez, não sabia ler, mas sabia ensinar a Eleanor o nome das flores e das plantas e, nas noites de verão, contava histórias.
Quando Eleanor ficava doente, ainda pequena, era Nova quem a pegava no colo e a acalmava, repetidas vezes.
Então Eleanor começou o ensino fundamental, e Nova teve um derrame de repente. Metade do corpo parou de funcionar. Os pais adotivos de Eleanor acharam aquilo trabalhoso demais e colocaram Nova num asilo, mal indo visitá-la mais do que algumas vezes por ano.
Durante todos esses anos, Eleanor foi ver Nova todos os meses, sem falta.
O caminhão de sorvete entrou numa rua lateral e parou em frente ao Sunrise Assisted Living Center.
Era um lugar bem arrumado — hera subindo pelas paredes, algumas árvores antigas de acácia crescendo no pátio.
Eleanor percorreu o corredor e empurrou a porta do quarto no fim.
Uma senhora idosa estava deitada na cama, magra e frágil, o cabelo branco, os olhos fechados.
— Vovó. — Eleanor se aproximou e pegou a mão da velha.
A mão era tão fina que parecia quase só osso, e estava gelada.
O monitor cardíaco ao lado da cama de repente começou a apitar rápido.
A expressão de Eleanor mudou. Ela verificou depressa as pupilas e o pulso de Nova.
Tamponamento cardíaco agudo. Ela podia entrar em parada cardíaca a qualquer momento.
— Tio Leo, arrume para mim um kit cirúrgico estéril — agora! — A voz de Eleanor era urgente, mas firme.
Leo não sabia exatamente o que ela estava planejando, mas bastou ver a determinação no rosto dela para cerrar os dentes e sair correndo do quarto.
Ele mal tinha saído quando uma voz aguda veio do corredor.
— O que você pensa que está fazendo?!
Uma mulher de meia-idade, de jaleco branco, entrou a passos largos. No crachá, lia-se Vice-chefe do Corpo Clínico — Linda Smith, e o rosto dela estava tenso de desaprovação.
— Quem lhe deu permissão para tocar na minha paciente? Isto aqui é uma instituição de cuidados, não um lugar para você causar confusão!
— Dra. Smith, minha avó está com tamponamento cardíaco agudo. Ela precisa de uma pericardiocentese agora. — Eleanor manteve a voz baixa, mas havia um frio cortante nela.
— Tamponamento cardíaco? — Linda lançou um olhar para o monitor e soltou uma risada de escárnio. — Quem é a médica aqui — você ou eu? Para mim, parece que você está tentando se livrar dela para ela deixar de ser um problema seu.
A testa de Eleanor se contraiu. Seus dedos se fecharam em punho sem que ela percebesse.
Linda cruzou os braços, o tom ficando ainda mais arrogante.
— Eu conheço a condição da sua avó melhor do que você. A gente controla isso com medicação. Que cirurgia? E se alguma coisa der errado, você vai assumir a responsabilidade?
Eleanor soltou uma risada fria.
— O líquido ao redor do coração dela está comprimindo o órgão neste exato momento. Medicação não resolve isso. Quando qualquer remédio começar a fazer efeito, ela já vai ter morrido.
— Você… — Linda engasgou, então ficou vermelha de raiva. — Eu sou a médica assistente dela. Eu digo que é medicação, então vai ser medicação. Bianca, pegue a furosemida — em bolus IV!
A enfermeira ao lado dela hesitou e então se virou para ir.
— Pare. — A voz de Eleanor não foi alta, mas fez a enfermeira congelar.
Ela encarou Linda, o olhar gelado como gelo.
— Minha avó é alérgica a furosemida. Três anos atrás, exatamente esse medicamento causou um choque anafilático nela. Levaram quatro horas para trazê-la de volta. A senhora é a médica assistente dela — com certeza sabia disso, não?
A expressão de Linda ficou rígida.
Ela só tinha assumido aquela paciente havia três meses e não tinha lido o prontuário com cuidado. Não fazia ideia da alergia à furosemida.
— Eu… claro que eu sabia! — Linda disse, forçando a barra. — Eu ia usar…
Ela se atrapalhou, tropeçou nas palavras, incapaz de formar uma frase coerente.
Os bipes do monitor ficaram mais rápidos e mais urgentes. Eleanor parou de prestar atenção nela, contornou-a e foi até a beira do leito.
— Saia da minha frente.
Nesse instante, Leo voltou com um kit de emergência. Eleanor pegou, calçou luvas estéreis num movimento rápido e apanhou o bisturi.
O rosto de Linda empalideceu.
— O que você está fazendo? Como se atreve a cortar uma paciente assim? Quem vai assumir a responsabilidade se alguma coisa der errado?
— Eu. — Eleanor nem olhou para ela. A lâmina já tinha feito um corte limpo e preciso na pele de Nova.
A incisão ficou perfeita, expondo o tecido por baixo.
Ela pegou a agulha de punção, alinhou com a incisão e a empurrou devagar.
Naquele momento, algo nela mudou por completo. Ela se portava como alguém que pertencia à cabeceira de uma mesa cirúrgica.
Seus movimentos eram firmes e cuidadosos.
Depois do que pareceu muito tempo, ela disse, em voz baixa:
— Pronto.
Um líquido vermelho-escuro começou a entrar na seringa, e o peito de Nova subiu e desceu num ritmo suave e regular.
Eleanor não relaxou. Manteve a posição até a saturação no monitor voltar a noventa e três; então, retirou a agulha devagar e pressionou uma gaze no local da punção.
Tudo tinha levado menos de quatro minutos.
Leo se apoiou no batente da porta, as costas encharcadas de suor frio.
Ele era um Mitchell. Já tinha visto de tudo. Mas aqueles poucos minutos — ele sabia que nunca os esqueceria.
Uma jovem, sem equipamento, sem assistência, tinha feito uma pericardiocentese à mão.
Aquilo não exigia apenas habilidade extraordinária. Exigia um nível de sangue-frio quase antinatural.
A calma que Eleanor demonstrara durante o procedimento superava a de qualquer especialista em cirurgia cardiotorácica que ele já tivesse visto.
Então quem, exatamente, era aquela sobrinha dele? Como ela tinha adquirido uma habilidade daquelas?
Linda não esperava que Eleanor conseguisse de fato. O choque estava estampado no rosto dela.
Claramente sem querer deixar passar, ela disparou:
— Isso é exercício ilegal da medicina! Vou chamar a polícia! Vou fazer você ser presa!
— Quem está exercendo a medicina ilegalmente?
Uma voz firme e clara veio da porta — envelhecida, mas cheia de vigor.
Um idoso de olhar afiado entrou no quarto a passos rápidos, com vários médicos de jaleco branco vindo atrás.
No instante em que Linda o viu, o sangue sumiu do rosto dela.
— D-diretor?
