Capítulo 7

A cliente não pareceu se incomodar com a ausência prolongada dela. A reunião tinha corrido bem e, quando saíram do restaurante, já eram nove da noite. A brisa na calçada bagunçava os cabelos longos de Katniss e ajudava a dissipar a névoa de embriaguez da mente dela.

— Chefe, vou providenciar um carro pra te levar pra casa — disse Flora, com a cabeça baixa sobre o celular enquanto mandava mensagem pro motorista.

Sem querer que Flora descobrisse que ela tinha saído da casa onde morava com o marido, Katniss respondeu depressa:

— Não precisa. Eu pego um táxi.

— O quê?

Antes que Flora pudesse reagir, Katniss já tinha chamado um táxi na calçada e entrado.

Depois de informar o destino, Katniss rolou as mensagens no celular sem prestar muita atenção, mas a mente dela insistia em repetir a cena de Cedric indo embora depois de atender aquela ligação.

Inquieta, ela notou por acaso o grupo das amigas, há tempos abandonado, em que elas organizavam uma saída pra uma boate. Sem hesitar um segundo, pediu ao motorista que mudasse o trajeto.

— Moço, pode me levar pro Sapphire Lounge, por favor?

Quando encontrou a mesa pelo local compartilhado no grupo, as amigas, que costumavam ser tão faladeiras, ficaram em silêncio por um instante ao vê-la.

— Eu tô vendo certo? Katniss?

— O inferno congelou? Você numa boate?

O choque era compreensível. Depois do casamento, Katniss nunca mais tinha pisado em lugares assim. A vida particular dela era tão impecável quanto a de uma nobre solteira de outros tempos.

Apesar da ausência longa, as amigas a acolheram como sempre, puxando-a para o sofá enquanto colocavam as novidades em dia.

— Ouvi dizer que a primeira paixão do Cedric, a Lillian, voltou pra cidade?

— Ela tá te enchendo?

— Eu sempre disse: casamento por conveniência entre famílias poderosas nunca tem amor de verdade.

Elas falavam sem parar; ao longo dos anos, tinham visto Katniss lidar com mulheres demais dando em cima de Cedric. Muita gente invejava Cedric por ter conseguido uma esposa tão dedicada.

Percebendo que a expressão de Katniss escurecia, elas trocaram olhares e mudaram de assunto com cuidado.

Como diz o ditado, afogar as mágoas na bebida… e, a cada copo que Katniss virava, a dor no peito ficava mais anestesiada.

— Katniss, vai com calma — alertou a amiga mais próxima dela, Sable Barnes, irritada, mas preocupada com aquele comportamento autodestrutivo. — Seja lá o que estiver acontecendo, você ainda tem a gente.

Sable tinha acreditado, no começo, que os boatos sobre problemas no casamento eram mentira, mas ver Katniss daquele jeito a fez repensar.

Depois de anos mantendo uma casca dura para esconder o que sentia, aquela simples garantia atravessou as defesas de Katniss.

Uma lágrima escapou do canto do olho dela. De repente, ela se arrependeu de ter entregado o coração e a alma a Cedric por cinco anos, enquanto negligenciava as amigas que realmente se importavam.

Naquele momento, o ressentimento e a culpa que ela jogava em cima de Cedric foram engolidos por uma decepção avassaladora, apagando o último fio de luz no coração dela.

Enquanto isso, do outro lado da cidade…

Ao terminar o trabalho, Cedric voltou para casa e encontrou o salão principal mergulhado na escuridão, um contraste gritante com a luz acolhedora que normalmente o esperava, não importava o quanto ele chegasse tarde.

— Katniss.

Cedric acendeu as luzes, achando que ela ainda estava emburrada, e foi direto para o quarto.

— Katniss, para com isso. Eu tô exausto.

No dia em que ela tinha fugido impulsivamente da York Villa, Vaughn tinha enfeitado a história ao contar para Cody, e, como resultado, Cedric foi obrigado a ficar de joelhos no escritório a noite inteira como castigo. Os comentários maldosos que ainda corriam por aí tinham deixado o trabalho de hoje particularmente difícil.

Cedric esfregou a ponte do nariz, mas, enquanto suas palavras ficavam no ar, ele percebeu com nitidez o vazio do quarto.

Katniss não só não estava lá, como também tinham sumido as maquiagens da penteadeira e aquelas bugigangas infantis de que ela gostava, que ficavam sobre a mesa de centro.

Com o cenho profundamente franzido, Cedric deu passos largos até o closet. Como ele já esperava, a maior parte das roupas dela tinha desaparecido.

Ela tinha ido embora?

Cedric ficou parado, imóvel, enquanto a luz do teto projetava sombras sobre sua expressão sombria. Depois de um longo instante, uma risada fria quebrou o silêncio.

“Chega de beber. Já está ficando tarde, deixa eu te levar pra casa.”

Quando a turma no clube começou a dispersar, Katniss estava visivelmente bêbada, mas insistia que dava conta sozinha. Ela se pôs de pé cambaleando, tentando mostrar para a preocupada Sable que conseguia andar em linha reta.

“Olha só... três, dois, um...”

Katniss mal tinha dado dois passos quando balançou perigosamente, para o desespero dos amigos.

“Eu te falei pra não beber tanto! Você nunca escuta!”

“Cuidado! Não se machuca!”

Sable e Brielle Bell, que estavam mais perto, correram para a frente em pânico, mas um par de mãos fortes e elegantes segurou Katniss e a firmou antes que elas chegassem.

“Srta. Astor, cuidado.”

A voz do homem era grave e aveludada, como um vinho europeu antigo, envelhecido em adegas.

Um aroma fresco e sofisticado a envolveu. Desconfortável com o toque de um estranho, Katniss o empurrou para longe, mal conseguindo se manter em pé ao se apoiar no sofá.

Ela inclinou a cabeça para encará-lo, os olhos límpidos brilhando na luz baixa do clube como os de um cervo no meio da mata — puros e inocentes.

“Você é o Julian Boleyn.”

Katniss o reconheceu como um dos poucos amigos de Cedric; ela o tinha visto algumas vezes nas festas que eles costumavam dar.

O que fazia ele se destacar na memória dela era o quanto era diferente dos típicos playboys que andavam com Cedric. Ela já tinha ouvido esposas ricas e debutantes comentarem, lamentando que o jeito distante dele desperdiçava a beleza que tinha.

Algumas até especulavam que ele podia ser gay.

“Sim, sou eu. Que surpresa te encontrar aqui.”

Os lábios de Julian se curvaram num sorriso, com divertimento nos olhos.

“Pelo visto vocês já estão encerrando. Deixa eu te levar pra casa.”

Todo mundo na mesa tinha bebido. Katniss, de início, não quis incomodar e tentou abrir o aplicativo de carro por app, mas, depois de falhar três vezes, ela ergueu o olhar com uma expressão aflita e aceitou. “Obrigada, eu agradeço.”

Os passos dela estavam instáveis e, para evitar outra queda, Julian segurou o braço dela, mantendo uma distância respeitosa, apropriada.

“Espera aqui um instante enquanto eu trago o carro.”

Já passava de uma da manhã, e a brisa da noite vinha gelada. A diferença de temperatura em relação ao lado de dentro fez Katniss estremecer sem querer.

Julian tirou o paletó e colocou sobre os ombros dela. Antecipando a recusa, acrescentou: “Se você pegar um resfriado, o Cedric vai me culpar por não ter cuidado direito de você.”

Cedric? Como se ele fosse se importar.

Katniss, sonolenta, se encostou na lateral da porta do clube e fez bico, contrariada.

Essa Katniss embriagada parecia mais humana — e mais adorável — do que a mulher meticulosa e ponderada que Julian conhecia.

Ele não conseguiu evitar um riso baixo. Justo quando ia se virar para buscar o carro, uma voz masculina, fria como gelo, cortou a noite.

“O que, exatamente, você acha que está fazendo?”

Katniss inclinou a cabeça. Cedric estava a pouca distância, o poste de luz iluminando seu semblante gelado enquanto ele encarava os dois com frieza.

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