Capítulo 3 Beast Bond Academy

Ponto de vista de Aeloria

Na manhã em que parti para a Academia de Vínculo das Feras, o mar estava mais calmo do que de costume, como se soubesse que eu precisava de coragem.

Fiquei na beira das cavernas com a bolsa a tiracolo, olhando para o único lar que conhecia desde que meus pais me expulsaram. A maré sussurrava um adeus, e as ondas lambiam minhas botas.

Kaelthys encostou a cabeça no meu quadril. O corpo dele já tinha se alongado o bastante para que carregá-lo nos braços não fosse mais uma opção. Ele ainda era considerado um filhote, se por filhote você entendesse uma criatura do tamanho de um pônei, com barbatanas translúcidas e olhos estrelados capazes de parar um coração.

— Está pronto para isso? — perguntei.

"Você está pronta", a voz dele ressoou na minha mente. "Hoje eles vão ver você."

— Eles vão me ver — murmurei, apertando a alça da bolsa. — A questão é: será que vão me deixar viver tempo suficiente para eu me arrepender disso?

Kael bufou, lançando uma névoa de água do mar no meu rosto. Limpei com a manga e dei um empurrão nele.

— Tá, tá. Não fica se achando.

Na cidade, aluguei um cavalo e uma carroça de um fazendeiro que apertou os olhos por tempo demais para Kael antes de pegar minhas moedas. A égua era uma castanha robusta, com uma expressão paciente. Dei um tapinha no flanco dela e decidi na mesma hora que ela tinha cara de Gertie.

— Não se preocupe, Gertie. Você vai gostar de mim — falei enquanto ajustava a sela.

Ela virou as orelhas para trás, como se estivesse desconfiada, mas não deu coice, o que considerei uma vitória.

Kael deslizou para dentro da carroça, enroscando-se como um gato grande demais para a própria cesta. A madeira rangeu sob o peso dele.

— Tente não quebrá-la — avisei.

"Você duvida de mim."

— Eu conheço você há dois anos, Kael. Duvidar já vem naturalmente.

Ele soltou uma risada retumbante na minha mente, curvando a cauda como um ponto de interrogação.

Montei em Gertie e tirei minha bússola. Um brilho azul-claro cintilou sobre o vidro quando sussurrei o feitiço de orientação, e a agulha girou para o norte, em direção à AVF (Academia de Vínculo das Feras). Cinco horas a cavalo com um filhote de Leviatã meio crescido a tiracolo. Mamão com açúcar.

A estrada primeiro seguia para o interior, serpenteando entre colinas e trechos de floresta. Cada curva da trilha fazia meu estômago se apertar mais.

Outras carroças nos ultrapassavam, famílias escoltando seus herdeiros reluzentes, com estandartes de casas nobres estalando ao vento. Percebi os olhares. Uma garota pobre com óculos rachados, uma bolsa remendada e uma fera que ninguém sabia nomear. Os sussurros queimavam nas minhas costas.

Kael se mexeu na carroça, e as escamas dele rasparam na madeira.

"Eles temem o que não conhecem."

— É, bom, não são eles que vão ser expulsos se eu fracassar — murmurei.

"Você não vai fracassar." Ele resmungou com arrogância.

— Confiante, não é?

"Você é minha. Isso basta."

Ao meio-dia, as árvores se abriram, e a estrada fez uma curva em direção a uma cadeia de montanhas que recortava o horizonte em dentes irregulares. Aos pés dela se erguia a Academia de Vínculo das Feras.

Minha garganta secou.

Os portões, por si só, eram maiores do que qualquer coisa que eu já tinha visto. Havia duas torres arqueadas, esculpidas em obsidiana e prata, gravadas com runas brilhantes. Entre elas pendia um véu cintilante de magia azul; era tão alto quanto os próprios penhascos e zumbia de poder. O ar crepitava conforme nos aproximávamos, fazendo os pelos dos meus braços se arrepiarem.

— Deuses — sussurrei. — Isso está mesmo acontecendo.

Os olhos de Kael faiscaram com luz de estrelas. — Está começando.

Puxei Gertie até parar sob o arco. Minha pele formigou de alerta, e a magia se abateu sobre mim, vasculhando, testando.

Kael soltou um sibilar baixo, as nadadeiras se erguendo.

— Você sente também? — perguntei em voz baixa.

Ele rosnou no fundo da garganta. — Magia antiga. Magia perigosa.

Desci de Gertie e a amarrei numa árvore próxima. Ela sacudiu as orelhas, mas ficou calma — abençoada seja. Meu coração martelava enquanto Kael se desenrolava da carroça. No instante em que as garras dele tocaram o chão, as runas nos portões explodiram num brilho intenso.

