Capítulo 4

Ponto de vista de Isabella

A luz da manhã atravessou meu crânio como uma lança quando eu cambaleei para fora do Uber, cada raio uma agulha em brasa atrás dos meus olhos. A pulsação nas têmporas era metade culpa da vodca de ontem à noite, metade desse choque de realidade devastador de hoje.

Vinte e quatro horas de merda.

Foi só o que bastou para detonar a minha vida.

Primeiro, Damon — cinco anos de promessas e planos — se ajoelhando para Giana enquanto eu ficava ali, como um brinquedo descartado. Depois, afogando minha humilhação em martínis vagabundos até um estranho perigoso, com olhos azul-gelo, virar a minha decisão terrível. Agora minha pele ainda carregava a lembrança das mãos dele, meus músculos doíam em lugares deliciosamente vergonhosos, e meu vestido cheirava a pecado caro e arrependimento.

E Alan — doce, corajoso Alan — deixando aquele correio de voz que estilhaçou o que restava do meu coração: “Oi, Belly... estágio dois. Mas eu sou durão, né? Não se preocupa.”

A mentira queimou pior do que a bebida. Eu sabia exatamente quanto custava o tratamento. Sabia que os parcos fundos do orfanato iam sumir mais rápido do que a lealdade do Damon.

O que explicava por que eu tinha escapado, ao amanhecer, dos lençóis de mil fios do Moretti. Cada centavo que eu tinha juntado para a pós-graduação agora compraria algo muito mais precioso — a chance do Alan.

Empurrei a porta do nosso apartamento caindo aos pedaços, o cheiro familiar de café velho e limpador de limão me acertando em cheio. Minha colega de quarto, Melinda, espiou da cozinha, os olhos se arregalando.

— Bella! Meu Deus! Você finalmente voltou hoje... — O olhar dela desceu para o meu vestido amassado, para a marca de mordida aparecendo acima da gola. — Meu Deus do céu!

Eu tinha escolhido aquele apartamento apertado justamente porque era tudo o que eu conseguia pagar sozinha. No dia em que completei dezoito anos, saí da mansão dos Sanchez com nada além do meu orgulho e uma determinação de ficar em pé com as minhas próprias pernas. Chega de esmolas dos Sanchez. Chega de linhas borradas entre amor e dependência financeira.

Melinda virou minha colega de quarto por necessidade, seis meses atrás, embora a gente mal tivesse dividido mais do que um punhado de noites sob o mesmo teto — Damon sempre me arrastava para o apartamento dele, a voz adoçada por promessas do “nosso lugar” se eu apenas desistisse do meu contrato.

Graças a Deus eu tinha mantido meu nome naquele contrato.

— Só vou pegar umas coisas — resmunguei para Melinda, passando por ela em direção ao meu quarto.

Ela se remexeu, desconfortável.

— Isabella, espera... o Damon está aqui. Ele tem...

Meu sangue virou lama ártica.

De todos os arrogantes, hipócritas... depois da traição dele, depois da noite passada... ele teve a cara de pau de se enfiar na minha casa? A porta do quarto se abriu antes que eu conseguisse girar a maçaneta.

Lá estava ele, tendo trocado o smoking da festa de noivado pela camisa de algodão macio que eu tinha escolhido com tanto cuidado em fevereiro — a mesma que ele dizia amar porque “cheirava a mim”. O desgraçado sentimental achou mesmo que isso ia funcionar agora?

— Onde diabos você estava? — A exigência estalou pelo apartamento como um chicote.

Passei por ele sem diminuir o passo. Alan precisava de mim. Eu não ia desperdiçar mais um segundo com isso...

— Isabella! — Os dedos dele se fecharam no meu bíceps, me virando com brutalidade. — Responde! Você não voltou para casa ontem à noite!

Uma risada amarga escapou de mim.

— Engraçado — eu disse, me soltando do aperto —, porque eu me lembro muito bem de você ter perdido todos os privilégios de namorado quando colocou um anel no dedo da Giana.

O maxilar dele tremeu, aquele tique revelador que ele nunca conseguia controlar quando a raiva fervia por baixo da superfície polida.

— É um acordo temporário, Bella. Você é a única que eu quero.

Uma risada vazia rasgou a minha garganta.

— Que sorte a sua... porque você é o último homem que eu iria querer de novo.

