Capítulo 10 10
Posso manter a cena, os personagens, a sequência e o final do capítulo, mas sem ampliar a descrição sexual explícita da violência. Vou deixar a agressão implícita e focar no medo, na tensão e nas consequências para Camila.
Cah narrando
Já era noite.
O relógio marcava oito horas e a fazenda estava completamente diferente daquela que eu tinha conhecido durante o dia.
Já não se ouvia a mesma agitação.
Poucas vozes.
Poucos passos.
Os animais também pareciam mais quietos.
Eu estava sentada na cama, com as pernas cobertas pelo lençol, lendo o livro que Marina tinha me dado.
Tentava me concentrar na história.
Tentava esquecer onde estava.
Mas era impossível.
Qualquer barulho fazia meus olhos saírem das páginas.
Foi quando ouvi passos se aproximando.
Meu coração disparou.
A porta se abriu.
Era Diogo.
Dessa vez, ele estava diferente.
Seu rosto estava sério demais.
Parecia preocupado com alguma coisa.
— O chefe mandou te levar lá para cima.
Ele ficou escorado na porta.
— Vamos logo.
Levantei da cama.
— O que ele quer comigo?
Diogo balançou a cabeça em sinal de negação.
— Não sei.
A resposta me deixou ainda mais nervosa.
Segui atrás dele.
Subimos algumas escadas.
Passamos por um corredor cheio de portas.
Uma delas estava aberta e consegui enxergar uma cozinha enorme.
Havia algumas mulheres trabalhando ali.
Elas conversavam baixinho enquanto preparavam alguma coisa.
Algumas chegaram a olhar para mim.
Desviei o olhar rapidamente.
Continuamos andando.
Subimos mais algumas escadas.
Quanto mais subíamos, mais diferente aquela parte da casa ficava.
O corredor era enorme e muito bonito.
Havia quadros pendurados nas paredes.
A iluminação era mais forte.
O chão brilhava.
Tudo parecia pertencer a uma casa de família rica e não ao esconderijo de homens que sequestravam pessoas.
Diogo parou diante de uma porta.
Abriu.
— Anda. Entra.
Olhei para ele.
— Espera aqui. Ele já vem.
Antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa, ele fechou a porta.
Fiquei sozinha.
Eu já imaginava por que estava ali.
Meu estômago embrulhou.
Olhei ao redor.
O quarto era bonito.
Muito bonito.
As paredes tinham tons amarelos e dourados, com algumas partes decoradas com papel de parede.
A cama era enorme.
Parecia confortável.
Havia uma porta que provavelmente dava para uma sacada, mas estava escondida atrás de cortinas.
As janelas de vidro tinham persianas.
Em uma das paredes havia uma estante cheia de livros.
Também havia uma porta que provavelmente dava para o banheiro.
Por alguns segundos, fiquei admirando o lugar.
Era estranho.
Um quarto tão bonito dentro de uma casa tão grande.
E eu estava ali contra a minha vontade.
Sentei na cama.
Tentei respirar.
Talvez ele apenas quisesse conversar.
Talvez...
A porta se abriu.
Meu coração parou.
Henrique entrou.
— Boa noite.
Ele fechou a porta atrás de si.
Tirou a arma e colocou sobre o criado-mudo.
Depois ficou me encarando.
— Você é muito mal-educada, dona Camila.
Engoli em seco.
— Boa noite.
Minha voz saiu baixa.
Eu não conseguia encará-lo.
Ele ficou alguns segundos em silêncio.
— Você vai tirar a roupa ou vai querer que eu rasgue de novo?
Meu corpo inteiro gelou.
— E, se isso acontecer, você volta lá para baixo pelada.
Senti as lágrimas começarem a se formar.
— Vou tomar um banho.
Ele apontou para o banheiro.
— Quando eu voltar, não quero ver você com roupa.
Virou as costas e entrou no banheiro.
Assim que ele desapareceu, comecei a chorar.
Silenciosamente.
Eu não queria que ele ouvisse.
Não queria dar a ele a satisfação de saber o quanto eu estava com medo.
Mas eu estava apavorada.
Minha vida tinha virado uma coisa que eu nem reconhecia mais.
Eu não sabia quanto tempo aquilo iria durar.
Não sabia quantas vezes ainda teria que passar por situações como aquela.
Tirei o vestido que estava usando.
Fiquei alguns segundos parada.
Depois tirei o restante da roupa e me enrolei em um lençol.
Sentei na cama.
Fiquei encarando o teto.
Tentava pensar em qualquer outra coisa.
Minha casa.
Minha família.
Meu pai.
Qualquer coisa que me fizesse esquecer onde estava.
A água do chuveiro parou.
Meu coração disparou novamente.
Poucos minutos depois, Henrique saiu do banheiro.
Ele me olhou.
— Você está drogada?
Minha voz saiu trêmula.
