Capítulo 6
Ponto de vista de Matteo
Meu filho estava diante de mim — blazer amarrotado, a gola manchada com o que eu esperava com todas as forças que fosse ketchup —, o peitinho subindo e descendo. Se era pela escapada ou pela antecipação da minha reação, eu não sabia dizer.
Pousei minha caneta Montblanc com uma precisão deliberada. O clique ecoou pelo escritório silencioso.
— Esta é a terceira vez neste mês, Noah.
Ele ergueu o queixo, aqueles olhos azuis familiares — espelhos dos meus — ardendo de rebeldia.
— Eu só queria ver a nova loja de LEGO!
— Sozinho? — Minha voz permaneceu perigosamente calma. — Sem avisar ninguém?
— O Anton estava comigo! — Ele apontou para o guarda-costas de rosto impassível perto da porta.
— Depois de você despistá-lo por quarenta e três minutos. — O número me soube a ácido. Quarenta e três minutos em que o impensável poderia ter acontecido. Em que o impensável aconteceu comigo, quando eu tinha a idade dele.
O lábio inferior de Noah tremeu antes que ele se controlasse, os dentes cravando na carne macia. Ele se lembrava da nossa última conversa — Morettis não demonstram fraqueza. A lembrança coalhou no meu estômago.
Levantei-me, empurrando o corpo para cima, e minha perna esquerda protestou com o movimento. A velha lesão das corridas ainda doía no tempo úmido — um lembrete permanente do acidente que roubou minha carreira. Que roubou tudo.
Noah recuou instintivamente meio passo antes de firmar aqueles ombrinhos miúdos. O gesto defensivo atravessou meu peito como uma lança. Quando foi que meu filho aprendeu a se preparar para a minha decepção?
— Para o seu quarto — eu disse, suavizando o tom apesar de mim. — Vamos falar das consequências depois do jantar.
— Mas, papai...
— Agora.
O rosto dele se partiu por um batimento devastador antes de se recompor numa neutralidade cuidadosa. Sem dizer mais nada, ele se virou bruscamente e marchou para fora, com Anton seguindo a uma distância respeitosa.
A porta se fechou com um clique, deixando-me sozinho na cadeira, massageando as têmporas. Os relatórios da divisão de Singapura ficaram esquecidos, os números tremeluzindo diante dos meus olhos. Eu conseguia fechar acordos internacionais antes do café da manhã, conseguia desmontar rivais corporativos com uma única ligação — e, ainda assim, um teimoso de sete anos me reduzia à mais absoluta impotência.
O interfone zumbiu.
— Senhor? A vaga para a babá está pronta para sua revisão.
— Depois. — Apertei o botão com força desnecessária.
Noah não era mais o mesmo desde a maldita pergunta daquele repórter no parque, no mês passado — Por que você não tem mãe como as outras crianças? Eu destruí a carreira do homem antes do pôr do sol, mas a ferida nos olhos do meu filho permaneceu.
Assim como as feridas que eu infligi ao desaparecer no trabalho durante os primeiros anos dele — sessões intermináveis de fisioterapia, aquisições hostis, reconstruindo o império que meu pai quase destruiu. Quando eu finalmente emergi, meu bebê tinha virado um estranho desconfiado, que se assustava com movimentos súbitos.
Meu telefone vibrou com um alerta da equipe de vigilância. A imagem carregou: Noah com ela. Isabella. A mulher do bar. Aquela cujo gosto ainda me assombrava.
Lá estavam eles, sentados num banco do parque, ela demonstrando a pegada perfeita para segurar um cachorro-quente enquanto meu filho observava, absorto. A luz do sol dourava o rosto dela, risonho, e Noah — Cristo — Noah sorria radiante, com uma alegria pura, sem defesas. Uma visão tão estrangeira quanto bonita.
Bati o telefone com força, esmagando o pensamento perigoso que começava a criar raízes.
Casamento é uma transação. Amor é bioquímica. Lições marcadas a ferro em mim quando minha ex-mulher esvaziou nossas contas quarenta e oito horas depois de meu acidente nas corridas me deixar quebrado de todas as formas que importavam.
Três batidas precisas. Evelyn entrou, segurando o tablet como um escudo.
— Senhor, sobre esta noite...
— Cancele. — duro demais. Rápido demais.
A sobrancelha impecavelmente feita se arqueou.
— Todos eles?
Virei-me para as janelas. Além do vidro, os jardins da mansão se espalhavam no crepúsculo — roseiras aparadas com precisão militar, carvalhos antigos lançando sombras longas sobre a escavadeira de brinquedo esquecida de Noah perto da fonte. Essa terra guardava gerações da história dos Moretti no próprio solo. O único lugar em que eu ousava baixar a guarda.
Ao contrário da cobertura... Apertei os olhos. Aquela jaula no céu, cobiçada por toda Nova York, não passava de um matadouro para necessidades físicas. Eu nunca levava a mesma mulher lá pela segunda vez, assim como nunca saboreava o mesmo charuto ao fim de uma refeição.
Mas desde aquela noite com Bella, até a ideia do toque de outra mulher me deixava frio.
Patético.
Minha mão afundou o couro da cadeira. Eu não podia deixar mulher nenhuma me influenciar.
— Remarque para amanhã — rosnei.
A caneta de Evelyn pairou no ar.
— Alguma... especificação?
— Isso importa? — A mentira azedou na minha língua. Antes, nunca tinha azedado.
Evelyn assentiu e se virou para sair. A porta se fechou com um clique, deixando-me sozinho com meus pensamentos.
Apertei os olhos, mas a imagem persistiu — o sorriso radiante de Noah enquanto Isabella o tratava como um menino comum. Não como um herdeiro. Não como uma moeda de troca. Apenas uma criança digna de ser amada por si mesma.
Meus molares rangeram com força suficiente para soltar faíscas.
Sentimentalismo era para homens que não tinham aprendido. Eu tinha levado os votos de casamento a sério — até minha ex-mulher provar que não valiam nada. A batida na pista que estilhaçou meu fêmur tinha sido uma agonia, mas acordar sozinho naquele quarto de hospital estéril? Aquilo tinha sido aniquilação. Máquinas berrando alarmes enquanto enfermeiros lutavam para me estabilizar, e Amanda drenava metódica e friamente cada conta conjunta.
Quem se queima uma vez, não dá brecha de novo.
Contra meu bom senso, destravei o celular. As fotos da vigilância me provocavam — o riso de Isabella sob a luz do sol, os dedos cuidadosos limpando o rosto de Noah, o calor desafiador nos olhos cor de uísque quando ela me enfrentou de igual para igual naquela cobertura.
Joguei o aparelho na mesa com um rosnado.
Era exatamente por isso que eu precisava dos arranjos de amanhã. Para cauterizar essa fascinação inconveniente. Para provar — nem que fosse só para mim — que nenhuma mulher deixava marcas duradouras em mim. Que uma noite significava menos do que nada.
O interfone chiou.
— Senhor? O jovem Noah solicita permissão para ketchup com seus nuggets de frango.
Gelo se cristalizou ao longo da minha espinha, as velhas defesas se erguendo por instinto. Então —
— Sim. — A palavra soou estranha na minha boca. — E informe a ele que vou me juntar a ele para o jantar.
Noah era a exceção. O único que já tinha passado pela minha armadura.
Mais ninguém chegaria perto o bastante para importar.
Amor era vulnerabilidade.
E Matteo Moretti?
Eu não tinha nenhuma.
