Capítulo 5 Partindo para Almeida

Eu não me importava mais com aquele marido canalha. Virei as costas tentando conter o choro quando ouvi a voz de Eric atrás de mim.

— Xaviera!

Acelerei os passos ao perceber que ele estava correndo atrás de mim. As lágrimas começaram a escorrer enquanto eu descia as escadas às pressas. Eric continuava me seguindo, chamando meu nome com aquela maldita boca.

— Xaviera!

Eric segurou meu braço e conseguiu me impedir de continuar. Em vez de encará-lo com um olhar desafiador, fiquei apenas olhando para ele. No entanto, Eric permaneceu em silêncio.

Como eu imaginava, ele já não tinha mais nada a dizer. Sabia que estava errado comigo e sentia vergonha disso.

— Acabou. Apenas me deixe ir — falei friamente.

O aperto da mão de Eric ficou mais forte quando tentei me soltar. De onde eu estava, no andar de baixo, vi Leticia envolta em um cobertor. Ela exibia um sorriso debochado e acenava para mim de forma provocante.

— Eu sei que você tem medo de decepcionar minha mãe. Não tem problema. Pode me soltar. Eu mesma direi a ela que fui eu quem a traiu.

Naquele instante, Eric afrouxou o aperto em meu braço.

Finalmente compreendi. Os sentimentos de Eric por mim existiam apenas por causa de uma promessa, apenas porque ele se sentia em dívida com minha mãe. Eric amava apenas Leticia. Ele me soltou... e escolheu aquela mulher.

Saí daquela casa. Desta vez, não ouvi mais passos me seguindo.

Quando estava prestes a abrir a porta do carro, vi o reflexo de Leticia abraçando Eric no vidro do veículo.

Já não havia mais dúvidas.

Eric estava disposto a me deixar partir.

Decidi não voltar para a casa da minha mãe. Eu sabia que ela tinha percebido como estava meu casamento durante a cerimônia. Mas ainda não estava preparada para contar toda a verdade.

Talvez eu apenas lhe enviasse uma mensagem dizendo que iria me divorciar. Mesmo que dissesse que fui eu quem a traiu, minha mãe provavelmente nunca acreditaria nisso.

Mas eu esperava que ela compreendesse minha decisão.

Fui para um hotel, planejando passar a noite ali, ou ficar até que Felix viesse me buscar.

Antes de sair, já havia enviado uma mensagem ao meu irmão dizendo que iria para onde ele estava. Felix respondeu rapidamente. Disse que enviaria um de seus homens para me buscar.

E foi exatamente o que aconteceu.

Poucas horas depois de eu chegar ao hotel, um homem que se apresentou como subordinado de Felix apareceu diante da porta do meu quarto.

— Senhorita Xaviera, vim levá-la.

Ele sorriu gentilmente. Usava uma jaqueta de couro preta apoiada sobre os ombros. Parecia mais jovem que Felix, mas fiquei feliz ao perceber o quanto era educado comigo.

— E as minhas coisas? Não consegui trazê-las.

Expliquei que não havia conseguido preparar nenhuma bagagem antes de sair.

— Não se preocupe, senhorita. O senhor Felix providenciará tudo.

Assenti com a cabeça. A forma como ele mencionou Felix me convenceu de que realmente trabalhava para meu irmão.

Durante todo o caminho até o estacionamento subterrâneo, não consegui parar de imaginar o que Felix havia construído em Almeida com seus negócios.

Comecei até a pensar que ele devia ter ficado muito rico, já que empregava homens jovens e tão elegantes.

— Qual é o seu nome? Você realmente trabalha para o meu irmão?

Olhei para o homem que nos guiava até o carro.

Ele virou o rosto para mim e respondeu:

— Desculpe por não ter me apresentado antes. Meu nome é Jean. E sim, trabalho para o senhor Felix.

A breve apresentação terminou quando Jean apontou para o carro que usaríamos para ir ao aeroporto.

Fiquei completamente imóvel.

Era um carro de luxo que eu jamais conseguiria comprar, nem mesmo trabalhando a vida inteira.

— Nós... vamos nesse?

Perguntei apenas para ter certeza, com medo de que Jean tivesse apontado para o veículo errado.

Ele assentiu.

Assim que pressionou o controle remoto que segurava nas mãos, o carro emitiu um sinal sonoro.

Jean abriu a porta para mim e, ainda bastante insegura, entrei no veículo.

— Espere... você é realmente um funcionário do meu irmão Felix, não é? Não é alguém fingindo ser para me sequestrar?

Jean soltou uma leve risada.

Por algum motivo, fiquei alguns segundos admirando o quanto ele era bonito quando ria, embora não entendesse por que minhas palavras o divertiam tanto.

— Quando chegarmos ao aeroporto, ligaremos para o seu irmão, senhorita.

Jean fechou a porta ao meu lado e deu a volta para entrar pelo lado do motorista.

Ele parecia extremamente carismático segurando o volante.

Eu jamais havia elogiado outro homem além de Eric, mas, naquele instante, tive a impressão de estar diante do homem mais bonito do mundo.

Chegamos ao aeroporto muito mais rápido do que eu imaginava.

Jean me conduziu para o interior do terminal.

Todos os funcionários do aeroporto o cumprimentavam calorosamente, como se ele fosse o próprio dono do aeroporto fazendo uma inspeção.