Um burburinho correu pela multidão reunida de estudantes e famílias. Uma fera como ele não tinha nome. Não tinha lugar.

Endireitei os ombros. — Ignore eles, Kael. A gente já sobreviveu a coisa pior.

Antes que pudéssemos dar um passo, uma voz trovejou pelo pátio. — Atenção, estudantes! Por decreto do Acordo Primordial, todos que buscam entrada na Academia do Vínculo com Feras devem provar seu valor na Provação dos Vinculados. Passem, e poderão entrar. Falhem, e serão rejeitados... se sequer sobreviverem.

Minha boca ficou seca.

— Provação? — sussurrei. — Ninguém falou nada sobre uma provação.

Kael mostrou os dentes num arremedo de sorriso. — Até que enfim. Eu estava tão entediado.

Olhei para ele, o estômago apertado num nó de medo e empolgação.

— É — eu disse, puxando ar fundo quando a magia do portão brilhou mais forte, chamando a gente para dentro. — Até que enfim.

O chão tremeu quando os portões se abriram. Apertei os olhos, protegendo-os, enquanto um rolo de pergaminho luminoso se desenrolava contra o muro de pedra. Palavras se gravaram sozinhas, entalhadas por uma magia invisível.

Provação dos Vinculados

Fase Um: Teste de Vínculo

Fase Dois: Medo

Fase Três: Fera Final

Apenas aqueles que completarem as três etapas serão admitidos na Academia do Vínculo com Feras.

Engoli em seco. — Bom, isso parece uma maravilha.

Kaelthys se aproximou mais, as nadadeiras tremendo com uma energia mal contida. — É como deve ser. Os fracos precisam cair pelo caminho. Os fortes resistem.

— É, fácil falar — murmurei. — Você não foi criado com a promessa de que essa academia era o único jeito de se agarrar a alguma coisa e sair do nada.

Os olhos de Kael brilhavam como galáxias, e a voz dele deslizou pela minha mente como uma maré. — Você não é nada. Você é minha.

Aquilo devia ter me confortado. Em vez disso, meu pulso disparou quando o arco estremeceu, puxando as bordas do meu corpo com uma corrente invisível. O ar ao nosso redor rodopiou e, de repente, eu já não estava mais sobre a pedra.

O mundo se revirou do avesso.

Caí com força num chão áspero. Kael despencou ao meu lado e suas nadadeiras se abriram, largas, para me proteger. Ao nosso redor se estendia um ermo cinzento; o céu sangrava tons de vermelho e violeta, e o ar estava denso com um cheiro metálico, acobreado, de medo.

Os estudantes apareciam em lampejos, cada um com sua fera cambaleando e tomando forma ao lado. Algumas crianças já choravam convulsivamente; outras erguiam os ombros, com um ar determinado.

No centro do campo, uma porta de pedra surgiu do nada. Era gigantesca e ameaçadora, com três sigilos brilhando em sua face.

Um nó, uma espiral e um olho de fera.

— Deve ser isso — sussurrei. — Teste do Vínculo, medo, chefe final.

Kael soltou um ronco baixo, e a cauda se enroscou em volta de mim. “Nós não vamos vacilar.”

Cheguei mais perto da porta. Meus joelhos pareciam fracos, mas minha voz saiu firme.

— Então, a primeira fase é testar nosso vínculo. O que é uma idiotice. Eu e você? A gente é sólido.

“Então vamos mostrar a eles”, rosnou Kael, orgulhoso.

As runas se acenderam com força, a porta rangeu e se abriu, e uma lufada de ar gelado se derramou de dentro. Cheirava a água velha. Aff.

Ergui a mão, pressionei a palma nas escamas quentes de Kael e sussurrei:

— Então tá… hora do show.

Juntos, entramos na escuridão. A entrada bateu com força atrás de nós, e o mundo ficou preto.

Água fria avançou ao redor dos meus tornozelos, subindo mais a cada batida do meu coração. Meu peito se apertou.

— Kael?

“Estou aqui.” A voz dele ondulou na minha mente. As escamas roçaram minha lateral, quentes e sólidas contra o frio que crescia.

A escuridão mudou. Um tremor de luz se espalhou pelo vazio, pintando o mundo como uma caverna imensa feita de espelhos. Reflexos infinitos de mim. Reflexos infinitos dele.

Cada espelho mostrava algo diferente. Em um, Kael nadava para longe, a cauda chicoteando, me deixando para trás enquanto eu gritava por ele. Em outro, os olhos dele estavam vazios, e sua voz, muda. No mais cruel, ele afundava sob as ondas, o corpo sem vida, enquanto eu socava o vidro.

O Teste do Vínculo.

— Ótimo — resmunguei, abraçando a mim mesma. — Era exatamente do que eu precisava: pesadelos em alta definição.

O primeiro espelho estremeceu, trincando de ponta a ponta. Meu reflexo se contorceu, e a boca se curvou num sorriso de desprezo.

— Você acha que é especial — sussurrou a “não eu”. A voz dela rastejou pela caverna, ecoando alto demais.

— Mas você é vazia. Você nasceu um nada. Kael não te ama. Ele tem pena de você.

Kael rosnou, uma vibração baixa que reverberou contra as minhas pernas. “Não escute. São sombras, não a verdade.”

— É… bom, tenta convencer meu cérebro disso.

O reflexo falso avançou, atravessando o vidro com um estrondo. Estilhaços se espalharam como facas, cortando meus braços enquanto ela se chocava contra mim. O meu próprio rosto rosnava sobre o meu, com os olhos cheios de ódio.

Kael atacou. Suas mandíbulas se fecharam no ombro dela, arrancando-a de cima de mim com um rugido que sacudiu a caverna. Ela se debateu e então se dissolveu em água negra.

Eu me empurrei para cima, e o sangue escorreu pelo meu antebraço.

— Ok. Isso foi desagradável.

"Eles vão tentar de novo." Kael se enroscou em mim, e suas nadadeiras se abriram num gesto protetor. "Eles querem nos separar."

O espelho seguinte se acendeu. Este mostrava Kael, com seus olhos estrelados brilhando. Mas, no reflexo, ele abriu as mandíbulas e avançou, direto em mim. Eu me encolhi para trás, embora ele estivesse ao meu lado.

Meu estômago despencou. O reflexo se arremessou contra o vidro, de novo e de novo, até a barreira se estilhaçar. Uma versão distorcida de Kael irrompeu para fora, exibindo seus dentes enormes.

Eu cambaleei, tateando, tentando puxar minha magia. A água subiu com força ao redor das minhas mãos, formando um chicote. “Você não é ele”, rosnei. “Você não tem o direito de usar o rosto dele.”

O Kael de sombra avançou, e o Kael de verdade disparou para enfrentá-lo. Seus corpos colidiram, água e sombra explodindo para todos os lados. A caverna tremeu com o impacto.

"Confie em mim", a voz de Kael ribombou dentro do meu crânio. "Junte-se a mim."

Eu cerrei a mandíbula, empurrei o medo para o fundo e estendi as mãos. A água explodiu das minhas palmas, se enrolando na garganta da sombra. Juntos, Kael e eu a arrastamos para baixo. As mandíbulas dele a esmagaram, minha magia a afogou, e a coisa se desfez em fumaça.

A caverna pulsou. Os espelhos estremeceram. Um a um, se estilhaçaram em cacos que caíam.

E então... silêncio. Só restou um espelho.

Ele se erguia no centro da caverna, maior que os outros. Meu reflexo me encarava de volta. Este não estava distorcido. Não estava zombando. Era só... eu. Pálida, os óculos borrados, meu cabelo azul curto úmido do spray.

Exceto que os braços dela estavam vazios. Kael não estava lá.

“Não”, sussurrei, dando um passo mais perto. Meu pulso martelava nos ouvidos.

A eu do espelho inclinou a cabeça. “O que você vai ser quando ele se for?”, perguntou baixinho. “Quando a única coisa que te torna especial for embora?”

“Eu...” Minha voz falhou. “Eu ainda vou ser eu.”

“Vai?” Os olhos dela suavizaram. “Você foi Vazia a vida inteira. Sem ele, você vai voltar a ser nada.”

Aquilo não era raiva. Aquilo era verdade — ou o que eu temia que fosse verdade.

Kael encostou a cabeça no meu quadril. "Você nunca foi nada. Mesmo sem mim, você é tempestade e centelha. Comigo, você é infinita."

As lágrimas embaçaram meus óculos. Ergui o queixo e encarei meu reflexo. “Eu não sou Vazia. Não era antes, não sou agora, e nunca mais vou ser.”

O espelho se estilhaçou.

A luz explodiu, ofuscante e brilhante, até que queimou toda a escuridão.

Quando minha visão clareou, Kael e eu estávamos de novo sobre pedra sólida, e a caverna havia sumido. Um novo arco se erguia à frente.

Acima dele, palavras brilhavam: Fase Dois: Medo.

Soltei o ar, trêmula. “Bom. Isso foi divertido.”

O riso de Kael pulsou na minha cabeça. "Se isso foi divertido, então você não está preparada para o que vem a seguir."

“É, valeu pela injeção de ânimo.”

Ajustei os óculos, endireitei os ombros e caminhei em direção à porta.

Meu estômago se revirou.

O que quer que estivesse esperando lá dentro com certeza não ia ser outro parque de diversões de espelhos.

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