Capítulo 1
"Emily Windsor, quando você matou aquele homem, ele tinha condições de revidar? A sua segurança pessoal estava sob grave ameaça?"
"Você precisa pensar com cuidado antes de responder a essas perguntas. Elas determinam a natureza do caso — foi legítima defesa ou homicídio injustificado?"
Na sala de interrogatório, Emily Windsor estava sentada na cadeira da acusada, olhando impotente para cima, para a luz forte da luminária de mesa que batia em seu rosto e para os dois policiais severos do outro lado.
Seus dedos tremeram, com o movimento restringido pelas algemas em seus pulsos. Seus lábios estavam secos e rachados enquanto ela se esforçava para falar: "Eu..."
Fazia muito tempo que ela não falava. Seu estado mental era claramente frágil — o cabelo grudado no rosto, as roupas rasgadas e esburacadas, a pele exposta coberta por uma sobreposição de hematomas e cascas de feridas, evidências de uma tortura desumana.
Se não estivesse presa à cadeira pelas algemas, ela já teria recuado para um canto para se esconder, exatamente como havia feito durante os inúmeros espancamentos anteriores.
O detetive pegou uma pasta e falou com severidade: "Tenho aqui o laudo da autópsia do homem que você matou. Ele teve uma morte brutal. Estamos inclinados a considerar o caso como excesso de legítima defesa. Assim que determinarmos a natureza do crime, você será responsabilizada judicialmente."
Antes que Emily pudesse responder, a detetive não conseguiu mais se conter e disparou, indignada:
"Aquele homem não passava de um animal — um demônio andando entre nós! Depois de todas as coisas hediondas e indizíveis que ele fez, morrer cem vezes ainda seria pouco!"
O detetive respondeu friamente: "Você precisa se acalmar. Estamos trabalhando. Não envolva suas emoções pessoais neste caso."
"Como posso me acalmar? Aquele desgraçado fez mal a tantas pessoas inocentes; ele merecia apodrecer no inferno!"
A discussão acalorada fez Emily inclinar levemente a cabeça. Ela ficou encarando o sangue seco incrustado em suas mãos, lembrando-se de repente da mulher que havia morrido naquela poça de sangue.
Ela começou a relatar lentamente aquela experiência.
Todas elas haviam sido prisioneiras naquele porão subterrâneo.
Centenas de mulheres amontoadas em um espaço apertado e sem luz do sol — escuro, úmido e sem esperança.
A quadrilha as tratava como gado, espancando e abusando delas a seu bel-prazer. Chicotes com farpas ficavam pendurados nas paredes, ao lado de inúmeros bastões elétricos.
Todas as pessoas aprisionadas ali tinham a mesma expressão de apatia e impotência, com os olhos cheios de desespero.
Ela havia sido trancada junto com essas mulheres.
Todos os dias, elas eram chicoteadas até a carne viva. A quadrilha queria subjugá-las até que ficassem tão obedientes quanto animais de estimação.
Apenas uma pessoa havia sido gentil com ela — uma mulher frágil que, secretamente, guardava um pouco de comida para ela todos os dias. Sem ela, Emily já teria morrido há muito tempo.
Mas aquela mulher havia sido morta a facadas.
O que aconteceu depois disso? Emily não conseguia se lembrar com clareza.
Ela só se lembrava de ver vermelho por toda parte — o cheiro metálico de sangue a invadindo por todos os lados, ameaçando engoli-la por inteiro.
Quando recobrou a consciência, ela viu o homem que havia sido esfaqueado centenas de vezes, morto sem a menor sombra de dúvida.
A faca em sua mão havia sido tomada dele.
Ao ouvir Emily, o coração da detetive ficou apertado de tristeza e compaixão.
"Já entendemos os detalhes do que aconteceu. Você já pode ir para casa. Se precisarmos de mais alguma coisa, entraremos em contato."
Emily permaneceu em silêncio enquanto se levantava da cadeira. A detetive abriu suas algemas.
No momento em que pisou fora da delegacia, a luz do sol bateu forte lá do alto. Emily instintivamente ergueu a mão para proteger os olhos.
Depois de ficar presa por tanto tempo, ela já não estava mais acostumada à luz do dia.