Eles foram extremamente educados e nos acompanharam até o avião que, segundo disseram, seria utilizado exclusivamente por nós.

Segurei milhares de perguntas dentro de mim até nos sentarmos na aeronave.

Quando finalmente estava prestes a perguntar tudo, Jean levantou uma das mãos, pedindo que eu esperasse.

Em seguida, pegou o celular e fez uma ligação.

— Alô.

Era a voz de Felix.

Levei um susto e me aproximei imediatamente do telefone, que Jean havia colocado sobre a pequena mesa à nossa frente.

— Felix, o que significa tudo isso? Você precisa me explicar!

Despejei uma enxurrada de perguntas sobre ele.

— Calma, Xaviera. Está tudo bem. Jean é meu subordinado. Ele vai garantir que você chegue aqui em segurança.

— Não, Felix. Quero saber por que você está usando toda essa estrutura luxuosa só para me trazer até aí.

Eu queria que Felix fosse sincero.

Durante tantos anos ele ficou longe de mim e da nossa mãe, dizendo apenas que havia ido tentar a sorte.

Ele sempre telefonava, enviava algum dinheiro para nossa mãe, mas eram quantias perfeitamente normais.

E, de repente, enviava um subordinado elegante para me buscar, usando um carro de luxo e um avião particular.

O que ele estava escondendo?

— Não há problema. Aproveite tudo isso, Xavier.

— Felix, eu preciso de uma explicação! — protestei.

— Estou muito bem. E, se você pretende se vingar, eu posso ajudá-la. Sou capaz até de derrotar um policial, então você não precisa ter medo.

As palavras de Felix me deixaram completamente chocada.

Eu não pretendia me vingar de ninguém. Só queria me recuperar emocionalmente ali.

Mesmo assim, ouvir aquela oferta fez meu corpo estremecer.

— Venha para cá e nunca mais tenha medo de nada. Eu vou protegê-la.

— Mas...

Antes que eu pudesse responder, uma forte explosão ecoou do outro lado da ligação, exatamente onde Felix estava.

— FELIX! O QUE ESTÁ ACONTECENDO?

De repente, a ligação caiu.

Olhei desesperadamente para Jean, que permanecia completamente calmo.

— Como você consegue ficar tão tranquilo? E se alguma coisa tiver acontecido com o meu irmão?

Com toda a calma do mundo, Jean apenas recostou a cabeça na poltrona do avião e fechou os olhos, como se fosse tirar um cochilo.

— Que tipo de subordinado você é?!

Meu grito sequer foi levado em consideração.

Toda a boa impressão que eu tinha dele despencou.

De que adiantava ser bonito e educado se não possuía o mínimo de empatia?

— Se alguma coisa acontecer com meu irmão, a primeira pessoa que vou responsabilizar será você!

— Podemos simplesmente descansar durante a viagem? Não vai acontecer nada com o seu irmão, senhorita.

Jean continuava de olhos fechados.

Por algum motivo, agora ele parecia extremamente arrogante.

Eu estava prestes a lhe dar um tapa para que aprendesse uma lição.

— Seu irmão está trabalhando. Isso é algo comum no trabalho do senhor Felix.

Jean segurou meu pulso com enorme facilidade, embora eu tivesse certeza de que meu golpe seria rápido e doloroso.

— Trabalho?

Meu corpo perdeu as forças.

A mão de Jean, que ainda segurava meu pulso, acabou me impedindo de cair.

O avião decolou.

Voltei para o meu assento e tentei afastar todos os pensamentos negativos sobre o possível trabalho de Felix em Almeida.

— Será que meu irmão trabalha como caçador?

Mais uma vez incomodei Jean.

Existiam muitos trabalhos envolvendo armas de fogo. Eu apenas não queria pensar no pior.

— Ou será que o trabalho dele é...

— Senhorita, será que podemos fazer esta viagem em paz?

Jean finalmente abriu os olhos.

Seu olhar me intimidou um pouco, então resolvi guardar toda a minha ansiedade até chegarmos a Almeida.

Assim que desembarcamos, Jean me levou diretamente para a casa do meu irmão.

Talvez meu silêncio durante o restante da viagem tivesse deixado claro o quanto eu estava preocupada com Felix.

Não trocamos mais nenhuma palavra até que o carro parou diante de uma enorme mansão.

Meus olhos se arregalaram.

— Meu irmão está sendo mantido refém nesta mansão?

Vi Jean conter o riso.

Será que ele me achava ridícula por fazer aquela pergunta?

— Por que você não responde?

Continuei seguindo seus passos depois que descemos do carro.

Jean ainda ria discretamente.

Sem perceber, já havíamos entrado naquela residência magnífica.

Sua imponência e beleza quase me fizeram esquecer de Felix.

Mas eu precisava manter o foco e continuar pressionando Jean até que ele finalmente resolvesse falar.

— Ei... você perdeu a capacidade de falar?

Desta vez, minha pergunta fez Jean parar de caminhar.

Ainda sorrindo, ele virou o rosto para mim e aproximou lentamente seu rosto do meu.

— A senhorita Xaviera é sempre tão engraçada assim?

Meu coração disparou.

Eu não conseguia dizer uma única palavra.

Jean permaneceu olhando para mim por tempo demais.

— Você finalmente chegou, Xaviera.

Era a voz de Felix.

Quando me virei, vi meu irmão usando uma camisa branca... manchada por respingos de sangue.

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