O olhar de Damon ficou predatório ao percorrer minha aparência desgrenhada — o vestido amassado, as marcas mal escondidas pela gola, o rastro persistente da colônia de Matteo, bergamota e sândalo. As narinas dele se dilataram.

— Então essa é a sua vingança? Abrir as pernas pra...

PÁ.

Minha palma acertou a bochecha dele com força suficiente para mandar um choque pelo meu braço. O estalo ecoou nas paredes como uma rolha de champanhe estourando na noite de Ano-Novo.

Silêncio. Um silêncio mortal.

Damon virou a cabeça de volta devagar, a marca vermelha da minha mão destacando-se na pele dourada. Quando falou, cada palavra pingava veneno:

— Você vai pagar por isso.

Em três batidas do coração, ele já me tinha prensada contra a parede, os dedos cravados nos meus braços com força bastante para deixar hematomas. Minhas costelas protestaram quando o impacto arrancou o ar dos meus pulmões.

— Você acha que algum bastardo sem nome consegue me tirar da sua cabeça te comendo? — o hálito dele queimava meus lábios, uísque e fúria. — Cada centímetro seu é meu. Esses gemidos? Esses arrepios? São meus. Sempre vão ser...

— Vai pro inferno! — eu me torci com violência, minhas unhas arranhando os pulsos dele. — Você jogou a gente fora quando você...

A boca dele esmagou a minha num beijo que era só castigo — sem ternura, só posse. O Damon que eu tinha amado nunca teria...

Eu mordi.

Ele recuou com um palavrão gutural, o cobre brotando no lábio.

— Sua vadiazinha...

Três batidas secas na porta nos congelaram.

— Bella? — a voz abafada de Melinda atravessou a madeira. — Você tá bem?

O aperto de Damon afrouxou só o suficiente. Eu me soltei, esfregando a boca com as costas da mão até meus lábios arderem.

— Tenta de novo — eu sibilei, erguendo o celular com dedos trêmulos — e eu mando te prender antes que você consiga dizer “pacto pré-nupcial”. O sussurro que veio depois tinha mais dor do que ameaça: — Por favor, não me obriga a isso.

Ficamos presos num silêncio — a respiração dele irregular, meu pulso martelando alto o bastante para afogar a razão. Então veio aquele sorrisinho, o mesmo que antes fazia meu estômago dar um salto. Agora só me embrulhava.

— Você vai voltar — ele disse, endireitando os punhos como se não tivesse acabado de me agredir. — Você nunca dura muito sem mim.

A porta fechou com um clique. Minhas pernas cederam.

A parede fria pressionou minha coluna enquanto eu escorregava para baixo, arfando. Cobre e sal — os dois sabores da traição — cobriram minha língua.

Melinda surgiu na hora, as mãos dela virando âncoras quentes nos meus ombros.

— Querida, ele...

— Alan. — O nome rasgou minha garganta. Eu me ergui num solavanco, o quarto girando. — Eu preciso da minha conta poupança.

Desajeitada com a gaveta trancada, eu derrubei pilhas de avisos de cobrança vencidos e Polaroids desbotadas até meus dedos fecharem no livrinho azul-marinho. As letras douradas em relevo brilhavam, zombeteiras, sob a luz do abajur.

$328,47

Os números dançaram. Não podia... Eu economizara por anos. Tinha que ter dinheiro suficiente pra...

O relógio. A memória me acertou como um soco. Aquele maldito Patek Philippe com mostrador de madrepérola. Os olhos de Damon tinham brilhado quando eu lhe entreguei a caixa de veludo no último aniversário. “Você não precisava”, ele murmurara, já prendendo o relógio no pulso.

A ligação para o hospital completou antes do primeiro toque terminar.

— Faturamento da oncologia.

— Os custos do tratamento do Alan Chen. — Minha voz não parecia minha — toda vidro estilhaçado e fio desfiado.

Teclas estalaram.

— Menor sem seguro... ciclo inicial de quimio... — Uma pausa. — Oitenta e dois mil, incluindo...

O número explodiu atrás dos meus olhos. A mão de Melinda me firmou quando o chão pareceu desaparecer.

Oitenta e dois mil.

Eu tinha trezentos.

Trezentos. Dólares.

E Alan — doce, teimoso Alan, que tinha dividido comigo o último biscoito quando a gente tinha oito anos — ia morrer porque eu fora burra o bastante para comprar para um traidor um relógio de merda.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo