Capítulo 9 9
Camila narrando
O sol já entrava pela pequena janela que tinha em cima da cama.
A claridade batia no meu rosto e, pela primeira vez em muito tempo, eu consegui acordar sem sentir aquela dor insuportável pelo corpo.
Abri os olhos devagar.
Fiquei alguns segundos olhando para o teto.
Depois mexi os braços.
As pernas.
O pescoço.
Ainda sentia alguns desconfortos, mas as dores mais fortes tinham passado.
Eu já conseguia me mexer com muito mais facilidade.
Respirei fundo.
Do lado de fora, dava para ouvir a agitação da fazenda.
Vozes.
Passos.
Portas abrindo e fechando.
Galinha cantando.
Pessoas conversando.
O som dos animais.
Aquilo me fez perceber que já devia ser de manhã.
Talvez não fosse muito tarde.
Fiquei alguns minutos apenas ouvindo.
Era estranho.
Aquele lugar parecia tão normal do lado de fora.
Poderia ser uma manhã comum em qualquer fazenda.
Mas, para mim, era uma prisão.
Eu estava presa ali.
Sem saber por quanto tempo.
Sem saber o que Henrique pretendia fazer comigo.
E sem saber quando meu pai conseguiria me encontrar.
Escuto passos se aproximando da porta.
Meu corpo fica imediatamente tenso.
A porta se abre.
Dou de cara com ele.
Henrique.
Ele segurava uma bandeja, provavelmente meu café da manhã, e uma sacola pequena.
Ele entra sem pressa.
— É educado dizer bom dia.
Coloca a bandeja sobre a mesa.
Eu permaneço em silêncio.
Ele se vira para mim.
— Da próxima vez que você tiver um pedido assim para fazer, não precisa pedir para chamar a Marina. Pode pedir para me chamar.
Ele estende a sacola.
Pego com cuidado.
Olho para dentro.
Era a pílula do dia seguinte.
Meu coração bate mais rápido.
Ele realmente tinha trazido.
— Você tem até a tarde para tomar, porque o prazo é quarenta e oito horas. E vê se toma.
Henrique para na minha frente, colocando as mãos nos bolsos.
Olho para ele.
— E você acha que eu seria louca de não tomar?
Minha voz sai mais firme do que eu esperava.
Ele arqueia uma sobrancelha.
Depois começa a rir.
— Está corajosa.
Meu coração dispara.
Ele dá um passo na minha direção.
— É melhor você tomar logo isso, antes que eu resolva que a melhor vingança é seu pai ter um neto no qual eu sou o pai.
O sorriso desaparece do rosto dele.
Aquelas palavras me assustam.
Eu olho imediatamente para a caixa.
Não queria imaginar aquilo.
— Não, obrigada.
Engulo em seco.
— Eu vou tomar.
Ele continua me olhando.
— E tem mais uma coisa que preciso te falar.
Ele se aproxima.
— Da próxima vez que você me mandar o dedo do meio, eu quebro todos eles. Entendeu?
Meu corpo trava.
Ele segura meu cabelo.
— ENTENDEU?
O grito faz meu coração disparar.
Tento me afastar, mas as mãos dele no meu cabelo me fazem perder o equilíbrio.
— Sim, entendi.
Minha voz sai entre soluços.
Ele me solta e me joga contra a cama.
O colchão amortece minha queda.
Henrique tira o relógio do pulso e joga sobre a cama.
Depois simplesmente sai pela porta.
Fico alguns segundos sem reação.
Olho para ele desaparecendo pelo corredor.
Foi então que percebi uma coisa.
A porta.
Ela não tinha uma fechadura comum.
Henrique havia digitado alguma coisa para abri-la.
Um código.
Um código numérico.
Meu coração acelera.
Ele tinha apertado os números tão rapidamente que eu não consegui enxergar direito.
Mas talvez...
Talvez eu pudesse descobrir.
Olho para o relógio que ele deixou na cama.
Pego.
8h30.
Eu acho que, em toda a minha vida, nunca acordei tão cedo assim.
Coloco o relógio sobre a mesa.
Olho para a porta.
Depois para a câmera.
Precisava ter cuidado.
Muito cuidado.
Eu não sabia se Henrique tinha deixado o relógio ali de propósito ou simplesmente esqueceu.
Mas, se ele tivesse esquecido...
Aquilo poderia ser uma pequena oportunidade.
As horas passaram.
Fiquei lendo um pouco.
Andando pelo quarto.
Pensando.
O problema é que, na agitação do momento, esqueci completamente de tomar a pílula.
Quando finalmente peguei a caixa novamente, olhei para ela.
Fiquei alguns segundos parada.
Foi então que uma ideia completamente louca surgiu na minha cabeça.
Talvez fosse uma ideia absurda.
Talvez fosse perigosa.
Mas, quanto mais eu pensava, mais ela parecia fazer sentido.
Eu não iria tomar a pílula.
Se eu engravidasse de um filho dele, talvez aquilo mudasse tudo.
Talvez Henrique não me machucasse mais.
Talvez uma gravidez fosse uma forma de me proteger.
Talvez ele pensasse duas vezes antes de continuar.
E, ao mesmo tempo, aquilo poderia se transformar na vingança contra meu pai que ele tanto queria.
Eu sabia que estava pensando em algo completamente insano.
Mas eu precisava encontrar alguma forma de sobreviver.
E, naquele momento, aquela parecia ser a única ideia que eu tinha.
Precisava apenas fazer com que ele acreditasse que eu tinha tomado.
Olhei para a câmera.
Sabia que estava sendo observada.
Então abri a caixa na frente dela.
Peguei a cartela.
Retirei o comprimido.
Coloquei na boca.
Depois peguei o copo de água.
Fingi engolir.
Esperei alguns minutos.
Depois fui para o banheiro.
Fechei a porta.
Rapidamente retirei o comprimido intacto da boca.
Olhei para ele por alguns segundos.
Meu coração estava disparado.
Então joguei no ralo.
Abri a torneira.
Deixei a água correr.
Agora era esperar.
Eu só precisava que ninguém descobrisse.
Já eram aproximadamente quatro da tarde quando Marina entrou no quarto.
— Tomou o remédio, Camila?
Ela se senta na minha frente.
Assinto.
— Sim, tomei.
Ela me observa por alguns segundos.
— Você está melhor dos machucados?
— Sim, estou.
Faço uma pausa.
— Posso te fazer uma pergunta?
Marina assente.
— Você é tão bonita e parece ser tão legal... Por que está nesse mundo?
Ela dá uma pequena risada.
— Não estou nessa vida porque quero, não.
Seu sorriso desaparece.
— Mas é o que sobrou para mim.
Ela me entrega uma sacola.
— Aqui tem algumas coisas que vão te distrair.
Abro a sacola.
Livros.
Um diário.
Algumas canetas.
— Vai te ajudar a passar o tempo.
Olho para ela.
Por algum motivo, aquela pequena gentileza me emociona.
— Obrigada.
Ela sorri.
— Eu prometo que vou tentar fazer com que meu irmão não te machuque mais.
Baixo os olhos.
— Isso vai ser difícil.
Olho para ela.
— Seu irmão é um monstro.
Marina fica em silêncio por alguns segundos.
— Ele não foi sempre assim.
Ela suspira.
— Acredite.
Antes que eu consiga perguntar qualquer coisa, uma voz surge na porta.
— O que vocês estão falando de mim?
Levo um susto.
Henrique estava parado na entrada.
Marina começa a rir.
— De você? Mas você é muito convencido mesmo.
Ele olha para a sacola.
— O que é isso?
— Trouxe uns livros para ela ler.
Marina se levanta.
— Tchau, Camila.
Ela passa por Henrique e sai.
Ele entra no quarto.
Meu corpo fica tenso imediatamente.
— Você tomou o remédio?
Ele me encara.
— Por acaso você não viu pelas câmeras?
Ele dá um pequeno sorriso.
— Está abusada, hein.
Henrique senta na cama, na minha frente.
Eu me afasto automaticamente.
Vou para trás o máximo que consigo.
Até bater as costas na parede.
Levo um susto.
— Por favor...
Minha voz sai baixa.
— Não me machuca.
Ele dá uma risadinha de lado.
Antes que diga alguma coisa, o telefone dele toca.
Henrique olha para a tela.
Atende.
Pela maneira como muda a expressão, percebo que era uma ligação importante.
Ele se levanta.
— Me espera. Eu volto.
Caminha até a porta.
Meu olhar acompanha cada movimento.
Ele digita o código.
A porta abre.
Dessa vez, presto atenção.
Tento memorizar.
Ele digita rapidamente.
Consigo perceber que o número três aparece duas vezes.
São seis números.
Seis.
Meu coração dispara.
A porta fecha.
Corro até a pequena mesa.
Pego o bloco que Marina havia me dado.
Abro em uma página vazia.
Escrevo rapidamente:
Código — seis números. Tem dois números 3.
Fico olhando para aquilo.
Talvez fosse pouco.
Mas era alguma coisa.
Eu precisava descobrir todos.
Uma hora eu iria conseguir.
Agora faltavam apenas quatro números.
E, pela primeira vez desde que fui sequestrada, senti que talvez eu tivesse encontrado uma pequena chance de sair daquele lugar.
Só precisava esperar.
Observar.
E não deixar Henrique perceber que eu estava aprendendo o código da minha própria prisão.
