Capítulo 2
Ponto de vista de Isabella
Meu coração martelava contra as costelas, cada batida bombeando uma fúria incandescente pelas minhas veias. Como ele ousava ficar ali? Como ele ousava respirar o mesmo ar depois do que tinha feito?
A ficha caiu como um golpe físico — dois anos de promessas sussurradas, dois anos de momentos roubados, enquanto ele brincava de família com Giana. Minhas unhas cravaram nas palmas das mãos quando me forcei a passar por ele. Pelo bem de Giana, eu não faria uma cena.
Damon agarrou meu pulso, aquele toque familiar agora incendiando minha pele. “Belly—”
“Não.” Empurrei-o para trás, a voz tremendo de raiva mal contida. “Você perdeu o direito de me chamar assim.”
Ele deu um passo mais perto, e o cheiro do perfume dele — o mesmo que eu tinha comprado no último Natal — fez meu estômago revirar. “Só me deixa explicar.”
“Ah, por favor.” Uma risada amarga escapou de mim. “Deixa eu adivinhar — isso tudo foi algum ensaio elaborado? A Giana é só sua substituta até o pedido de verdade?”
O maxilar dele se contraiu. “Não seja cruel. Você sabe que eu não quero isso, mas eu preciso do dinheiro da família dela.” A voz dele baixou naquele sussurro íntimo pelo qual eu costumava derreter. “É você que eu amo. Isso é por nós.”
Por nós?
A repulsa rastejou pela minha pele como um enxame de insetos. Ele dividiu a cama com ela por dois anos e depois voltou para a minha. Ele nos comparou? Riu disso com os amigos?
“Você não tem o direito de usar essa palavra”, cuspi. “Não existe ‘nós’. Existe só você — um covarde mentiroso e ganancioso que se vendeu.”
A verdade ficou pendurada entre nós, podre e inegável. Cada momento de ternura que compartilhamos agora estava manchado; cada “eu te amo”, exposto como moeda na negociação dele.
“Não ouse me usar como desculpa!” Minha voz tremeu de fúria contida enquanto eu arrancava o último fiapo daquela justificativa patética. “Isso nunca foi sobre ‘nós’ — sempre foi sobre você e o seu egoísmo!”
A lembrança daquele instante ardia como se tivesse acabado de acontecer — as mãos dele me empurrando de lado, escolhendo a segurança dela em vez da minha. “Se isso é a sua ideia de amor, então um vira-lata de rua mostra mais devoção lambendo as próprias feridas sozinho!”
O olhar dele baixou. “Eu... eu não podia deixar a Giana suspeitar—”
“Mas os meus sentimentos eram descartáveis?” Eu ri, amarga, o som afiado como vidro quebrado. “Você achou que, porque eu não tenho família, não tenho poder, eu ia aceitar qualquer migalha que você me jogasse?”
O choque rápido nos olhos dele confirmou tudo. Algo dentro de mim se despedaçou de um jeito irreparável. Cinco anos. Cinco anos desperdiçados com um homem que me via como nada além de um bichinho — esperando que eu obedecesse quando chamado, que sofresse em silêncio quando fosse descartada.
“Saia da minha frente, Damon.” Minha voz desceu para um sussurro perigoso. “A menos que você queira que a sua preciosa festa de noivado vire um escândalo sobre o qual eles vão fofocar por anos.”
Os dedos dele apertaram meu pulso como um torno. “Você não vai”, ele sibilou, aquela arrogância conhecida voltando à tona. “Você nunca machucaria a Giana. E você ainda me ama, Belly. Por mais brava que esteja, nós dois sabemos—”
Uma risada seca e sarcástica escapou dos meus lábios.
“Você é a única mulher que eu quero”, ele sussurrou, o hálito quente junto à minha orelha — os mesmos lábios que tinham beijado os dedos de Giana ao colocar o anel nela. “Lembra dos nossos planos? Três filhos. Aquela vila à beira-mar. Viajar o mundo quando eles crescerem...”
Cada palavra era uma faca girando mais fundo. Eu ainda conseguia nos ver largados no chão do dormitório dele, rabiscando aqueles sonhos em guardanapos, o riso dele se misturando ao meu. Mas fantasias desmoronam sob o peso da traição.
“Se você queria esse futuro”, minha voz falhou, “por que nos quebrou em pedaços para conseguir?”
Ele confundiu minhas lágrimas com fraqueza. “É temporário”, insistiu, segurando minhas mãos. “Eu não amo a Giana, mas o império da família dela pode bancar tudo com que a gente sonhou. Dois anos — só me dá dois anos para garantir tudo, e aí eu—”
O estalo do tapa ecoou antes de eu perceber que tinha me mexido.
“Você acha que eu ia comemorar virar a outra?” Minha palma ardia, mas nem metade do que meu coração. “Que eu ia deixar você destruir a vida dela por uma vila e carimbos no passaporte?”
“É negócio!”, ele retrucou, esfregando a bochecha. “Ela vai se recuperar — ela tem dinheiro, conexões—”
Outro tapa. Dessa vez, meus dedos tremeram. O homem diante de mim não era o garoto que eu tinha amado — era só um estranho usando o rosto dele. “Eu não me apaixonei por um covarde que troca corações por carteiras de ações.”
Ele estendeu a mão para mim. “Belly, eu não posso te per—”
“Não.” Recuo, e o cheiro do perfume dele — antes reconfortante — agora me embrulhava o estômago. “Eu te perdi no segundo em que você escolheu dinheiro em vez de lealdade.”
Enxugando as lágrimas com as costas da mão, encarei o olhar dele sem vacilar. “Acabou. Se você já se importou, vai me deixar ir embora e nunca olhar para trás.”
