Capítulo 6 6

Camila Narrando

Estou me sentindo um lixo.

Sinto dor em tudo.

Por dentro e por fora.

Meu corpo inteiro parece reclamar a cada movimento que tento fazer. Minha boca está cortada e ainda sai um pouco de sangue por causa dos golpes que ele me deu. Tenho dificuldade até para respirar sem sentir alguma parte do corpo doer.

Tento me levantar da cama.

Assim que apoio os pés no chão, uma tontura forte toma conta de mim.

Seguro na lateral da cama.

Minha visão escurece por alguns segundos.

— Meu Deus...

Minha voz sai tão baixa que mal consigo ouvir.

Tento dar um passo.

Meu corpo não acompanha.

As pernas tremem e eu preciso voltar a me sentar.

Não consigo me mexer direito.

Muito menos andar.

A dor abaixo da minha cintura é insuportável e faz meu estômago embrulhar.

Fecho os olhos e tento respirar.

Queria acordar.

Queria descobrir que tudo aquilo não passava de um pesadelo.

Mas eu sabia que não era.

Eu estava naquela casa.

Longe da minha família.

Longe de qualquer pessoa que pudesse me ajudar.

E, pela primeira vez, senti que talvez ninguém fosse conseguir me encontrar.

Ouço passos do lado de fora.

Meu coração dispara.

A porta abre.

Duas pessoas entram.

Não consigo ver direito quem são.

Eles caminham pelo quarto.

Sinto o colchão se mexer levemente quando alguém se aproxima da cama.

Fico completamente imóvel.

Fecho os olhos e finjo estar dormindo.

Talvez se pensassem que eu estava inconsciente, fossem embora.

Depois de alguns segundos, eles saem.

A porta fecha.

Continuo imóvel.

Não tenho coragem de abrir os olhos.

Até ouvir novamente a porta.

— Camila?

Reconheço a voz.

Marina.

Abro os olhos lentamente.

Ela entra no quarto e fecha a porta atrás dela.

— Eu vim te ajudar.

Ela se aproxima da cama.

Seu rosto estava diferente.

Não parecia tão fria quanto antes.

— Ele te machucou muito.

Apenas levanto a cabeça.

Subo meu olhar até o dela.

Não consigo responder.

Minha garganta está seca e meu corpo inteiro dói.

Marina pega alguma coisa na mão.

— Toma esse remédio para dor.

Ela me estende o comprimido e um copo de água.

Pego com dificuldade.

Minha mão treme.

Engulo o remédio e tomo a água devagar.

— Vou te ajudar a levantar para tomar um banho e depois cuidar dos seus machucados.

Não queria tomar banho.

Queria apenas ficar deitada.

Mas também não queria continuar daquele jeito.

Marina segura meu braço.

Eu tento levantar.

Meu corpo parece pesar toneladas.

— Devagar.

Coloco os pés no chão.

A tontura volta.

— Espera.

Ela segura minha cintura para que eu não caia.

Dou o primeiro passo.

Depois outro.

Cada movimento fazia meu corpo inteiro reclamar.

Caminhar até o banheiro pareceu uma eternidade.

Quando finalmente cheguei, me apoiei na parede.

Minha respiração estava acelerada.

Marina entrou comigo e ligou o chuveiro.

A água começou a cair.

Ela me olhou por alguns segundos.

— Você era virgem?

A pergunta me deixa envergonhada.

Abaixo os olhos.

— Sim.

Minha voz sai baixa.

Até falar estava doendo.

Marina fecha os olhos por um instante.

— Droga...

Ela resmunga para si mesma.

Eu estava zonza.

Precisava me apoiar nas paredes para conseguir ficar em pé.

Marina me ajudou a entrar debaixo do chuveiro.

A água quente tocou meu corpo.

Fechei os olhos.

Queria que ela levasse embora tudo.

A dor.

O medo.

A vergonha.

A sensação de estar suja.

Mas nada desaparecia.

Tudo continuava dentro de mim.

Marina saiu por alguns minutos para buscar algumas coisas.

Fiquei sozinha.

Apoiei as mãos na parede.

As lágrimas começaram a cair.

Eu me sentia imunda.

Suja.

Um lixo.

Não conseguia parar de pensar no que tinha acontecido.

O que meu pai tinha feito para aquele homem?

Por que ele me odiava tanto?

Por que eu estava pagando por algo que nem sabia o que era?

Se eu não tivesse convencido meus pais a dispensarem os seguranças, talvez aquilo nunca tivesse acontecido.

Eu lembrava perfeitamente de como tinha insistido.

