Capítulo 5 5
Henrique Narrando
Já estávamos quase chegando na casa do Diogo quando percebi que Camila começou a ficar inquieta no banco.
Ela respirava de maneira estranha e parecia cada vez mais fraca.
— Ei... — Marina chamou, observando-a. — Camila?
Ela não respondeu.
Seu corpo perdeu a força de repente e ela desmaiou.
— Deve ser fome e sede — Marina fala, examinando os pulsos dela. — Os batimentos estão normais. Ela deve estar cansada.
Fico olhando para Camila por alguns segundos.
No fundo, uma preocupação inesperada bate em mim.
Não deveria me importar.
Ela era apenas parte do meu plano.
A filha do homem que destruiu tudo o que eu tinha.
Mas, naquele momento, vendo-a desacordada, tão frágil, não consegui evitar a sensação de que talvez estivéssemos indo longe demais.
Afasto esse pensamento.
Não posso ter pena.
Não depois de tudo o que aconteceu.
— Quanto tempo até chegarmos? — pergunto ao motorista.
— Poucos minutos, chefe.
Encosto a cabeça no banco e olho pela janela.
A estrada estava praticamente deserta.
Quando finalmente chegamos à casa, Diogo abriu a porta do carro e pegou Camila nos braços.
— Leva ela para o quarto — ordeno.
Ele apenas assente.
Entro logo depois e encontro Marina trazendo algumas coisas para dentro.
A casa era simples, mas grande o suficiente para acomodar todos nós. Era um lugar afastado, longe de qualquer movimento, exatamente como precisávamos.
Diogo aparece alguns minutos depois.
— Coloquei a bela adormecida na cama — ele diz, sentando-se à mesa.
Pego uma garrafa de água e sirvo um copo.
— Você já sabe o que vai fazer com ela?
— Amanhã irei fazer um vídeo dela e mandar para o pai dela antes de pegar a estrada de novo.
Faço uma pausa.
— Preciso que arrumem o porão.
Diogo me observa.
Ele sabia muito bem o que aquela frase significava.
Eu já tinha passado boa parte da viagem pensando no que faria.
Lucas precisava entender que não estava no controle.
Precisava sentir medo.
Precisava sentir a mesma impotência que eu senti quando perdi Maria.
Levanto da mesa.
— Vou ver como ela está.
Pego uma bandeja na cozinha.
Coloco um sanduíche e um copo de suco.
Entro no quarto.
Camila continuava desacordada.
Coloco a bandeja sobre a pequena mesa ao lado da cama.
— Vamos acordar, Camila.
Balanço seu ombro.
Ela não reage.
— Anda, porra. Acorda antes que eu te dê um susto daqueles.
Ela acorda em um pulo.
Seus olhos se arregalam imediatamente.
Camila se encolhe no canto da cama, assustada.
Consigo perceber que ela ainda estava desorientada.
— Eu trouxe comida para você.
Aponto para a bandeja.
— O banheiro é ali no canto. Vai se lavar e vai comer.
Ela olha para mim, depois para a comida.
Não diz nada.
Apenas se levanta devagar.
Ainda com receio, caminha até o banheiro.
Eu saio do quarto e fecho a porta.
Volto para a sala, onde Diogo e Marina estavam.
Ficamos ali conversando durante algum tempo.
Falamos sobre a empresa, sobre o faturamento e sobre alguns problemas que precisavam ser resolvidos.
Eu tentava me concentrar.
Mas, de vez em quando, meus pensamentos voltavam para o quarto.
Para Camila.
Para o jeito como ela tinha desmaiado.
Para a preocupação que eu senti.
Aquilo me irritava.
Eu não podia começar a enxergá-la como uma pessoa.
Ela era a filha de Lucas.
Era isso que importava.
Cah Narrando
Depois de tomar um banho e lavar o rosto, saio do banheiro já vestida.
Olho ao redor.
Henrique não estava mais no quarto.
Por alguns segundos, sinto um alívio.
Aproximo-me da bandeja.
O cheiro da comida fez meu estômago doer.
Eu não comia direito havia quase dois dias.
Sento na cama e começo a comer.
Não me importava se estava comendo rápido demais.
Não me importava se alguém poderia aparecer.
Eu só queria matar aquela fome.
Comi tudo.
Até o último pedaço.
Depois bebi o suco rapidamente.
Fiquei alguns segundos olhando para a bandeja vazia.
Aquele tinha sido o primeiro alimento de verdade que eu recebia em muito tempo.
Voltei a me deitar.
Meu corpo inteiro doía.
Minha cabeça estava pesada.
Eu queria dormir.
Queria esquecer.
Queria acordar em casa e descobrir que tudo aquilo tinha sido apenas um pesadelo.
Fecho os olhos.
Mas não conseguia relaxar.
Qualquer barulho do lado de fora me fazia abrir os olhos novamente.
Depois de algum tempo, ouvi passos.
A porta abriu.
Henrique entrou.
Meu corpo ficou imediatamente tenso.
Ouvi quando ele deu boa-noite para alguém do outro lado da porta.
Meu coração começou a bater mais rápido.
Será que ele iria dormir ali?
Fiquei olhando para ele sem perceber.
— Por que você está me olhando?
Ele perguntou enquanto tirava a camiseta.
