Capítulo 7 7

Camila narrando

Já estava dentro de um carro na estrada novamente.

Só que, dessa vez, eu não estava amarrada e nem amordaçada.

A única coisa que me prendia era o cinto de segurança, que, pelo que eu tinha percebido, trancava com uma chave.

Mesmo assim, eu não conseguia me sentir livre.

Na verdade, eu estava mais presa do que nunca.

Henrique foi a primeira pessoa que vi quando entrei no carro, mas não estava sozinha. Marina e Diogo me ajudaram a entrar, porque a dor ainda era muito grande. Cada movimento fazia meu corpo reclamar, mas eu estava tentando fazer de tudo para não demonstrar.

Eu não queria que eles percebessem o quanto eu estava fraca.

Lá fora parecia estar muito quente, porque dentro do carro o ar-condicionado estava ligado no máximo.

Na minha frente estava Marina.

Ao meu lado, Diogo.

Henrique estava do outro lado, ao lado de Marina, acompanhado por alguns dos seguranças.

Além daquele carro, havia outros na frente e atrás, fazendo a segurança do comboio.

Olhei discretamente para os veículos.

Pensei em fugir.

Por alguns segundos, tentei montar um plano na minha cabeça.

Talvez, em algum momento, quando o carro parasse...

Talvez eu pudesse abrir a porta.

Talvez pudesse correr para o mato.

Mas bastava olhar para os carros ao nosso redor para entender que aquilo seria praticamente um suicídio.

Eu provavelmente não conseguiria nem dar dez passos antes que alguém me alcançasse.

Eles estavam armados.

Eu estava machucada.

Mal conseguia andar direito.

Não havia como correr.

Desisti da ideia antes mesmo de tentar.

Henrique, Diogo e os outros pareciam entretidos com alguns papéis.

Falavam sobre dinheiro, negócios e algumas finanças.

Pareciam tão concentrados que faziam de conta que eu nem estava ali.

Dessa vez, nem quis prestar atenção se Henrique estava olhando para mim.

Virei um pouco o corpo para a janela e fiquei observando a estrada.

O relógio do carro marcava sete da manhã quando saímos.

Agora já marcava dez.

Três horas.

Três horas dentro daquele carro.

E eu não tinha conseguido bolar um plano sequer para fugir daquele inferno.

Encostei a cabeça no vidro.

Fechei os olhos por alguns segundos.

Eu queria pensar.

Precisava pensar.

Mas minha cabeça estava cansada demais.

As lembranças dos últimos dias vinham uma atrás da outra.

O quarto.

A prisão.

A casa.

A violência.

Aquela sensação de não ter controle sobre o próprio corpo ou sobre a própria vida.

Abri os olhos rapidamente.

Não queria lembrar.

Marina me observava.

Era estranho.

Eu já tinha percebido que ela parecia bipolar.

Uma hora me tratava bem.

Na outra, parecia não se importar comigo.

Mas, no fundo, alguma coisa me dizia que ela não era uma pessoa completamente ruim.

Talvez estivesse apenas naquele lugar pelas mesmas razões que os outros.

Talvez tivesse medo de Henrique.

Talvez não.

Eu não sabia.

— Quer um pouco de água, Camila?

A voz de Marina me tira dos pensamentos.

Olho para ela.

Depois olho para o copo.

Nego com a cabeça.

— Não.

Ela apenas assente.

— Tudo bem.

Volta a olhar para frente.

Henrique e Diogo também voltam a conversar.

Eu me viro novamente para a janela.

Não queria falar.

Não queria chamar atenção.

Só queria que aquela viagem terminasse.

Foi então que um aparelho parecido com um rádio começou a apitar no colo de Diogo.

Ele pega rapidamente.

Uma voz masculina surge do outro lado.

— Diogo? Diogo?

Ele aperta o botão.

— Fala, parceiro.

— Deviam pela terceira rota, pelo matagal. Tem blitz na via que vocês normalmente pegam.

Meu coração dispara.

A voz continua:

— E o Lucas já deu a filha como desaparecida.

Por alguns segundos, esqueço completamente a dor.

Meu pai sabia.

Meu pai estava me procurando.

Ele tinha percebido que eu estava desaparecida.

Uma sensação de alívio percorreu meu corpo.

Eu sabia que ele não iria desistir de mim.

Meu pai estava me procurando.

Talvez pudesse me encontrar.

Talvez ainda houvesse uma chance.

— Motorista, desvia pela rota três agora.

A voz de Henrique corta meus pensamentos.

O motorista apenas assente e começa a mudar o caminho.

Olho novamente pela janela.

A esperança que tinha surgido dura poucos segundos.

Henrique percebe meu olhar.

— Não fica feliz com a notícia, não.

Meu corpo congela.

Ele me encara.

Seus olhos estavam apertados, carregados de raiva.

A voz sai grossa.

— Porque seu pai só vai te achar morta.

Sinto meus olhos arderem.

Viro rapidamente para a janela.

Não queria chorar na frente dele.