Eu queria liberdade.

Queria poder sair sem homens me seguindo.

Agora daria tudo para ter aqueles seguranças ao meu lado.

Daria tudo para voltar no tempo.

— Vem, vamos. Vou te ajudar a sair.

A voz de Marina me faz abrir os olhos.

Ela havia voltado.

Desligou o chuveiro e estendeu uma toalha.

Eu mal conseguia ficar em pé.

Ela me ajudou a sair.

Depois me ajudou a me secar e vestir roupas limpas.

Não falamos muito.

Eu não tinha forças para conversar.

Quando terminou, Marina me ajudou a voltar para a cama.

Agradeci mentalmente quando percebi que Henrique não estava ali.

Eu não queria vê-lo.

Não queria ouvir a voz dele.

Não queria sentir a presença dele perto de mim.

Marina pegou um saco de gelo.

— Coloca isso no meio das pernas. Vai ajudar a aliviar a dor.

Pego o saco.

Ajeito como ela orientou.

O frio me fez estremecer, mas depois de alguns minutos começou a aliviar um pouco o desconforto.

Marina se sentou ao meu lado.

Começou a limpar os cortes no meu rosto.

Ardia.

Eu fechei os olhos.

— Ai...

— Aguenta.

Ela continuou.

Fiquei alguns segundos em silêncio.

Mas precisava saber.

Precisava entender.

— O que o meu pai fez para vocês?

Marina para por um instante.

Ela me olha.

Parecia pensar na resposta.

— Muita coisa.

Sua voz sai fria.

Ela volta a cuidar dos meus ferimentos.

— Mas o quê?

Insisto.

Ela não responde.

— Ele vai continuar me machucando?

Minha voz treme.

Engulo em seco.

Marina levanta os olhos.

Por alguns segundos, apenas me encara.

Então assente.

Um movimento pequeno.

Mas suficiente.

Naquele momento, alguma coisa dentro de mim desmorona.

Eu entendo.

Ali seria o meu fim.

Ele iria continuar.

Talvez até eu não conseguir mais sobreviver.

Talvez até meu corpo não aguentar.

Mas eu ainda queria entender o porquê.

O que meu pai tinha feito?

O que Maria tinha a ver com aquilo?

Por que eu estava pagando por uma guerra que nem conhecia?

Marina termina os curativos.

Depois sai do quarto.

Alguns minutos depois, retorna trazendo comida, água e mais um remédio.

— Você precisa comer alguma coisa.

Olho para a comida.

Meu estômago não queria nada.

Mas sabia que precisava.

Comi devagar.

Bebi a água.

Depois tomei o remédio.

— Estou com muita dor.

Marina apenas assentiu.

— O remédio vai ajudar.

Depois que ela saiu, me ajeitei em um canto da cama.

Escolhi o lado que ficava grudado na parede.

Assim eu não corria o risco de cair.

Puxei a coberta até a cabeça.

Queria desaparecer.

Ficar invisível.

Não queria mais sentir nada.

Meu corpo estava exausto.

Morrendo de sono.

Mas a dor não me deixava descansar.

Tudo doía.

Por dentro.

Por fora.

Fecho os olhos.

Tento respirar devagar.

Ouço alguns passos do lado de fora.

Meu coração dispara.

A porta abre.

Pelos passos firmes no chão, sei imediatamente quem é.

Henrique.

Meu corpo inteiro fica tenso.

Continuo imóvel.

Não queria que ele percebesse que eu estava acordada.

Ele caminha pelo quarto.

Cada passo faz meu coração bater ainda mais rápido.

A coberta escondia meu rosto.

Eu tento respirar o mais silenciosamente possível.

Ele passa perto da cama.

Meu corpo trava.

Então escuto sua voz.

— Se você ficar sem respirar, você vai morrer.

Sinto um arrepio percorrer meu corpo.

Ele continua andando pelo quarto.

Depois ouço a porta do banheiro se abrir e fechar.

Só quando percebo que ele não está mais ao meu redor é que finalmente solto a respiração que estava prendendo.

Meu coração ainda estava acelerado.

Mas, aos poucos, percebo que o remédio começa a fazer efeito.

A dor continua ali.

Mas fica um pouco mais distante.

Meu corpo começa a relaxar.

Os músculos deixam de ficar tão tensos.

Pela primeira vez desde que cheguei naquela casa, sinto meus olhos pesarem.

Ainda estou com medo.

Muito medo.

Mas o cansaço é maior.

Fecho os olhos.

Me encolho ainda mais debaixo da coberta.

E, aos poucos, finalmente consigo descansar um pouco.

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