Engoli em seco.
— Você vai dormir aqui?
Assim que as palavras saíram, me arrependi.
Camila, você é burra. Cala a sua boca.
Ele apenas deu uma risada.
Assentiu com a cabeça.
O cheiro forte de bebida tomou conta do quarto.
Ele tinha bebido.
Muito.
Senti meu corpo inteiro gelar.
Henrique caminhou até a cama.
— Tira a roupa, anda.
Meu coração disparou.
Ele parou diante de mim.
— Quer tirar ou quer que eu vá até aí e tire?
Uma lágrima escorreu pelo meu rosto.
Eu não conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo.
— Por favor...
Minha voz saiu fraca.
Ele não respondeu.
Em poucos segundos, avançou sobre mim.
Tentei me afastar.
Tentei empurrá-lo.
Tentei lutar.
Mas ele era muito mais forte.
O medo tomou conta de mim.
A violência daquela noite aconteceu apesar dos meus pedidos para que ele parasse.
Eu chorei.
Gritei.
Pedi para ele me deixar.
Mas nada parecia fazê-lo parar.
Aquela foi a primeira vez que entendi que talvez eu pudesse morrer naquele lugar.
Quando finalmente tudo terminou, eu já não tinha forças.
Meu corpo doía inteiro.
Eu mal conseguia respirar.
Henrique se afastou e saiu do quarto, batendo a porta.
Fiquei imóvel.
Olhando para o teto.
Tentando entender o que tinha acabado de acontecer.
Eu me sentia vazia.
Quebrada.
Assustada.
Não conseguia parar de tremer.
Eu tinha chegado naquele lugar com medo de ser morta.
Agora já nem sabia qual das duas coisas era pior.
Tentei me levantar.
Não consegui.
Meu corpo simplesmente não respondia.
Encolhi-me no canto da cama.
Abraçei meus próprios joelhos e comecei a chorar em silêncio.
Eu só queria minha mãe.
Meu pai.
Minha casa.
Minha vida de volta.
Mas, naquele momento, eu não sabia sequer se sobreviveria até o dia seguinte.
Henrique Narrando
Saio do quarto e fecho a porta com força.
Ainda estava tomado pela raiva.
Minha respiração estava pesada.
Não sabia se estava com raiva dela ou de tudo o que aquela situação representava.
Pego um copo de água e bebo de uma vez.
— Diogo.
Ele olha para mim.
— Vai lá no quarto e tira fotos dela. Faz um vídeo também. Vamos mandar para o pai dela.
Faço uma pausa.
— Não vamos precisar usar o porão amanhã.
Diogo fica alguns segundos em silêncio.
— O que você fez com ela?
Levanto os olhos para ele.
— Não começa.
— Henrique, você precisa ter calma.
Meu sangue ferve.
Bato o copo sobre a mesa.
— Lucas não teve pena de Maria.
Minha voz sai carregada de ódio.
— Eu não vou ter pena da filha dele.
Diogo continua me olhando.
— A mesma coisa que o pai dela fez com a sua irmã...
Paro por um instante.
— No caso, a minha noiva.
Dou um soco na mesa.
— Ele tirou Maria de mim.
Minha mandíbula trava.
— Então agora ele vai sentir a mesma dor.
Diogo não responde.
Apenas pega o celular e vai até o quarto.
Eu fico sozinho na sala.
Por alguns segundos, o silêncio pesa.
Penso em Maria.
No sorriso dela.
No dia em que prometemos ficar juntos.
Em tudo o que nos foi tirado.
Lucas destruiu minha vida.
E eu precisava destruir a dele.
Não demorou muito para Diogo voltar com as imagens.
Ele me entrega o celular.
Olho para as fotos.
Camila estava exatamente como eu havia deixado.
Frágil.
Machucada.
Encolhida.
Desvio o olhar por um segundo.
Não queria sentir nada.
Pego o telefone.
— Vamos mandar para o pai dela através de um número desconhecido.
Faço uma pausa.
— Quero que ele veja.
Quero que Lucas sinta o desespero.
Quero que ele entenda que não pode proteger a própria filha.
Quero que sinta a mesma raiva que eu senti.
Entro novamente no quarto.
Camila estava encolhida no canto da cama.
Fingia estar dormindo.
Mas eu conseguia perceber sua respiração pesada.
Ela estava acordada.
Por um instante, fico parado na porta.
Não digo nada.
Apenas observo.
Depois de alguns segundos, minha voz sai mais baixa.
— Vou chamar a Marina para te ajudar.
Saio do quarto e vou atrás dela.
— Marina.
Ela olha para mim.
— Ajuda ela lá. Ela não está conseguindo se levantar.
Marina me encara com um olhar que eu conhecia muito bem.
Um olhar de reprovação.
Ela não diz nada.
Apenas se levanta e segue até o quarto.
Fico parado no corredor.
Escuto a porta abrir.
Depois, o silêncio.
Passo a mão pelo rosto.
Eu sabia o que estava fazendo.
Sabia que estava ultrapassando limites.
Mas também sabia por que estava fazendo aquilo.
Era vingança.
Era por Maria.
Era por tudo o que Lucas tinha tirado de mim.
E eu não iria parar.
O que eu estou fazendo é para me vingar dele.
E eu vou me vingar!