“O inferno que vai!” O controle dele se estilhaçou. Num único movimento violento, ele me prensou contra a parede, os dedos cravando nos meus braços como algemas. “Você não vai embora”, rosnou, o hálito quente e afoito contra a minha pele. “Você sempre foi minha. Sempre vai ser minha.”
Eu me contorci, mas o corpo dele me imobilizou sem piedade. Os lábios dele rasparam na minha bochecha, procurando a minha boca com um desespero que me revirou o estômago — até a voz de Giana cortar a escuridão.
“Damon? Amor?”
Como se alguém acionasse um interruptor, ele me soltou, dando um passo para trás com uma compostura impecável. Quando se virou para ela, o rosto já tinha se transformado numa preocupação gentil. “Só estava vendo como a Isabella está, meu bem. A surpresa a deixou sobrecarregada — você sabe como ela fica emotiva com a felicidade das amigas.”
Cada mentira polida arrancava mais um pedaço da minha alma. O choque da dualidade dele me deixou sem ar — de monstro a príncipe num piscar de olhos. Minha garganta travou em torno da verdade quando o olhar cálido de Giana encontrou o meu.
“Belly, você está pálida.” Ela estendeu a mão para mim, alheia às marcas de dedos que floresciam nos meus pulsos. “Deixa o Damon te levar pra casa—”
“Não.” A palavra rasgou de mim, crua como uma ferida aberta. A ideia de ficar presa num carro com ele fez meu pulso virar um motim.
Damon a puxou para junto do corpo com uma facilidade ensaiada. “Querida, nossos pais estão esperando para conversar sobre os arranjos florais.” O polegar dele acariciou o ombro dela — a mesma mão que tinha me machucado instantes antes. “Vou pedir para o Charles levá-la.”
Eu não esperei ouvir mais nada. Empurrando para passar por eles, fugi para a noite, recusando o carro arranjado com um sacudir seco da cabeça. Eu chamaria um Uber.
No instante em que a porta do carro se fechou, a represa rompeu. Soluços sacudiam meu corpo enquanto eu me encolhia, lágrimas quentes encharcando meu vestido. A dor era física — como se alguém tivesse enfiado a mão no meu peito e arrancado meu coração a sangue-frio. Eu precisava de oblívio. Agora.
O barman lançou um único olhar para a minha cara arrasada e para as minhas mãos trêmulas antes de empurrar um copo de líquido âmbar sem dizer nada. Virei num gole só, ardendo, acolhendo o fogo — até os primeiros acordes daquela música flutuarem pelas caixas de som.
Claro. Claro, porra.
Um holofote iluminou um casal perto do palco, o homem ajoelhado com uma caixinha de veludo. O “Own” coletivo da plateia me revirou o estômago. Eu observava pelo fundo do meu copo enquanto ele murmurava as mesmas promessas vazias que Damon tinha sussurrado na minha pele ontem à noite.
“Homens”, eu falei, arrastando as palavras para ninguém, contornando a borda do copo com o dedo. “Todos poetas até conseguirem o que querem.”
A sala inclinou quando eu me empurrei para fora do banquinho. Antes de perceber o que estava fazendo, eu já tinha subido na plataforma do DJ. “Chega dessa merda romântica!” Minha voz ecoou pelo som que, de repente, ficou mudo. “Toca alguma coisa que não me faça querer vomitar!”
Um mar de rostos chocados piscou para mim. Então uma mão grossa prendeu a minha cintura. “Alguém tá arisca”, uma voz com hálito de cerveja debochou. O fedor de bebida barata me atingiu como um tapa — lúpulo azedo e decisões ruins.
A realidade desabou de volta. Mesmo no fundo do poço, eu me recusava a ser o prêmio de consolação de algum bêbado.
“Encosta em mim de novo”, eu disse, doce como veneno, “e você vai perder a porra do seu rabo.”
O aperto do bêbado se fechou dolorosamente na minha cintura. “Não seja assim, docinho”, ele balbuciou, o hálito azedo de uísque me banhando o rosto enquanto a outra mão descia para a minha bunda. “Deixa eu te mostrar uma—”
“Eu disse NÃO! Seu babaca!” Empurrei o peito dele, mas meus movimentos bêbados não tinham força. O rosto dele se retorceu de raiva quando levantou um punho carnudo — só para vê-lo ser agarrado no ar por uma mão poderosa e bronzeada.
“A moça recusou.” A voz era grave, calma e absolutamente letal.
Eu pisquei para o meu salvador inesperado e, pela primeira vez naquela noite, minha respiração falhou por um motivo totalmente diferente.
Ele estava ali como um anjo caído esculpido em mármore — passando fácil de um metro e oitenta, com ombros que bloqueavam as luzes neon do bar. A camisa preta sob medida esticava sobre um físico de guerreiro, cada músculo definido como se tivesse sido talhado pelos próprios deuses. O ar ao redor dele estalava de energia perigosa, calando a sala só com a presença.
“Quem é esse f—” Os olhos injetados do bêbado focaram nele e então se arregalaram de terror. “S-Sr. Moretti! Eu não— eu não quis— eu não tava—”
“Vá embora.” Uma única palavra, dita com uma quietude definitiva. “Agora.”
Eu mal registrei o bêbado se mandando. Tudo o que eu conseguia ver eram aqueles olhos azul-glacial se prendendo nos meus — olhos que guardavam tempestades e segredos e alguma coisa que mandava correntes elétricas direto para o meu centro.
Moretti. O nome ressoou em mim como um sino golpeado. Perigoso. Poderoso. E, naquele momento, me examinando com uma intensidade que fez meu pulso falhar.
Quem era esse homem que comandava ambientes com um simples olhar? E por que todo instinto no meu corpo gritava pela atenção dele?!
