Capítulo 5

Ponto de vista de Isabella

O ar-condicionado da boutique levantou arrepios nos meus braços enquanto eu apertava a caixa de veludo com mais força. Lá dentro, o Patek Philippe faiscava sob os refletores — do mesmo jeito que tinha brilhado quando eu passei meu cartão de crédito estourado, imaginando a cara do Damon ao abrir. Para o nosso aniversário. Para o nosso futuro.

— Para o cavalheiro exigente — o vendedor arrulhara, embrulhando em papel prateado.

Agora, aquele mesmo homem me encarava com um desprezo mal disfarçado. — Senhora, nossa política de devolução afirma explicitamente—

— Sete dias. — Bati o recibo no balcão de vidro, o tremor nos meus dedos me traindo. — Faz seis.

O sorriso dele ficou açucarado. — Apenas trocas. Com o comprador original presente.

Uma risada, como taças de cristal se estilhaçando, cortou o silêncio da boutique.

— Ora, ora. Mas se não é o caso de caridade do meu irmão.

Minha coluna travou. Daniella Sanchez se escorava na porta, a Birkin de crocodilo pendendo como um laço. O olhar dela — frio como os diamantes no pescoço — varreu meus scarpins gastos antes de pousar na caixa do relógio.

Uma sobrancelha perfeitamente esculpida se arqueou. — Ah. A mesada do sugar daddy de alguém foi cortada?

O calor queimou minhas bochechas enquanto os clientes fingiam não escutar. Os lábios do vendedor tremeram.

— Isso não diz respeito a você — rosnei.

— Tudo em você diz respeito a nós. — O sussurro dela carregava o peso de uma guilhotina. — Você realmente acreditou que uma rata de sarjeta conseguiria segurar um Sanchez?

As palavras acertaram como um golpe físico. Minha garganta ardeu, mas eu forcei o queixo para cima. — Eu só quero meu dinheiro de volta.

A risada de Daniella cristalizou o ar entre nós. — Nada nunca foi seu, querida. Nem o Damon. E, certamente, nem... — Ela fechou a caixa do relógio com um clique definitivo. — ...essa bugiganga patética.

O mundo pendeu. Vinte mil dólares — sumidos. Com mais uma semana, o Alan teria de esperar pelo tratamento. O gosto metálico do desespero inundou minha boca—

— Se ela usar a minha conta VIP, vocês processam a devolução?

Aquela voz — jovem demais, confiante demais — atravessou a tensão da boutique. Virei e vi um garoto que não devia ter mais do que sete anos, de pé ali, as mãozinhas enfiadas nos bolsos de um terninho em miniatura. Cada centímetro dele gritava dinheiro antigo, do cabelo engomado aos Oxfords bem polidos.

O lábio do gerente se retorceu. — E quem seria você, rapazinho?

— Um cliente platinum — ele anunciou, estufando o peito. — E vocês estão assediando a minha namorada.

Uma risada surpresa borbulhou na minha garganta apesar de tudo. A criança — essa criança absurda e maravilhosa — me lançou uma piscadela cúmplice antes de voltar seu olhar severo para o gerente. — A sua política diz claramente devoluções em até sete dias. Já deu sete dias, moça?

Ele não olhou para trás, mas seus ombrinhos se firmaram, decididos. Igual o Alan fazia quando me defendia naqueles galas beneficentes horrorosos.

— Seis — respondi, meus lábios se curvando apesar de mim mesma.

— Então honre o seu contrato. — Embora mal alcançasse o balcão, a presença dele comandava a sala. A testa do gerente reluzia enquanto ele a enxugava com um lenço de seda.

O dedo bem cuidado de Daniella tamborilou no vidro. “Prove seu status, senhorzinho. Ou agora a gente recebe ordens de qualquer moleque de rua?”

Pela primeira vez, o garoto hesitou. As mãos dele apalparam, frenéticas, os bolsos do blazer até seu rosto desabar. “Eu… eu acho que tá na minha mochila…”

A gargalhada triunfante de Daniella despedaçou a esperança momentânea. “Perfeitamente previsível.”

Ela se virou para o gerente, que havia se materializado atrás do balcão. “Acredito que a política da loja proíba dar trela a impostores e seus…” O olhar dela varreu meu corpo com crueldade deliberada. “…associados.”

O gerente começou a rir com sarcasmo. “Quase me enganou, garoto. Segurança! Tirem essas pessoas daqui!”

O garoto — meu pequeno campeão — murchou diante dos meus olhos. Os ombros orgulhosos dele se fecharam para dentro enquanto os seguranças nos conduziam até a saída; ele mordiscava o lábio inferior até deixar em carne viva. A luz do sol da tarde pareceu uma acusação quando fomos despejados na calçada.

“Ei”, murmurei, me agachando até ficarmos na mesma altura. Ele chutava com raiva um pedaço solto do pavimento. “O que você fez lá dentro foi incrivelmente corajoso.”

Ele piscou para mim com aqueles olhos azul-oceano, as lágrimas não derramadas fazendo-os brilhar. “Coragem não adianta quando você perde.”

A dor na voz dele era familiar demais — aquela sensação oca de quando a esperança azeda e vira impotência. Meus próprios fracassos pressionaram minhas costelas.

Então o estômago dele roncou com um volume de desenho animado, estilhaçando a tensão. Eu caí na risada. “Pelo jeito alguém mereceu a recompensa de um herói.”

O suspiro dele quando apontei para o carrinho de cachorro-quente foi praticamente reverente. “Sério? Meu pai diz que comida de rua me dá parasita!”

O ketchup virou uma barba enquanto ele devorava o cachorro-quente, e toda a sofisticação de antes desapareceu entre mordidas desastradas. Naquele instante, ele não era um magnata em miniatura — era só uma criança com fome.

“Eu sou a Bella”, eu disse, limpando com o polegar uma meleca de molho de tomate do queixo dele. “E você é—”

“Oi, Bella. Eu sou o Noah”, ele resmungou com a boca cheia de cachorro-quente; então enrijeceu quando duas sombras caíram sobre nós. Os seguranças pairavam como dois monólitos em seus ternos pretos sob medida.

“Jovem mestre.” O maior falou entre dentes. “Seu pai solicitou seu retorno imediato.”

O revirar de olhos de Noah era tão perfeito que só podia vir de anos de resgates parecidos. Mas, quando os seguranças estenderam a mão para ele, ele surpreendeu todo mundo — se atirando em mim com as mãos grudentas e o cheiro inconfundível de cebola de carrinho e ketchup. Os bracinhos dele apertaram com uma força inesperada.

“A gente vai se ver de novo, senhorita Bella”, ele sussurrou no meu ombro, o hálito quente e doce de refrigerante. Então se afastou só o suficiente para me dar uma piscadela tão teatral, tão deliberada, que me fez rir. “Eu prometo.”

Os vidros escuros do carro executivo o engoliram por completo, deixando-me na calçada com meu relógio inútil e uma estranha dor no peito.

Como se o destino tivesse nos levado a nos encontrar.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo