Capítulo 8 8

Camila narrando

Assim que o carro parou, Henrique, Diogo e Marina desceram.

Eu fiquei ali dentro, esperando alguém me tirar daquele carro.

Henrique entrou para dentro da casa sem nem olhar para trás.

Nem uma palavra.

Nem sequer um olhar.

Diogo falou alguma coisa com um dos seguranças que estava ao lado do carro. O homem apenas assentiu e entrou no veículo.

Meu coração começou a bater mais rápido.

O carro voltou a andar.

E foi aí que meu nervosismo aumentou ainda mais.

Para onde estavam me levando?

Eu já tinha visto a casa.

Sabia que aquela propriedade era enorme.

Mas agora estava sendo levada para outro lugar sem saber para onde.

Olhei pela janela.

O carro deu a volta pela casa.

Demoramos quase cinco minutos para chegar ao outro lado.

A propriedade era realmente gigantesca.

Foi durante aquele percurso que consegui reparar melhor no lugar.

Havia muitos animais espalhados pela fazenda.

Cavalos.

Vacas.

Algumas galinhas andando livremente.

Também havia muitos empregados trabalhando.

Alguns cuidavam dos animais.

Outros trabalhavam no jardim ou perto da casa.

Tudo parecia funcionar como uma propriedade de verdade.

Mas havia uma coisa que não saía da minha cabeça.

Os acessos laterais davam diretamente para a floresta que cercava toda a fazenda.

Floresta de todos os lados.

Se eu conseguisse fugir da casa, ainda teria que atravessar aquilo.

E, considerando que eu mal conseguia andar direito, provavelmente não chegaria muito longe.

O carro finalmente parou.

O segurança desceu.

Ele abriu a porta onde eu estava sentada.

Retirou a chave e destrancou meu cinto.

— Vamos.

A voz dele era rápida e grossa.

Ele deu espaço para que eu saísse.

Desci do carro devagar.

Meu corpo ainda doía muito.

Tentei não demonstrar.

— Por aqui.

Ele apontou para uma escadaria.

Olhei para baixo.

A escada descia para um corredor.

Meu coração apertou.

Parecia uma espécie de porão.

Desci os degraus lentamente.

O corredor era escuro e tinha várias portas dos dois lados.

O segurança caminhava na minha frente.

Eu olhava para cada porta, tentando memorizar o caminho.

Talvez aquilo fosse importante depois.

Talvez, se surgisse uma oportunidade, eu pudesse encontrar uma saída.

Seguimos até o final.

Ele abriu uma porta.

— Anda. Entra aí.

Olhei para dentro.

— O patrão mandou te deixar aqui.

Entrei.

Ele fechou a porta atrás de mim.

Fiquei alguns segundos parada.

Olhei ao redor.

Não era muito diferente do primeiro lugar onde fiquei presa.

Também era escuro.

Mas aquele quarto era um pouco mais organizado.

Havia uma cama de casal.

Uma mesa no canto.

Um armário.

E uma televisão pequena presa na parede.

Pela aparência, parecia que aquele lugar tinha sido preparado para me receber.

Aquilo me deu um arrepio.

Eles tinham planejado tudo.

Não era algo improvisado.

Eu não estava ali por acaso.

Abri o armário.

Meu coração apertou.

Havia roupas.

Calçados.

Roupas íntimas.

Cobertas.

Travesseiros.

Tudo com etiquetas.

E tudo no meu tamanho.

Passei a mão por uma das roupas.

Como eles sabiam?

Como tinham conseguido aquilo?

Eu não queria nem imaginar há quanto tempo Henrique planejava tudo.

Fechei o armário.

Sentei na cama.

Fiquei olhando para o chão.

O que seria de mim agora?

Quanto tempo eu ficaria ali?

Meu pai conseguiria me encontrar?

Eu queria acreditar que sim.

Mas, olhando para aquele lugar, parecia impossível.

Aquilo era no fim do mundo.

Uma fazenda enorme, cercada por floresta, com homens armados espalhados pela propriedade.

Como meu pai encontraria aquele lugar?

Eu estava perdida.

Completamente perdida.

A porta se abriu.

Assusto-me e levanto os olhos.

Era Diogo.

O aprendiz de demônio.