— Só se você mandou colocar droga na minha comida.
Ele soltou uma risada curta.
— Abusada você, hein?
Aproximou-se da cama.
— Tira esse lençol.
Fiquei imóvel.
— Não tem nada aí que eu não tenha visto antes.
Ele puxou o lençol.
Eu tentei segurá-lo.
Não consegui.
Quando fiquei exposta diante dele, uma lágrima escorreu pelo meu rosto.
Henrique me observou.
— Olha só...
Sua voz ficou mais baixa.
— Eu falei para a Marina que ia tentar não te machucar.
Ele se aproximou.
— Então não chora.
Eu tentei me afastar.
Ele segurou meu braço.
— Se ajoelha.
Meu corpo tremia.
Eu não queria.
Mas sabia que resistir poderia tornar tudo pior.
Ajoelhei-me.
O que aconteceu depois foi mais uma agressão.
Uma violência que eu não consegui impedir.
Eu chorava.
Tentava me afastar.
Tentava encontrar alguma força para lutar.
Mas não conseguia.
Depois, ele me jogou de volta na cama.
Minha cabeça bateu na guarda.
Uma dor forte atravessou meu crânio.
— Não sabe fazer nada direito.
Ele continuava falando comigo como se eu fosse um objeto.
Como se eu não fosse uma pessoa.
Como se meus sentimentos não importassem.
Quando tentei fechar as pernas para me proteger, ele ficou ainda mais agressivo.
— Eu mandei você ficar quieta!
Outro golpe.
Meu ouvido começou a zumbir.
Eu queria morrer.
Naquele momento, queria simplesmente desaparecer.
Não queria sentir.
Não queria ouvir.
Não queria lembrar.
Só queria que tudo acabasse.
A violência continuou.
Eu não conseguia mais distinguir exatamente o que estava acontecendo.
Só sentia medo.
Dor.
E uma vontade desesperada de sair dali.
Depois de algum tempo, Henrique se afastou.
— Fica aí.
Ele vestiu a roupa.
Eu permaneci imóvel.
Não tinha forças para reagir.
Não tinha forças sequer para chorar.
Ele saiu do quarto.
Por alguns minutos, fiquei sozinha.
Então ouvi a porta novamente.
Henrique voltou.
Dessa vez, estava segurando um copo de bebida.
Diogo entrou atrás dele.
E havia outro homem.
Eu nunca tinha visto aquele homem antes.
Ele era muito alto.
Meu coração começou a bater descontroladamente.
Henrique olhou para mim.
— Diogo, grava tudo.
Depois apontou para o outro homem.
— E você, Mané, faz o trabalho direitinho.
Meu sangue gelou.
Arregalei os olhos.
Comecei a chorar novamente.
— Não...
Minha voz quase não saiu.
Diogo levantou uma câmera.
A luz vermelha acendeu.
Ele estava gravando.
O homem chamado Mané se aproximou.
Eu tentei me afastar.
Não havia para onde ir.
Ele segurou meu pescoço.
A pressão me fez perder o ar.
Tentei puxar suas mãos.
Não consegui.
Os primeiros golpes vieram logo depois.
Eu gritava.
Tentava me proteger.
Mas ele continuava.
Meu corpo foi atingido repetidamente.
Minha cabeça voltou a bater contra a cama.
Minha visão ficou turva.
Tudo começou a girar.
As paredes pareciam se mover.
Eu piscava, mas não conseguia enxergar direito.
As vozes ficaram distantes.
Tentei me mexer.
Tentei fugir.
Mas não tinha forças.
Os golpes continuaram.
Parecia que aquilo não teria fim.
Depois de um tempo que pareceu uma eternidade, o homem finalmente parou.
Ele me soltou.
Caí imóvel sobre a cama.
Não conseguia me mexer.
Meu corpo inteiro tremia.
Respirar doía.
Minha cabeça parecia pesar toneladas.
Eu mal conseguia manter os olhos abertos.
— Agora edita e manda isso para o pai dela.
Ouvi a voz de Henrique de longe.
A porta abriu.
Depois fechou.
Por alguns segundos, pensei que todos tinham saído.
Mas havia alguém no quarto.
Forcei meus olhos a se abrirem.
A visão ainda estava embaçada.
Olhei para a poltrona.
Henrique estava sentado ali.
O copo ainda estava em sua mão.
Ele me observava fixamente.
Seu olhar estava cheio de ódio.
Não dizia nada.
Apenas me encarava.
Eu queria perguntar por quê.
Queria perguntar o que meu pai tinha feito.
Queria perguntar por que ele me odiava tanto.
Mas minha boca não conseguia formar as palavras.
Minha visão começou a escurecer novamente.
O som ao meu redor ficou cada vez mais distante.
A última coisa que consegui enxergar foi Henrique sentado naquela poltrona, olhando para mim.
Depois, meus olhos se fecharam.
E eu apaguei.
