Capítulo 5 O Acordo Primal e suas besteiras

Ponto de vista de Aeloria

O brilho dos pilares se contorceu, como se a arena o tivesse ouvido. Novas linhas faiscaram pela pedra... palavras num script que eu não conhecia — e então conheci, porque o vínculo soprou significado sobre a minha língua.

CANDIDATA AELORIA TIDEBORN: FASE CONCLUÍDA.

CANDIDATO KAELTHYS: ANOMALIA IDENTIFICADA.

Revisão obrigatória.

— Anomalia? — rosnei, e então me encolhi, porque minha bochecha gritou com o movimento. — Ele tem um nome.

— E vai ser a última coisa que eles vão admitir — disse Kael, com a voz suave e perigosa.

O ar rarefez. O teto da arena se escancarou, e a luz começou a jorrar para dentro. Senti a magia da prova nos puxando de novo, como a sucção gentil de uma maré que queria nos expulsar. Uma parte de mim queria lutar contra isso, arranhar as paredes e exigir respostas de algum sacerdote presunçoso que estivesse assistindo através das runas.

O resto de mim queria sentar e chorar nas minhas mãos ensanguentadas.

Não fiz nenhuma das duas coisas. Limpei o rosto com as costas da manga, deixando um rastro vermelho. Endireitei os ombros. Olhei para as feras se dissolvendo e depois para as palavras suspensas acima de nós como uma sentença.

— Revisem isso — eu disse ao ar vazio, e mostrei o dedo do meio para o pilar mais próximo.

A risada de Kael rolou dentro do meu crânio como uma corrente morna. — A maldade fica bem em você.

— Maldade me manteve viva. — Dei um passo e meu joelho cedeu. Kael se colocou sob a minha mão para que eu me apoiasse nele. O orgulho brigou com a dor. O orgulho perdeu.

— Certo — soltei, ofegante. — A gente conseguiu. A gente passou. Eles que engasguem com isso.

As runas pulsaram mais uma vez e então o mundo deu um tranco. A arena sumiu, e o céu machucado foi junto. Um ar frio lavou meu rosto e o rugido de uma multidão explodiu nos meus ouvidos. Era real, não uma ilusão. Cambaleamos para fora, sob o arco de obsidiana do portão.

Barulho. Corpos. Estudantes passando em duplas e trios, alguns sangrando, outros pálidos de choque. Um punhado era carregado. Dois estavam cobertos em macas.

Meu estômago afundou.

Sussurros me atingiram como dardos. — É ela.

— A garota da água.

— Que criatura é essa?

— Você viu a água? Inundou a arena.

Eu os ignorei. Kael não. Ele se ergueu, só um pouco, do jeito que a maré sobe quando a lua a chama, e a temperatura ao nosso redor caiu um grau.

— Ei. — Segurei o maxilar dele com a palma da mão, sentindo o tremor no músculo. — Ainda não coma ninguém.

Ele relaxou, mas por pouco. Eles tentaram nos quebrar. O pensamento não era bem palavras; era mais uma corrente escura. Eu não vou esquecer. Eu não vou perdoar.

— Vamos só passar por isso.

Minha bochecha latejava. Meu olho estava inchando até fechar. Os médicos de plantão corriam de aluno em aluno, e as feras deles canalizavam filetes de magia de cura.

Ninguém veio até nós. Claro que não.

Tudo bem.

Eu suguei a fina camada de umidade das lajes e a pressionei contra a pele com dois dedos, resfriando a ardência e amortecendo a borda da dor. Não era uma cura de verdade, mas tirava a ferroada o bastante para eu conseguir respirar de novo.

Acima do portão, o Monólito de Cristal fazia uma cascata de nomes escorrer pela sua face, e patentes surgiam em lampejos conforme cada candidato passava pelas provas. Insígnias se acendiam nos uniformes, faiscando ferro, bronze, prata. Algumas de ouro. Duas de platina.

Nenhum diamante ainda.

Meu nome não aparecia.

Meu estômago fez de novo aquela coisa de o chão sumir. “Por que a gente não...”

Uma sombra caiu sobre mim. Não do sol. De capas.

Três figuras com máscaras de osso branco e vestes cinzentas do Acordo avançaram, saindo da passagem lateral.

Guardiões do Vínculo. Um segurava uma prancheta de pedra com meu nome gravado. Outro carregava uma bandeja forrada de veludo com uma insígnia cristalina que pulsava como um céu de estrelas vivo, com profundezas azul-escuras e salpicada de pontos de luz.

Mítica.