Ele entra segurando uma bandeja.

— O patrão mandou eu te trazer isso.

Ele coloca a bandeja sobre a mesa.

Depois olha ao redor.

— E aí? Está gostando do quarto?

Ele dá um sorriso de canto.

— Tem até televisão, pô.

Abre os braços, mostrando o lugar.

Eu quase reviro os olhos.

Nunca tinha reparado direito nele.

Diogo era bonito.

Muito bonito, para falar a verdade.

Mas isso não mudava nada.

Ele fazia parte daquele grupo.

Era da mesma laia do Henrique.

Então, para mim, continuava sendo perigoso.

— Obrigada.

Minha voz sai baixa.

Continuo olhando para ele com receio.

— Eu preciso de um remédio. Será que posso falar com a Marina?

— Pode falar comigo que eu trago.

Fico alguns segundos em silêncio.

Não sabia se deveria pedir.

Mas precisava.

— Eu quero uma pílula.

Ele me olha de um jeito intrigado.

— Que pílula?

Engulo em seco.

— Do dia seguinte.

O sorriso desaparece do rosto dele.

Por alguns segundos, ele fica me olhando.

— Vou falar com o patrão.

Meu coração afunda.

— Se ele autorizar, eu trago.

Ele se vira.

— Espera...

Mas Diogo já estava fechando a porta.

Fico sozinha novamente.

Olho para a porta.

Depois para a bandeja.

Meu estômago embrulha.

Do jeito que Henrique era um monstro, era capaz de não deixar que eu tomasse aquela maldita pílula.

Eu precisava.

Ele não tinha usado proteção.

E eu já estava há alguns dias sem tomar meu anticoncepcional.

Eu usava a pílula principalmente para regular minha menstruação, mas agora aquilo tinha se tornado uma preocupação muito maior.

Eu não queria nem pensar na possibilidade de engravidar dele.

Não queria carregar dentro de mim mais uma lembrança daquele homem.

Não depois de tudo.

Passei as mãos pelo rosto.

— Não...

Sussurrei para mim mesma.

Eu não podia pensar nisso agora.

Precisava me concentrar em sobreviver.

Olhei para a comida sobre a mesa.

Pela primeira vez desde que fui sequestrada, eu tinha uma refeição de verdade na minha frente.

Meu estômago roncou.

Sentei à mesa.

Comecei a comer.

Não estava preocupada com educação.

Não estava preocupada com nada.

Comi como se aquela fosse minha última refeição.

Eu estava morrendo de fome.

Cada garfada parecia devolver um pouco da minha força.

Bebi o suco devagar.

Quando terminei, fiquei alguns segundos olhando para o copo vazio.

Foi então que algo chamou minha atenção.

Uma pequena câmera.

No canto da parede.

Meu coração disparou.

É claro.

É claro que Henrique não perderia a oportunidade de me vigiar.

Até naquele quarto.

Até quando eu estivesse sozinha.

Olhei para a câmera.

Será que ele estava me vendo naquele momento?

Será que estava sentado em algum lugar observando cada movimento meu?

Fiquei encarando o objeto por alguns segundos.

A raiva começou a crescer.

Eu estava cansada.

Cansada de sentir medo.

Cansada de ser observada.

Cansada de não poder fazer nada.

Então, sem pensar muito, levantei a mão.

Mostrei o dedo do meio diretamente para a câmera.

— Vai se ferrar!

Assim que falei, meu coração disparou.

Fiquei imóvel.

Meu Deus.

Olhei para a câmera novamente.

E se ele tiver visto?

O arrependimento veio imediatamente.

Se arrependimento matasse, eu provavelmente estaria morta naquele mesmo instante.

Baixei a mão.

Sentei novamente na cama.

Fiquei olhando para a televisão desligada.

Talvez ele não estivesse olhando.

Talvez estivesse ocupado.

Talvez aquela câmera nem funcionasse.

Eu precisava acreditar nisso.

Porque, se Henrique tivesse visto...

Eu nem queria imaginar o que poderia acontecer.

Me encolhi na cama e puxei o cobertor.

Olhei mais uma vez para a câmera.

— Espero que você não tenha visto...

Sussurrei.

Mas, no fundo, eu já sabia.

Com Henrique, nada passava despercebido.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo