Capítulo 3

Ponto de vista de Matteo

A cobertura estava quieta demais.

Fiquei imóvel diante das janelas do chão ao teto, o brilho âmbar de um Macallan de 18 anos capturando as luzes da cidade lá embaixo. Nova York pulsava com vida — uma sinfonia de caos e desejo — enquanto meu reflexo encarava de volta: um homem esculpido em gelo e arestas.

Trinta e cinco anos. Dez trilhões de dólares ao meu comando. E, ainda assim, eu ali, de pé sozinho como algum clichê soturno.

Três batidas precisas. Os saltos sensatos de Evelyn repicaram sobre o mármore.

— Senhor, as candidatas chegaram.

Não me virei.

— Quantas?

— Quatro. — O tablet dela fez um clique. — Senhorita Laurent — passarela parisiense, fala três idiomas. Senhorita Chen — violoncelista formada na Juilliard. Senhorita —

— Chega. — O copo de cristal gelou minha palma. — Mande entrarem.

Elas entraram como um desfile de fantasmas — cada uma mais requintada que a anterior. Pernas longas, lábios em bico, olhos que prometiam luxúria. Elas sabiam o acordo. Uma noite com Matteo Moretti significava diamantes pela manhã e silêncio para sempre.

Eu as estudei, esperando alguma coisa — uma faísca, um lampejo de interesse. Nada.

— Fora. — A sílaba única estilhaçou a tensão.

Evelyn hesitou.

— Devo providenciar —

— Hoje à noite eu caço minha própria presa. — Meus nós dos dedos embranqueceram em torno do copo. Em algum lugar desta cidade maldita, tinha que existir uma mulher que não me entediasse antes mesmo de abrir a boca.

23h47, o nível exclusivo do The Viper Lounge vibrava com o tipo de poder silencioso que só vem com riqueza de verdade — iluminação baixa cintilando em copos de cristal, conversas murmuradas que valiam milhões, o cheiro de uísque caro e ambição pesado no ar. Meu refúgio de sempre. Meu reino de sombras.

Eu girava o segundo Macallan, o gelo tilintando como uma contagem regressiva para o nada, quando a voz dela cortou o burburinho — afiada como vidro estilhaçado.

— Eu disse NÃO! Seu babaca!

Eu me virei.

Ela era caos em seda e salto alto: um copo de martíni meio vazio batido no balcão com força suficiente para fazer o barman se encolher. Cabelos escuros e selvagens caíam sobre os ombros nus, as bochechas coradas de fúria e álcool, os olhos em chamas. Não apenas bêbada. Não apenas furiosa. Viva — de um jeito vibrante, perigoso.

Meus dedos se apertaram em torno do copo.

Uma mão carnuda alcançou a cintura dela, algum idiota num terno Armani falsificado achando que tinha encontrado presa fácil.

— Qual é, docinho —

Eu já estava me movendo antes de ele terminar.

Minha mão travou em torno do pulso dele, os ossos rangendo sob meus dedos.

— A dama recusou. — Minha voz saiu mortalmente baixa.

O homem se virou, a raiva retorcendo o rosto — até o reconhecimento bater. A garganta dele trabalhou.

— S-senhor Moretti —

Eu me inclinei, perto o bastante para ele sentir o perigo em mim.

— Vá embora. Agora.

Ele saiu cambaleando, se atrapalhando para desaparecer.

Os olhos dela, cor de ouro de uísque, piscaram para mim, vidrados pela bebida, mas assustadoramente lúcidos sob as luzes fracas do clube. Agora que eu estava perto, dava para ver o que as sombras tinham escondido — juventude.

Começo dos vinte, se tanto. Sem melhoramentos artificiais, sem sedução calculada. Só pele lisa, corada por uma emoção sincera; lábios mordidos, rosados, em vez de pintados; cílios que não precisavam de nada para emoldurar aqueles olhos luminosos.

Inocente demais. Viva demais. Não era o tipo de mulher que pertencia ao meu mundo nem por uma noite.

— O-obrigada. — A voz dela era melosa e hesitante enquanto prendia uma mecha escura e rebelde atrás da orelha. O gesto simples expôs a curva delicada do pescoço, o vão vulnerável da clavícula—

O calor se acumulou no fundo do meu ventre.

Cerrei os dentes. Vai embora. Agora.

Mulheres como ela vinham com complicações. Com expectativas.

Um aceno seco e então me obriguei a virar as costas — mas não sem um último aviso.

— Garotinha não devia ficar sozinha na rua à noite.

— Eu deixei de ser criança faz anos. — A resposta resmungada dela tinha desaforo o bastante para me arrancar uma ponta de diversão, contra a minha vontade.

O ar da noite me estapeou e me despertou quando eu saí, o brilho neon do Viper pintando a calçada de vermelho-sangue. Não olhei para trás, mas eu a senti — o tec-tec instável dos saltos, a mistura intoxicante de baunilha e decisões imprudentes cortando a sujeira habitual da cidade.

Criaturinha persistente.

Parei.

— Você ainda está me seguindo, baixinha.

O silêncio entre nós se esticou, tenso, antes que ela falasse de novo, a voz mais baixa agora, mas ainda afiada por aquele desafio irresistível.

— Foi você quem disse que eu não devia ficar sozinha hoje à noite.

Eu me virei — devagar, de propósito — e lá estava ela. A mesma gata do inferno que, minutos atrás, parecia pronta para estourar um copo na cabeça de algum idiota agora me encarava de baixo para cima com olhos de âmbar quebrado. O luar pegou na inclinação delicada do ombro nu, onde a alça do vestido tinha escorregado; a pele clara brilhava contra o tecido preto que ela apertava ao redor do corpo como uma armadura.

Cristo. Eu não conseguia tirar os olhos da pele dela. A vontade de acariciá-la estava ficando forte.

Soltei uma expiração curta, firme.

— Cadê seu celular? Liga para uma amiga.

Ela balançou a cabeça.

— Todas ficaram do lado dele.

Ah. Traição de ex.

Todo instinto me mandava ir embora. Mulheres como ela — só curvas macias e coração ferido — queriam promessas escritas nas estrelas. Acreditavam em canções de amor e finais felizes, enquanto eu sabia melhor.

Então ela estremeceu, e alguma coisa primal rosnou no meu peito.

— Olha — eu disse, com a voz mais dura do que eu pretendia —, você não vai querer ir para casa comigo.

Ela ergueu o queixo. Aquele fogo ainda ardia por baixo da dor.

— Por quê? Você é perigoso?

Minha boca se curvou sem humor.

— Para você? Com certeza.

Em vez de recuar, ela deu um passo mais perto, os dedos roçando a manga do meu paletó.

— Eu corro o risco.

Porra.

Meus dedos envolveram o pulso dela, com pressão só o bastante para fazer a pulsação saltar sob o meu toque.

— Você está bêbada.

“Nem de longe o suficiente”, ela rebateu, o hálito quente contra a minha mandíbula. “E você... Você está morrendo de fome disso.”

Então os lábios dela encontraram os meus, e anos de controle de ferro se desintegraram.

Eu já tinha levado incontáveis mulheres para a cama, mas nunca permiti isso — nunca as beijei. Não desde que a traição da minha ex-esposa me ensinara o perigo da intimidade. Lábios levavam à confiança. Confiança levava ao amor. E amor era uma fraqueza que eu não podia me dar ao luxo de ter.

“Última chance de fugir”, rosnei, o aviso mais para mim do que para ela. Meus dedos se enroscaram no cabelo dela, já contradizendo minhas palavras.

A risada em resposta vibrou contra a minha boca quando ela beliscou meu lábio inferior — um desafio brincalhão que mandou fogo direto para a minha virilha. “Qual é, Moretti? Com medo de eu acabar com você?”

Um riso sombrio escapou de mim. Então a gatinha tinha garras.

“Reze para lembrar deste aviso amanhã”, murmurei antes de tomar a boca dela.


Ponto de vista de Isabella

Eu não sabia que tipo de loucura tinha tomado conta de mim para beijar um estranho.

Talvez fosse o jeito como os olhos azul-glaciais dele tinham acompanhado cada movimento meu no bar — como um lobo observando um coelho, se coelhos carregassem canivetes e um rancor contra o mundo. Talvez fosse a vodca ainda queimando nas minhas veias, borrando a traição do Damon até virar algo distante e sem importância. Ou talvez, depois de uma vida inteira fazendo o papel de boa menina, eu finalmente tivesse estourado.

No segundo em que nossos lábios se tocaram, um raio percorreu minha coluna.

Moretti não beijava — ele tomava posse. A boca dele se moveu sobre a minha com uma fome que me roubou o ar, as mãos largas prendendo meus quadris com força suficiente para me marcar. Eu sentia que ele se continha, aquele controle de ferro impedindo-o de tomar o que nós dois queríamos.

Que se dane isso.

Eu não era uma boneca delicada para ser tratada com luvas de pelica. Eu era incêndio e fúria, e queria que ele sentisse.

Meus dentes afundaram no lábio inferior dele.

Um rosnado vibrou contra a minha boca; os dedos dele cravaram na minha carne quando algo perigoso lampejou no olhar. “Cuidado, tempestadezinha”, ele advertiu, a voz áspera como cascalho. “Você está brincando com fogo.”

Eu me esfreguei nele, saboreando o jeito como o corpo dele enrijeceu. “Então me queime.”

A viagem de elevador até a cobertura dele foi uma tortura deliciosa. Não importava o quanto eu me contorcesse contra ele, não importava o quanto meus dedos arranhassem o cinto dele em desespero: ele se recusava a ceder. As mãos habilidosas dele me levavam à beira, de novo e de novo, até minhas coxas tremerem e meu fôlego virar arfadas irregulares.

“Por favor”, eu implorei, a voz falhando na palavra.

Os lábios dele se curvaram num sorriso perverso que prometia tanto prazer quanto castigo.

“Paciência, tempestadezinha”, ele murmurou, o timbre grave vibrando dentro de mim. “As melhores coisas vêm para quem sabe esperar.”

Quando chegamos ao quarto, cada terminação nervosa gritava de necessidade. Quando as mãos fortes dele me jogaram sobre os lençóis de seda, eu o puxei por instinto — precisando, queimando para assumir o controle.

Um suspiro rasgou minha garganta quando ele se moveu com a graça de uma pantera, me prendendo sob seu corpo poderoso. Com uma mão, sem esforço, ele algemou meus pulsos acima da minha cabeça, enquanto a outra se fechava no meu cabelo, inclinando meu rosto para cima para encontrar o olhar incandescente dele.

— Tsc, tsc.

O hálito dele queimou minha orelha, fazendo arrepios descerem pela minha coluna.

— Onde estão seus modos? Diga seu nome, pequena tempestade.

Mordi o lábio. Nós tínhamos combinado — sem nomes, sem promessas, só uma noite para esquecer. Mas a ordem na voz dele, a possessividade no toque, acendeu algo perigoso dentro de mim.

O aperto dele se fechou na minha cintura, os dedos afundando na carne macia.

— Diga.

— B-Bella... — gemi, me arqueando contra ele. — Isabella.

A risada baixa e escura dele se enrolou em mim como fumaça.

— Você tem ideia do que começou, Bella?

O olhar que eu lhe devolvi era puro pecado.

— Me tenha... — As palavras escaparam sem que eu quisesse, minha contenção de sempre estilhaçada pelo desejo.

Então ele se moveu.

Num batimento, ele era fogo contido — no seguinte, era um incêndio. O corpo dele tomou o meu num único impulso devastador, que arrancou um grito dos meus lábios.

— Meu Deus... — Minhas unhas riscaram as costas dele enquanto ele me preenchia por completo, cada investida poderosa me empurrando rumo ao esquecimento. Era punição e adoração, agonia e êxtase, o ritmo implacável destruindo cada último fiapo do meu controle.

Quando o orgasmo me atravessou como uma lâmina, uma verdade aterrorizante ardeu mais forte do que o prazer — eu nunca queria que aquilo acabasse.


Acordei numa cama vazia, ao som de água correndo.

A luz do sol atravessava cortinas desconhecidas de hotel quando as lembranças da noite passada voltaram em detalhes vívidos — as mãos dele na minha pele, minhas unhas arranhando suas costas, o jeito como eu tinha implorado por mais. Meu pulso disparou, martelando alto o bastante para abafar o ritmo constante do chuveiro.

Ai, meu Deus. Passei dedos trêmulos pelo cabelo embaraçado. O que foi que eu fiz?

Desde quando a Isabella reservada, cuidadosa, entrava na cobertura de um estranho e deixava que ele a destruísse da melhor maneira possível? Desde quando eu pedia por isso?

Um toque agudo despedaçou minha autocensura. O identificador de chamadas congelou minha respiração — Orfanato St. Mary's. Meus dedos se atrapalharam para atender.

— Srta. Joanna? — Até para os meus próprios ouvidos, minha voz soou crua. Usada.

— Isabella... — A calma habitual da diretora se rompeu em algo fino e desesperado. — Nós precisamos de você.

Gelo inundou minhas veias.

— O que aconteceu?

— É o Alan. — Uma pausa engasgada. — Os exames voltaram... É câncer gástrico em estágio três.

O mundo tombou. Alan — o menino doce que dividia os lápis de cera comigo nos meus dias mais sombrios, que me chamava de “Belly” quando a língua presa dele fazia “Isabella” ser difícil demais.

Minha garganta se fechou em volta de um soluço que eu não podia me permitir soltar. Eu não podia perdê-lo.

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