O terceiro usava luvas finas e não carregava nada. Apenas ficou ali, irradiando aquele tipo de frio silencioso que faz a maré recuar.

“Candidata Aeloria Tideborn”, entoou o do meio. “E anomalia vinculada Kaelthys. Vocês virão conosco.”

Kael se enroscou, um rosnado baixo ribombando tão fundo que fez as lajes vibrarem. Toda fera ao alcance dos ouvidos olhou na nossa direção.

Eu senti medo. Senti fúria. Também senti a centelha idiota e teimosa que tinha me carregado por todos os dias horríveis da minha vida.

“Claro”, eu disse, animada, com o sangue secando na minha bochecha. “Pelo menos eu ganho um curativo antes, ou sangrar no sapato de vocês faz parte do ritual de trote?”

Ninguém riu. Claro.

O Guardião do Vínculo com a bandeja pigarreou.

“A sua… insígnia.”

Ele me estendeu a galáxia. Ela cintilava ao sol como um estilhaço de noite.

Por um batimento mesquinho, eu considerei recusá-la. Então peguei a insígnia e prendi sobre o meu coração, bem onde todo mundo pudesse ver. Ela pulsou contra a minha pele e era tão fria quanto água profunda.

Ao nosso redor, os sussurros cresceram até virar um rugido.

Mítica.

Kael roçou a mente dele na minha, firme e feroz. “Ficamos perto. Observamos. Guardamos nomes.”

“Sim”, murmurei, com os olhos nas máscaras. “E depois afogamos todos eles.”

Os Guardiões do Vínculo se viraram como um só e nos conduziram pela passagem sombreada. Kael deslizou ao meu lado como uma tempestade prateada. Atrás de nós, o Monólito continuava subindo. Meu nome ainda não aparecia. Mas a insígnia sobre o meu coração ardia como uma constelação que se recusava a ser apagada.

O escritório dos Guardiões do Vínculo cheirava a pergaminho velho e a alguma coisa azeda... meio que como medo virado do avesso.

Prateleiras de livros-caixa brancos forravam as paredes. Uma janela redonda emoldurava o campo de treinamento como um alvo. Três sacerdotes mascarados deslizaram até seus lugares atrás de uma mesa baixa de obsidiana, e suas vestes sussurraram como murmúrios macios.

Kael se aproximou o bastante para que meu quadril encostasse na mandíbula dele. As escamas eram frias sob a minha palma, e a mente dele pulsava num zumbido baixo e perigoso.

“Fique pronta”, ele enviou. “Ataque só se for necessário.”

“Candidata Aeloria Tideborn”, disse o sacerdote mais alto, a voz lixada e macia por uma vida inteira de ordens.

—E anomalia vinculada Kaelthys. —A palavra anomalia caiu como uma pedra. —Revisamos o seu teste.

—Revisaram, é? —eu disse, alegre como uma faca sem corte.

O sacerdote à esquerda deslizou uma placa de ardósia pela mesa. Linhas de escrita rastejavam sobre ela: meu nome, as fases, a observação que fez meus dentes rangerem:

Fase Três: Irregularidades. Entidade adicional se manifestou. Em seguida: admissão provisoriamente negada, pendente de revisão superior.

Fiquei encarando. —Vocês estão brincando.

—A Academia de Vínculo Bestial não faz brincadeiras —disse o mais alto. —Sua presença constitui um risco à integridade dos testes e à segurança do campus. O Motor da Divindade sinalizou seu vínculo como...

—Diga anomalia de novo —eu disse —e vou sangrar no seu tapete só de pirraça.

Eles não riram. A cauda de Kael bateu uma vez contra as lajes de pedra como um batimento cardíaco.

O sacerdote à direita cruzou as mãos enluvadas. —Você não pode frequentar a academia neste momento. Será escoltada para fora do campus. Sua besta será contida para estudo.

Minha visão se afunilou. —Vamos tentar isso de novo —eu disse. —Mais devagar. E com menos crimes.

—Conter é o procedimento padrão para vínculos não classificados.

—Contenha isso aqui —eu disse, num tom doce.

Kael rosnou baixo. A janela estremeceu. Uma rachadura fina se costurou pela lombada de um livro-caixa.

O sacerdote alto inclinou a cabeça. —Você está confundindo isto com uma negociação. Não está. Como Guardiões de Vínculo do Acordo Primordial, nós...

Uma batida estrondosa sacudiu a porta nas dobradiças.

Não uma batida. Um baque, como se algo grande e muito seguro de si tivesse decidido que a madeira era mera sugestão.

