Capítulo 7

Ponto de vista de Isabella

—Isso é ilegal! —minha voz ecoou pelo escritório estéril do RH, enquanto meus dedos amassavam a carta de demissão. —Vocês não podem demitir alguém sem justa causa!

Mas a justiça nunca foi aliada de órfãos brigando por migalhas num mundo em que dinheiro valia mais que moralidade.

O lábio do supervisor se repuxou num desprezo. —Poupe o fôlego, Isabella. O senhor Sanchez pediu pessoalmente a sua demissão. —O olhar dele me varreu como se eu fosse algo grudado na sola do sapato. —Francamente, todos nós nos perguntávamos quanto tempo você ia durar depois que ele parasse de mexer os pauzinhos pelo caso de caridade dele.

Então era o Damon.

Eu não sabia se gritava ou se soltava uma risada de deboche. O homem que eu um dia amei —aquele em quem eu acreditava ser honrado, cheio de princípios, bom— tão rápido em mostrar as garras no instante em que eu me recusei a rastejar de volta.

“Você vai rastejar de volta pra mim quando não tiver mais nada.”

Eu cerrei o maxilar. Nunca.

O estalo dos meus sapatos ecoou quando virei as costas para sair. A influência da família Sanchez podia pairar sobre mim como uma nuvem de tempestade, mas até as tempestades mais escuras passam. Eu daria um jeito de sobreviver.

Mas o destino sempre adorou zombar de quem tem esperança.

A luz azul do meu laptop pintava sombras fantasmagóricas sobre a mesa da cozinha enquanto e-mail de rejeição após e-mail de rejeição me encarava. Meu dedo pairava sobre “enviar” em mais uma candidatura —mais uma prece lançada ao vazio.

Ninguém quer contratar alguém cujo último empregador colocou na lista negra.

A porta do apartamento rangeu ao abrir, e o cantarolar alegre de Melinda cortou o silêncio sufocante. Ela chutou os saltos para longe, os cachos saltando enquanto se jogava no sofá ao meu lado. —Ainda nisso?

Soltei o ar, massageando as têmporas. —Ninguém morde a isca.

Ela inclinou a cabeça, me avaliando. —Você está com cara de que precisa de um drink.

—O que eu preciso é de um salário —murmurei, afundando na cadeira.

Melinda mordeu o lábio e então se inclinou para a frente. —Olha, eu sei que você não é exatamente do “tipo bartender”, mas a gente está sem gente no The Rusty Anchor. As gorjetas são decentes, e o chefe me deve um favor.

Hesitei. A ideia de servir bebida para estranhos barulhentos me dava arrepios, mas o desespero tinha um jeito de corroer o orgulho. —Eu vou ter que flertar com os clientes?

Ela sorriu de canto. —Só se você quiser gorjetas melhores.

Gemei, mas o fantasma de um sorriso puxou meus lábios. —Tá. Eu quero tentar.

Orgulho era um luxo que eu não podia me dar. Com a condição do Alan fazendo tic-tac como uma bomba-relógio no peito dele, cada segundo de hesitação era um roubo do futuro dele.

As luzes piscando ao redor da pista de dança quadrada, com a iluminação baixa, não ajudavam a esconder o meu desconforto enquanto eu puxava o tempo todo a barra da saia curta que eu estava usando. Uma tiara com orelhas de coelho e o rabinho preso à saia curta, junto do pedaço de tecido que mal cobria meus seios, eram um lembrete do quanto eu estava desesperada para ganhar dinheiro.

—Não fica com medo, Belly. Se alguém te tratar com grosseria, chama o segurança.

Forcei um aceno, agarrando a bandeja de bebidas como se fosse uma armadura. —Eu vou ficar bem.

A meia-calça arrastão coçava enquanto eu serpenteava pelas sombras pulsantes do clube, desviando de mãos apalpadoras na névoa de fumaça. Então uma voz familiar me parou. Fingi não ouvir e tentei sumir na multidão, mas ele já tinha prendido o meu pulso.

—Opa! Se não é a Isabella. Pernas bonitas, gata —Davis, um dos amigos do Damon, sorriu com malícia enquanto o olhar dele passeava pela minha pele exposta.

Senti o sangue subir ao rosto. Cerrei os punhos e respirei fundo. Se eu não quisesse perder esse emprego, era melhor não começar uma briga com eles.

—O senhor precisa de mais bebidas? —agarrei a bandeja, com a voz educada e distante.

Davis ergueu a sobrancelha, levantando a garrafa vazia de bebida. “Você tá mais intoxicante do que essa garrafa de destilado. Se importa de se juntar a nós, coelhinha? Tenho certeza de que o Damon não vai se importar nem um pouco.”

Prendi o ar e virei devagar para o homem no meio do sofá. Damon. Se fôssemos os mesmos de antes, ele teria quebrado os ossos do Davis só por olhar pra mim torto. Agora, ele apenas observava em silêncio enquanto os irmãos da fraternidade me transformavam na piada da noite.

Garota idiota. Como você ainda podia esperar alguma coisa dele depois de tudo?

“Eu sou só uma garçonete comum, senhor.” Forcei um sorriso para Davis e já estava pronta para chamar a segurança se ele continuasse me importunando.

Davis riu e tirou a carteira. Balançou as notas na minha frente. “E que tal três mil por cada garrafa? Parece justo?”

Eu conhecia esse jogo. O capacho do Damon não estava pagando por bebida — estava comprando a minha humilhação no atacado.

Eu devia ter jogado a bebida na cara nojenta dele, mas como aquilo não era uma chance de ganhar dinheiro?

“Desafio aceito.” Cerrei os dentes. Pelo Alan, eu disse a mim mesma.

A primeira tequila queimou como vergonha líquida. A segunda teve gosto de conta de hospital. Na quinta, o deboche de Davis já borrava nas bordas quando eu bati o copo vazio com força suficiente para rachar o porta-copo.

Então eu senti — aquela fisgada familiar entre as escápulas. O olhar de Damon, pesado como uma lâmina pressionada contra a pele nua.

Olha o quanto você quiser, desgraçado.

“Mais uma.” Eu sorri de lado para Davis, inclinando a cabeça enquanto avaliava a carteira dele, cada vez mais fina. “Qual é, esbanjador? Já tá acabando a mesada do papai?”

O rosto dele escureceu e, rosnando, puxou um maço de dinheiro e atirou pelo chão. As notas se espalharam como folhas caídas, e o bar inteiro ficou em silêncio, assistindo, esperando a minha reação.

Eles achavam mesmo que isso ia me quebrar? Ingênuos.

Devagar, deliberadamente, agachei e comecei a recolher cada uma, os dedos firmes apesar da tequila queimando nas minhas veias. Quando me endireitei, enfiei o bolo de notas com cuidado na barra da minha ridícula sainha de coelhinha e mostrei a Davis um sorriso afiado como navalha.

“Quando você quiser jogar dinheiro em mim, querido, eu vou estar aqui. Negócios são negócios, afinal.”

Virei para ir embora, de cabeça erguida — até que um aperto de ferro se fechou no meu pulso. Damon não disse uma palavra. Só me arrastou pela multidão, e o silêncio dele era mais assustador do que qualquer ameaça.

“Tira a mão de mim!” sibilei, me debatendo contra ele.

Ele me encarou com os olhos em brasa, quase queimando um buraco no meu corpo. “O que você tá fazendo, hein? Se prostituindo? Sério? Por três mil porra de reais?!”

Meu coração ardeu com força, mas eu ignorei. “E o que isso tem a ver com você?”

“Isabella!” ele rosnou, me empurrando contra o poste de luz. Os olhos dele ficaram ainda mais mortais. “Você podia ter diamantes. Só precisava voltar pra mim!”

O tapa estalou no beco como um disparo.

“Seu dinheiro é mais sujo do que qualquer coisa que eu tenha tocado esta noite”, cuspi. “Eu prefiro morrer a voltar com você!”

Os olhos dele escureceram de fúria — eu me preparei para a violência, mas pneus cantaram, e um carro esportivo surgiu de repente.

Fiquei cegada pelos faróis por alguns segundos, até que alguém saiu do banco do motorista.

A primeira coisa que vi foi o cabelo do motorista, levemente desalinhado, seguido por um par de braços definidos, expostos pelas mangas dobradas da polo preta, combinados com uma calça que parecia feita sob medida. A intromissão sem esforço só realçava a confiança dele, insinuando uma influência sem limites.

Minha respiração se enroscou diante daquela postura e daquele físico tão familiares.

É ele! Meu coração traidor disparou num tambor frenético no instante em que ele ergueu o rosto, e os olhos azul-gelo encontraram os meus.

Sr. Moretti. Como… como ele me encontrou?

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