Capítulo 3 🍷3🍷

PALERMO, SICÍLIA, 2004 – DOZE ANOS ATRÁS

.

POV Corinne Lansky

💄🍷🔪

— Papai ficará muito irritado se ele te vê com esse livro durante a festa — avisei à Lanietta, que se encontrava mergulhada em sua leitura durante todo o trajeto até a mansão dos Massino, onde estava ocorrendo a festa de aniversário do patriarca da família.

Giacomo Massino era um poderoso chefe da máfia napolitana chamada L’Occhio, mas morava com sua família e comandava sua organização daqui de Palermo, sob a proteção do nosso pai e da Cosa Nostra que haviam sido os responsáveis por sua subida ao poder em Nápoles.

Ao contrário da minha irmã que só pensava em estudar para ter um futuro mais livre do que nos fora predestinado desde o berço, contrariando assim totalmente os desejos de nosso pai, eu abracei o destino já preparado para mim antes mesmo do meu nascimento.

E até que eu gostava da ideia de ser futuramente a esposa de um chefe de alguma família importante dentro da Cosa Nostra, ou quem sabe ser a futura escolhida para se casar com o filho mais velho de Giacomo que ainda permanecia solteiro, se tornando o assunto mais comentado entre as jovens de toda Palermo.

Assim que descemos do carro ao qual estávamos, nos aproximamos de nossos pais que se encontravam saindo do veículo à frente do nosso.

Nunca viajávamos ou andávamos de carro todos os 4 juntos. Essa era uma regra seguida pelo meu pai e demais chefes, e que fora imposta pelo antigo chefe da Cosa Nostra, após ele ter perdido esposa e filhos ao sofrerem um atentado contra o veículo em que estavam.

Como esperado, papai advertiu Lanietta sobre o livro, ordenando que ela o entregasse a um dos seguranças que nos acompanhavam, mas minha irmã conseguiu enfiá-lo em sua bolsa de mão, prometendo de que não iria pegá-lo durante o tempo em que estivéssemos ali.

A bela mansão se encontrava animada, com a alta sociedade conversando e bebendo pelos cômodos do térreo, ornamentados discretamente com plantas e flores. Ali eram firmadas alianças entre famílias poderosas, então sempre precisávamos ser cordiais e simpáticas como nossa mãe havia nos ensinado desde cedo.

Depois que cumprimentamos algumas pessoas e sermos apresentadas a outras, nos encaminhamos até onde Giacomo e sua esposa se encontravam. Mesmo o conhecendo de vista, pois os Massino sempre participavam das missas aos domingos, nosso pai nos apresentou a ele de modo oficial, todo orgulhoso.

E não era para menos, pois naquele meio, quem possuía mais de uma filha tinha nas mãos mais possibilidades de formar boas, fortes e bem lucrativas alianças com outras famílias poderosas.

De repente, Giacomo olhou para algum ponto atrás de nós e eu me virei, observando aquele belo rapaz se aproximando.

“Ele é mais bonito do que eu me lembrava?”

Encontrava-me encantada, mas ao perceber que o rapaz estava de braços dados com uma moça, fiquei na dúvida se o pedaço de mal caminho à minha frente era o filho solteiro ou o filho casado de Giacomo.

— Andreas, onde está o seu irmão? — ouvi o pai dele perguntar, dando-me a confirmação de que aquele ali parado à nossa frente com um ar meio debochado era Andreas Massino, o solteiro mais cobiçado de Palermo.

— Não sei. Por acaso nasci grudado com ele?

Deu para perceber a ironia em sua resposta, seguida pela cara de deboche mais acentuada que se fez presente em seu belo rosto quadrado e marcante.

— Tony deve estar fazendo alguma coisa extraordinária como sempre — Andreas retrucou com um toque de desdém na voz.

— E você deveria seguir o exemplo do seu irmão mais novo e parar de ser alguém inútil nessa vida.

Vi ele enrijecer o maxilar e fechar a cara rapidamente. Logo a tensão se instalou em nosso meio, mas a esposa de Giacomo tentou dissipá-la, nos apresentando tanto ao seu filho quanto para a moça que o acompanhava.

— Filho, essas são Lanietta e Corinne. Filhas de Tomazzo e Ginevra Lansky. Meninas, esse é meu primogênito Andreas e a minha nora Clarice Provenzano, esposa do meu caçula Tony.

Trocamos cumprimentos e apertos de mãos, sem que a tal Clarice se afastasse muito de Andreas, o que me fez achar bem estranho aquele tipo de comportamento dela para com o cunhado.

— Acho que já nos esbarramos na igreja — comentei de modo simpático, tentando puxar papo com ele.

— É, talvez, já que sou obrigado a ir naquela bosta todo domingo mesmo — Andreas retrucou, fazendo a moça ao seu lado segurar o riso, além de ganhar uma bela reprimenda por parte de sua mãe Cassandra.

Giacomo então mandou o filho ir à procura do mais novo.

— Não sou nenhum garoto de recado. Tony sabe muito bem se cuidar sozinho — ele rebateu, rolando os olhos.

— Clarice, querida, poderia encontrar o seu marido? — a mãe dele pediu.

— Tudo bem, sogra — disse a jovem, dando um sorriso contido para nós — Acho que ele deve estar falando de negócios com meu pai, como sempre.

— Peça para Tony ir direto até o meu escritório — complementou Giacomo, já se afastando informando que iria conversar com nosso pai em particular.

— Esses homens só pensam em negócios — comentou Cassandra para nossa mãe, quando eles se distanciaram de nós.

.

🌹🌹🌹

.

HORAS DEPOIS

A mando do nosso pai, fui em busca da minha irmã, que com certeza deveria estar lendo escondida em algum canto daquela casa. Principalmente, depois do que havia acontecido no jantar onde Giacomo, durante o seu brinde de agradecimento, anunciou a união de nossas famílias através do casamento de Andreas e Lanietta.

Não pude deixar de ficar triste quando ouvi aquilo, pois minha irmã não pensava em se casar, já eu ansiava para completar logo meus 18 anos e ter minha mão dada em matrimônio para algum mafioso bonitão ou, pelo menos se fosse velho, que fosse charmoso e fizesse o serviço direito para podermos ter muitos filhos.

Perambulei pela festa até achar uma porta meio entreaberta, em uma parte mais afastada de onde os convidados circulavam. Assim que me aproximei, identifiquei a voz de Lanietta conversando com alguém.

— É Frankenstein, de Mary Shelley, conhece?

— Não, mas...

Era a voz de Andreas.

Parando perto da fresta da porta, o vi se dirigir até uma enorme estante. Ele vagou o olhar por ela à procura de algo, então pegou um livro de capa dura escura e retornou para perto da minha irmã, estendendo o livro a ela.

— Tenho esse exemplar de Dom Quixote.

— Eu já li esse — Lanietta comentou.

— Essa é uma versão em inglês.

— Sério? — ela indagou surpresa, já pegando o livro empolgada e dando uma folheada nele de relance.

— Uhum... Sua mãe me disse que você está aprendendo inglês por conta própria.

Minha irmã então ergueu o olhar para Andreas.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo