Capítulo 4 4
Cah Narrando
Acredito que eu já estou aqui há três dias. Três dias presa nesse lugar, sem saber que horas são, sem saber onde estou e, principalmente, sem saber o que vai acontecer comigo.
Eu já estava começando a ficar louca.
Pelo menos agora eu tinha uma toalha para me secar depois do banho, algumas roupas limpas para trocar e uma coberta. Pelo menos frio eu não passava mais. Mas tinha chegado a uma conclusão assustadora: eles queriam me matar de fome e de sede.
Fazia quase dois dias que eu não comia direito.
A água também tinha sido cada vez mais escassa. Às vezes deixavam uma garrafa pequena, mas eu tentava beber o mínimo possível, porque não sabia quando teria outra oportunidade.
O único jeito que eu tinha de saber se era dia ou noite era através de um pequeno buraco redondo na parede. Provavelmente alguma espécie de ventilação. Durante o dia, um pouco de claridade entrava por ele, iluminando uma pequena parte do quarto. À noite, aquele mesmo buraco só servia para me lembrar o quanto eu estava sozinha.
Eu passava horas sentada no chão, abraçando os próprios joelhos.
Pensava na minha mãe.
No meu pai.
Pensava em todos que deviam estar procurando por mim.
Será que meu pai já tinha descoberto que eu fui sequestrada?
Será que ele estava desesperado?
Será que alguém conseguiria me encontrar?
Eu tentava me convencer de que sim.
Precisava acreditar nisso.
Porque, se eu perdesse a esperança, não sabia se conseguiria continuar.
Passei a mão pelo rosto e respirei fundo, tentando segurar o choro.
Eu precisava ser forte.
Mesmo que estivesse morrendo de medo.
Mesmo que cada barulho do lado de fora fizesse meu coração disparar.
Foi quando ouvi passos.
Meu corpo inteiro ficou rígido.
A chave girou na fechadura.
A porta abriu.
Mas, dessa vez, não era um dos homens que normalmente traziam alguma coisa.
Era uma mulher.
Marina.
Ela entrou segurando uma sacola.
— Veste isso, menina! E rápido, que não temos muito tempo.
Ela jogou a sacola em cima da cama improvisada.
Fiquei olhando para ela sem entender.
Para onde eles iriam me levar?
Será que finalmente iam me matar?
Meu coração começou a bater ainda mais rápido.
Peguei a sacola e fui em direção ao banheiro.
Dentro havia uma calça jeans, uma blusa de manga comprida, um moletom preto, um par de meias e um tênis.
Eles tinham pensado em tudo.
Até mesmo no tamanho das minhas roupas.
Até o meu número de calçado eles sabiam.
Aquilo me deu ainda mais medo.
Lavei o rosto rapidamente e me troquei.
Quando abri a porta do banheiro, dei de cara com ele.
Henrique.
Ele estava parado me esperando, usando uma jaqueta preta, calça jeans e tênis.
Ficamos nos encarando por alguns segundos.
Eu não conseguia desviar os olhos.
Talvez porque, de alguma forma, eu estivesse tentando entender o que se passava naquela cabeça.
Como alguém conseguia fazer aquilo com outra pessoa?
Como alguém conseguia sequestrar uma mulher e agir como se fosse a coisa mais normal do mundo?
Ele quebrou o silêncio.
— O negócio é o seguinte, garota. Você tem duas escolhas.
Ele apontou para uma seringa que estava sobre uma mesa.
Meu corpo inteiro gelou.
— Você vai acordada e se comporta...
Ele pegou a seringa.
— Ou está vendo essa agulha aqui?
Meus olhos foram imediatamente para o objeto.
— Ali tem dose para derrubar cavalo. Então você vai acordada ou vai dormindo?
Engoli em seco.
— Eu... eu vou quieta.
Minha voz saiu quase como um sussurro.
— Boa menina. É assim que eu gosto.
O sorriso sarcástico dele fez um arrepio percorrer meu corpo.
— Vamos, Diogo. Amarra as mãos dela e leva para o carro.
Diogo entrou.
Segurou meus braços e amarrou minhas mãos para trás.
Eu tentei não reagir.
Não queria aquela seringa.
Não queria apagar.
Não queria descobrir o que eles poderiam fazer comigo enquanto eu estivesse inconsciente.
Ele me levou para fora.
Quando chegamos ao estacionamento, meu coração quase parou.
Havia mais de seis carros posicionados para sair.
Cinco deles estavam cercados por homens armados.
Todos pareciam preparados para uma operação.
E os carros eram blindados.
Aquilo não parecia mais um simples sequestro.
Parecia que eu estava no meio de uma guerra.
Diogo me levou até um carro grande, de sete lugares, e me colocou em um dos bancos.
Prendeu meu cinto com uma chave.
— Nada de gracinha, menina. Todos esses homens estão com ordem de meter bala em você a qualquer momento se tentar fugir.
Olhei para os homens do lado de fora.
Todos armados.
Todos sérios.
Ninguém parecia se importar comigo.
Marina entrou e se sentou ao meu lado.
Um segurança ocupou o banco ao lado dela.
Henrique sentou na minha frente.
O motorista estava na frente, acompanhado por outro segurança.
Eu estava cercada.
Não havia para onde fugir.
Marina colocou um pano na minha boca.
Tentei respirar fundo.
— Aproveita, Camila. A paisagem são dez horas de viagem. Tem certeza que não quer dormir um pouco?
Henrique levantou uma pequena maleta.
Meu olhar foi direto para ela.
Eu sabia o que tinha ali.
A seringa.
Comecei a entrar em desespero.
Eu estava amarrada.
Amordaçada.
Dentro de um carro blindado.
Cercada por homens armados.
E sendo levada para algum lugar que eu sequer sabia onde ficava.
Eu não estava entrando em desespero.
Eu já estava desesperada.
O que eles iam fazer comigo?
Para onde estavam me levando?
Por que eu?
A estrada parecia não ter fim.
As horas passavam lentamente.
Eu tentava olhar apenas pela janela, evitando encarar Henrique, mas sentia os olhos dele sobre mim.
Era como se ele estivesse me observando o tempo inteiro.
Tentava não demonstrar medo.
Mas minhas mãos tremiam.
Minha boca estava seca.
Meu estômago doía.
Eu já não sabia se era fome ou nervosismo.
Depois de algumas horas, o motorista falou:
— Chef, na entrada de Minas está com um congestionamento de vinte e cinco quilômetros. É perigoso irmos até lá agora.
Minas?
Meu coração acelerou.
Eles estavam me levando para Minas Gerais?
Olhei discretamente para Henrique.
Ele continuava tranquilo.
Como se aquilo fosse apenas mais uma viagem.
— Estamos perto de Itajaqui? — Diogo perguntou.
— Estamos sim.
— Tenho uma casa ali. É pequena, mas conseguimos nos acomodar sem chamar muita atenção.
— Então vamos para a casa do Diogo, Fred — Henrique ordenou.
Meu coração disparou ainda mais.
Henrique olhou diretamente para mim.
— E vamos lembrar de não falar nomes de lugares ou dos outros seguranças perto dela.
Todos assentiram.
Eu abaixei os olhos.
Então era isso.
Eles tinham medo que eu descobrisse alguma coisa.
Precisavam esconder informações de mim.
Talvez isso significasse que eu ainda tinha alguma chance.
Talvez eles não fossem me matar.
Pelo menos não naquele momento.
Depois de mais algumas horas, conseguimos avistar a entrada da cidade de Itajaqui.
Parecia uma cidade pequena e tranquila.
Casas simples.
Pouco movimento.
Poucos carros.
Mas logo entramos em uma estrada cercada por mato.
O caminho parecia abandonado.
— É melhor por aqui — Diogo explicou. — Não tem moradores. Ninguém vai estranhar vários carros passando.
Eu já estava no limite.
Minha cabeça doía.
Minha visão ficava turva de vez em quando.
Eu estava morrendo de fome e sede.
Fazia quase dois dias que eu não comia de verdade.
Meu corpo estava fraco.
Minhas pernas tremiam.
Tentei permanecer acordada.
Não queria dormir.
Tinha medo de dormir.
Mas o cansaço estava ficando maior do que o medo.
Minha cabeça caiu lentamente contra o banco.
Tentei abrir os olhos.
Não consegui.
As vozes começaram a ficar distantes.
Eu ainda conseguia ouvir Henrique conversando com alguém, mas não entendia mais as palavras.
Minha visão escureceu.
E, antes que o carro chegasse à tal casa, eu finalmente perdi a consciência.
Henrique narrando
— Diogo mandou as fotos dela machucada para o papai dela?
Pergunto enquanto olho pela tela das câmeras.
Diogo está ao meu lado.
— Mandou.
Dou um pequeno sorriso.
Eu conseguia imaginar exatamente como Lucas estava naquele momento.
Desesperado.
Furioso.
Procurando a filha por todos os lugares.
Era exatamente isso que eu queria.
— Agora ele deve estar te caçando por todo canto.
— Pode ter certeza.
Volto meu olhar para a televisão.
A imagem mostrava Camila sentada no chão.
Ela estava com a cabeça apoiada nos joelhos.
Chorando.
Por alguns segundos, apenas observo.
Não deveria sentir nada.
Ela era apenas uma peça do meu plano.
A filha do homem que eu odiava.
Uma forma de fazer Lucas sentir uma parte da dor que eu senti.
Uma vingança.
Nada além disso.
Mas havia alguma coisa nela que começava a me incomodar.
Talvez fosse o jeito como ela tentava parecer forte mesmo estando apavorada.
Talvez fosse o fato de que, mesmo depois de tudo, ela ainda não tinha quebrado completamente.
— Ela está dormindo?
Diogo se aproxima da televisão.
— Não.
Continuo olhando.
— Chama a Marina e diz para ela levar uma roupa quente para ela. Vamos para a fazenda agora.
Diogo me encara.
— Você não acha que está cedo, Henrique?
— Não.
Cruzo os braços.
— Lucas já está com um vídeo e uma foto da filha. Daqui a pouco ele começa a ligar os pontos.
Faço uma pausa.
— E eu quero que ele sofra muito.
Diogo fica em silêncio.
Eu volto a olhar para a tela.
Camila levanta a cabeça lentamente.
Os olhos estavam vermelhos.
Por algum motivo, aquilo mexe comigo.
Mas afasto o pensamento.
Não posso me dar ao luxo de sentir pena.
Uma hora eu vou ter que matar aquela garota.
Só que antes...
Ainda existem tantas coisas que eu posso fazer para destruir Lucas.
E talvez Camila seja a melhor maneira de fazer isso.
Pego meu celular.
— Vamos preparar tudo.
— Para a fazenda?
— Para lá.
Olho mais uma vez para a câmera.
— Quero ela longe de qualquer possibilidade de ser encontrada.
E, naquele momento, eu ainda não fazia ideia de que levar Camila para aquela fazenda mudaria completamente o rumo da minha vingança.