Não queria dar aquela satisfação.

As lágrimas ameaçavam cair, mas consegui segurá-las.

Minha respiração ficou pesada.

Meu peito subia e descia rapidamente.

Por que ele não me mata de uma vez?

Era isso que eu pensava.

Quantas coisas eu ainda vou ter que passar nas mãos desse monstro?

Eu queria voltar para casa.

Queria minha cama.

Queria minha mãe.

Queria ouvir meu pai dizendo que tudo ficaria bem.

Mas, naquele momento, eu nem sabia se teria a oportunidade de ouvir a voz dele novamente.

O carro entrou em uma estrada que eu acreditava ser a tal rota três.

O cenário mudou completamente.

Havia apenas campo e mato dos dois lados.

A estrada parecia não ter fim.

Em algumas partes, a vegetação era tão fechada que mal conseguíamos enxergar além dela.

Mesmo sendo de manhã, o caminho parecia escuro.

As árvores formavam uma espécie de corredor sobre a estrada.

Olhei para aquele lugar e um pensamento horrível passou pela minha cabeça.

Aquele seria um ótimo lugar para ele me matar.

Poderia esconder meu corpo ali.

Ninguém encontraria.

Balanço a cabeça rapidamente, tentando afastar aqueles pensamentos.

Eu estava ficando neurótica.

Pensar naquilo só fazia meu medo aumentar.

Respirei fundo.

Uma vez.

Duas.

Três.

Tentava me convencer de que eu precisava permanecer calma.

Se eu perdesse a cabeça, não conseguiria pensar em uma maneira de escapar.

E eu precisava encontrar uma maneira.

Eu precisava sobreviver.

— Toma, Camila.

Olho para o lado.

Marina estende um copo de água.

— Bebe um pouco. Você deve estar com sede agora.

Dessa vez, aceito.

Minha boca estava realmente seca.

— Obrigada.

Ela me observa beber.

Tomo pequenos goles no começo.

Depois percebo o quanto estava com sede e bebo mais.

Quando termino, devolvo o copo.

Marina apenas sorri de leve.

— Melhor?

Assinto.

— Um pouco.

Ela volta a olhar para frente.

Eu encosto novamente a cabeça na janela.

Depois de algum tempo, finalmente deixamos aquela estrada para trás.

Entramos em uma cidade.

Por alguns minutos, vejo algumas casas, pequenos estabelecimentos e pessoas andando pelas ruas.

Meu coração acelera.

Pessoas.

Talvez alguém pudesse me ajudar.

Talvez eu pudesse gritar.

Talvez pudesse pedir socorro.

Mas os carros continuavam andando em formação.

Os seguranças estavam atentos.

Eu sabia que qualquer tentativa seria perigosa.

Então fiquei quieta.

Depois de atravessarmos a cidade, seguimos novamente por uma estrada de chão.

O caminho parecia levar para dentro de uma floresta.

Quanto mais avançávamos, menos sinais de civilização apareciam.

Não havia casas.

Não havia pessoas.

Apenas árvores.

Muitas árvores.

Comecei a ficar inquieta novamente.

Depois de alguns minutos, avistei algo à frente.

Um enorme portão de madeira.

Era bonito.

Grande.

Parecia pertencer a uma propriedade antiga.

O carro diminuiu a velocidade.

O portão se abriu.

E foi então que percebi.

Era uma fazenda.

Meu olhar percorreu o lugar.

Ao redor havia muitas árvores.

Tudo parecia muito bem cuidado.

Quando passamos pelo portão, fiquei completamente surpresa.

Era lindo.

Havia um jardim enorme na frente.

Flores.

Árvores.

Um gramado perfeitamente cuidado.

A casa parecia saída de um filme antigo.

Era branca, com aquele estilo tradicional de fazenda.

Na frente havia uma fonte de pedra.

Por alguns segundos, esqueci até onde estava.

O lugar era realmente bonito.

Mas a beleza não diminuía o meu medo.

Muito pelo contrário.

Comecei a reparar nos detalhes.

Havia várias pessoas circulando pela propriedade.

Provavelmente empregados.

Vi homens trabalhando nos jardins.

Outras pessoas entrando e saindo da casa.

E então percebi algo que fez meu coração afundar.

Uma guarita de segurança.

Havia homens armados por perto.

Alguns caminhavam ao redor da casa.

Outros estavam próximos aos carros.

Olhei para todos aqueles seguranças.

Depois olhei para a enorme propriedade.

Talvez fosse ainda mais difícil fugir dali.

O carro parou diante da casa.

Diogo abriu a porta.

Marina saiu primeiro.

Depois se virou para mim.

— Vamos, Camila.

Fiquei alguns segundos parada.

Olhei para a fazenda mais uma vez.

Era bonita.

Tranquila.

Quase perfeita.

Mas eu sabia que, para mim, aquele lugar não era uma fazenda.

Era apenas uma prisão maior.

E, pela quantidade de homens armados espalhados pela propriedade, fugir dali não seria nada fácil.

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