Assim que seus olhos se acostumaram, ela abaixou a mão e notou um Maybach se afastando da delegacia.
Ela reconheceu aquele carro.
A pessoa naquele carro a tinha resgatado do inferno e, depois, a levado para a delegacia.
A detetive, parada ao seu lado, perguntou: — Você está com muito sangue seco no corpo. Gostaria de se limpar? Posso te mostrar onde fica o banheiro.
Emily balançou a cabeça lentamente, a voz rouca. — Quero ir para casa me lavar. Obrigada.
A detetive assentiu. — Seus pais vão ficar muito felizes em ver você voltar para casa.
Os lábios de Emily se curvaram em um sorriso suave.
Voltar para casa era a única motivação que a fizera seguir em frente.
No caminho de volta para a Mansão Windsor, o coração de Emily estava excepcionalmente leve, como um pássaro finalmente se libertando da gaiola.
Ela finalmente poderia voltar para a sua família.
Mas seus belos sonhos foram despedaçados no momento em que ela viu o clima de festa na Mansão Windsor.
Pelo visto, aquele era o dia em que os Windsor estavam dando uma grande festa.
Inconscientemente, ela olhou para as marcas de chicote ainda inchadas em seus braços.
Aquela era claramente a sua casa, mas Emily de repente perdeu a coragem de entrar. Seus pés pareciam feitos de chumbo.
A festa estava extraordinariamente luxuosa, com convidados entrando e saindo a todo momento.
Logo, alguém notou Emily.
— Ela me parece tão familiar... parece a filha mais velha da família Windsor que foi sequestrada anos atrás!
— Ela realmente se parece com ela, mas ela não tinha morrido?
— É, eu ouvi dizer que ela morreu de uma doença depois de ser torturada por aquela organização criminosa.
Os sussurros se espalharam como fogo em pólvora.
Logo, Wayne Windsor e Bianca Windsor saíram da casa. No momento em que viram Emily, o choque e a surpresa tomaram conta de seus rostos.
Nenhum dos dois deu um passo à frente; apenas ficaram ali, encarando Emily em um silêncio atônito.
— Mãe. Pai. — Emily engoliu a tristeza em seu coração e os chamou.
Bianca foi a primeira a se recuperar, respondendo de forma um tanto desconfortável: — Emily, você está mesmo viva e de volta para casa. Achamos que nunca mais a veríamos.
Embora tenha dito isso, Bianca não deu um único passo à frente.
A distância entre ela e Emily parecia ser de apenas alguns passos, mas a sensação era de um abismo invisível.
Wayne olhou para Emily com um misto de emoções.
— Que bom que você voltou. Que bom que voltou.
Suas palavras soaram formais, distantes e desdenhosas.
Emily esperava ver alegria e felicidade no rosto de seus pais, mas viu apenas a repulsa brilhando nos olhos deles e uma vergonha mal disfarçada.
Ela já tinha sido a filha de ouro deles, a menina dos seus olhos.
Mas agora havia se tornado uma desonra — alguém que traria vergonha para a família Windsor.
Naquele momento, Laura Windsor e Lucas Smith também saíram da casa.
Laura usava um lindo e caro vestido de princesa. Embora fosse adotada, era evidente que não recebia um tratamento diferente de uma filha biológica.
— Mãe, pai, por que vocês estão parados na entrada? Temos muitos convidados, e o Lucas e eu estamos ficando sobrecarregados.
Só depois de falar foi que Laura notou Emily, com a voz cheia de descrença: — Emily?
Os sussurros ao redor aumentaram.
— Então é mesmo a filha mais velha que foi sequestrada todos aqueles anos atrás. Depois de ficar em cativeiro por tanto tempo, sabe-se lá com quantos homens ela esteve?
— Olhem para a pele dela... é melhor ficarmos longe. Ela pode ter alguma doença contagiosa.
— Nós só viemos para uma festa. Não queremos pegar nenhuma doença nojenta.
— Ter uma filha como essa voltando viva é mais vergonhoso do que se ela tivesse morrido por aí.
Esses comentários fizeram o rosto de Emily ficar cada vez mais pálido.
Ela olhou para Lucas com seu último fio de esperança. Eles tinham sido namorados de infância — até haviam prometido se casar quando crescessem.
Mas Lucas evitou o olhar dela.
