Capítulo 2 Fugir ou Dar uma Chance?

Era a primeira vez que eu ia a um bar. Eu estava completamente desorientada e pedi uma bebida atrás da outra. Não havia problema, certo? Afinal, uma garota obediente e caseira como eu podia muito bem entrar em um bar de vez em quando. Além disso, até mesmo um policial, que deveria preservar sua reputação, foi a um bar e engravidou uma mulher que conheceu lá. Tsc... Acabei me lembrando novamente do que meu marido fez.

Sentada ao balcão, vi meu celular acender sem parar. Infelizmente, entre tantas ligações dos meus amigos e da minha mãe, havia apenas uma chamada não atendida de Eric. Pelo visto, ele não estava nem um pouco preocupado comigo, já que havia outra mulher em nossa casa.

Recusei todas as ligações e não dei explicações a ninguém. Em breve, todos saberiam do meu divórcio. Era esse o começo e o fim da minha história de amor com Eric — exatamente o que todos acabariam descobrindo.

Tomei mais um copo de bebida, já nem sabia quantos havia bebido. Minha visão começou a ficar cada vez mais turva, e a música alta do bar tornava ainda mais difícil manter a concentração. A única coisa da qual me dei conta foi uma ligação de Felix. Entre todas as pessoas que tentavam falar comigo, atendi apenas a chamada do meu irmão.

— Xaviera, você está machucada?

A voz grave de Felix apertou meu peito.

— Mamãe disse que está sendo impossível falar com você. Aconteceu alguma coisa na sua festa de casamento? Aquele homem machucou você?

Assenti repetidas vezes. Felix não podia me ver, mas foi um alívio admitir, ainda que em silêncio, a dor que eu sentia.

— Você pode me levar com você para Almeida?

Por algum motivo, minha consciência pareceu voltar no instante em que fiz aquele pedido. Apertei com força o copo de bebida em minhas mãos trêmulas, suportando a dor que queimava em meu peito e temendo que Felix ficasse furioso quando descobrisse a verdade.

Do outro lado da linha, ele permaneceu em silêncio. Aquilo me assustou. Eu não queria preocupá-lo nem despertar a mesma fúria que ele demonstrava quando éramos crianças. Qualquer pessoa que me machucasse, me insultasse ou me intimidasse acabava enfrentando Felix... mesmo que eu nunca lhe pedisse isso. E, desta vez, quem havia me ferido era justamente meu marido, o homem que deveria caminhar ao meu lado até a velhice. Eu sequer conseguia imaginar o quanto Felix ficaria furioso quando soubesse de tudo.

— Vou buscar você.


— Onde você esteve?

Assim que cheguei em casa, Eric me bombardeou com perguntas. Porém, quando me viu subir as escadas cambaleando em direção ao segundo andar, ele parou de falar e tentou me ajudar.

Afastei sua mão no instante em que vi Leticia sentada na sala de estar da casa que Eric havia dito ser seu presente de casamento para nós. Então ela ainda estava ali. E sua filha também, chorando toda vez que eu olhava para ela.

Que irritante... O choro daquela criança sempre que me via fazia parecer que ela já me enxergava como sua madrasta, quando, na verdade, eu era a esposa legítima daquela casa.

Eu não pretendia dizer uma única palavra. Queria apenas chegar ao quarto e terminar de arrumar minhas coisas para ir para Almeida. Felix viria me buscar em breve. Eu colocaria um ponto final naquele relacionamento, porque jamais aceitaria dividir meu marido. Esse pensamento não saía da minha cabeça durante todo o caminho de volta para casa.

Quando peguei minha mala, não percebi que Eric havia me seguido até o quarto. Ele entrou, trancou a porta e me encarou com uma expressão carregada de uma emoção que eu não conseguia decifrar.

— Por que você voltou para casa nesse estado?

Eric segurou meu braço quando eu ia colocar minhas roupas na mala.

Soltei uma risada amarga.

— Você acha que o casamento de ontem foi agradável?

— Eu sei que ainda é difícil para você aceitar tudo isso, Xaviera. Mas, por favor... acabamos de nos casar. O que as pessoas vão dizer se começarmos a brigar desse jeito? E o que significa essa mala?

Interrompi o que estava fazendo e olhei para Eric, que parecia apavorado com a ideia de que eu fosse embora. Que nojento.

— Você ainda está preocupado com a imagem do nosso casamento diante dos outros, quando a nossa relação já foi manchada bem no meio da festa de ontem.

Desde que Leticia apareceu inesperadamente entre nós, Eric passava mais tempo calado do que falando. Isso me irritava. Eu sabia que o coração dele ainda hesitava por causa daquela mulher.

— Eu sei que muita gente vai criar todo tipo de especulação depois do que aconteceu ontem. Mas é cedo demais para o nosso casamento enfrentar um escândalo desses — respondeu Eric.

— Que engraçado, senhor policial. Todo mundo já viu Leticia e a filha dela. Todo mundo viu nossas expressões. Todo mundo ficou se perguntando por que uma cerimônia de casamento foi interrompida antes mesmo de terminar, logo depois que Leticia apareceu.

Não deixei que ele tivesse a última palavra. Pela primeira vez, porém, vi a expressão de Eric endurecer.

— Você é minha esposa, Xaviera. Nós vamos cuidar de Patricia e deixar que Leticia fique aqui por algum tempo. Por favor, não seja teimosa. Nada vai acontecer.

O pior era que eu conseguia enxergar sinceridade naquele olhar que eu conhecia tão bem. E, mais uma vez, senti meu coração vacilar diante de suas palavras.

Afinal, todos os seres humanos cometem erros. Aquela era a primeira vez que Eric me machucava daquela maneira. Será que eu não poderia perdoá-lo só dessa vez?

Eric havia dito que apenas criaríamos Patricia e permitiríamos que Leticia permanecesse ali temporariamente. Isso significava que ele não pretendia ter duas mulheres ao mesmo tempo. Para mim, aquilo parecia muito menos doloroso do que dividir meu marido e esperar que ele batesse à porta do meu quarto para dormir comigo.

— Você consegue ter paciência e aceitar Patricia?

Eric apertou minha mão com firmeza. Ele não negava que a bebê fosse sua filha. Pelo contrário, suas palavras tentavam me convencer de que nada aconteceria entre ele e Leticia.

Pensei por alguns instantes. Era impossível acreditar imediatamente em tudo o que Eric dizia, embora aquilo parecesse a melhor saída para um casamento que existia havia apenas um dia.

Eric me olhava suplicante.

— Patricia precisa de uma mãe. E você sempre disse que, como policial, eu jamais deveria agir de forma injusta. Eu vou assumir minhas responsabilidades. Por favor... aceite Patricia como sua filha também.

Eric esperou pacientemente pela minha resposta. Seus olhos começaram a se encher de lágrimas, quase transbordando. Estendi a mão e enxuguei-as antes que escorressem por seu rosto.

Meu coração começou a vacilar.

Era o primeiro erro de Eric. Será que eu não poderia lhe dar uma oportunidade?

Criar uma criança nunca era fácil, ainda mais quando ela era filha de outra mulher. Mas nosso casamento, que existia havia apenas um dia, parecia implorar para continuar vivo, sustentado pelo orgulho de nós dois.

Foi justamente nesse momento que meu celular tocou.

Era Felix.

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