Ninguém respondeu rápido o bastante para quem quer que estivesse do lado de fora. A porta explodiu para dentro. Estrondos altos ricochetearam entre livros e ossos. A luz do sol inundou a sala como uma bênção e um desafio.

Ela atravessou aquilo como se fosse dona do mundo.

Era alta e bonita de um jeito que não pedia desculpas. Tinha pele castanho-dourada, cabelos escuros caindo em espiral sobre um ombro, e a boca pintada da cor de vinho derramado.

Anéis de ouro subiam pelas duas orelhas pontudas, captando a luz. O vestido era, em igual medida, campo de batalha e salão de baile. O veludo preto se abria para permitir movimento, e o corpete de latão parecia suspeitamente uma armadura. Ao lado dela andava uma leoa enorme, cuja pelagem ardia como o sol. Tinha pelo dourado, mais espesso nos ombros, e olhos da cor de fogo com mel.

Os Guardiões de Vínculo ficaram imóveis.

—Queridos —bradou a mulher, com uma voz como um sino que gostava de ser alto —vocês estão atrasados com o chá. E com a verdade. —Ela sorriu, só dentes brancos e encrenca. A leoa caminhou até seu lado esquerdo e se sentou, um trono de músculos e calma.

Pisquei. —Hã.

Ela olhou para mim como um falcão encontrando seu nascer do sol.

—Aí está você. —O sorriso se tornou feroz e pessoal. —Sobrinha.

Minha língua tropeçou em si mesma. —Eu... o quê?

As orelhas da leoa se moveram num espasmo. A mulher se voltou para os sacerdotes, todo o calor do rosto se fechando como um leque. Ela ronronou, como veludo e ferro.

— Você estava dizendo?

O silêncio não durou muito... ela não deixou.

— Que uma fêmea vinculada de nível Mítico, nobre de nascimento, do meu sangue e da minha Casa... — ela ergueu uma mão, e sigilos dourados irromperam em sua palma — ...não terá permissão para frequentar a Academia de Vínculo Bestial?

Ela fez das palavras uma arma.

O Bondwarden alto foi o primeiro a se recompor.

— Lady...

— Naralia — ela disse. — Vamos, acompanhe. Lady Naralia Fangclaw.

Por um instante, ela expôs a garganta, deixando o sigilo dourado em sua clavícula arder — a cabeça estilizada de um predador, emoldurada por uma juba, com presas e coroada.

— Dominus do Segundo Orgulho. Eu presido três comitês que vocês fingem que não existem. E, como eu adoro eficiência, esta é Nymera.

A leoa piscou devagar e então mostrou dentes demais.

— Ela come gente que a entedia.

O sacerdote à direita puxou um ar que quase virou um suspiro.

— Fangclaw.

A palavra me atingiu como um tapa. Fangclaw. A Casa dos lobos e dos grandes felinos. A mesma que minha mãe costumava observar com algo parecido com fome nos olhos quando os estandartes passavam.

O olhar de Naralia voltou a mim, mais suave nas bordas.

— Aeloria Tideborn — disse ela, saboreando o nome. — Filha de Serenya Tideborn. Na verdade, filha de Serenya Fangclaw, antes de ela escolher outra jaula.

O canto de sua boca se inclinou, pesaroso, e então desapareceu.

— Você se parece com ela ao redor dos olhos. E com você mesma em todo o resto. Ótimo.

— Espera — eu disse. — Ninguém nunca me contou...

— Não. — Ela me lançou um olhar que, de algum modo, pedia desculpas. — Não contariam.

A mente de Kael pressionou quente contra a minha.

“Cada verdade tem um gosto diferente”, ele disse. “Esta tem gosto de sal e luz do sol.”

O sacerdote alto encontrou a coluna.

— Lady Naralia, a jurisdição do Acordo sobre as admissões é clara. O Motor da Divindade sinalizou o vínculo. A provação produziu uma entidade extra. Nós não podemos...

— Vocês não conseguem ler o próprio estatuto — Naralia disse, animada. — Deixe-me ajudar. Artigo Três, cláusula sete: herdeiros nobres das Grandes Casas possuem um direito inalienável ao treinamento na Academia, salvo traição comprovada ou reprovação na Provação. Ela passou. Ela sangrou por isso. Duas vezes, pelo cheiro desta sala. — Ela enrugou o nariz com delicadeza. — Vocês não vão barrar uma Fangclaw nestes salões.

O sacerdote à esquerda achou coragem atrás da máscara.

— O sangue Fangclaw precisa ser comprovado...

A risada de Naralia rolou como colinas no verão.

— Querido, eu sou a prova. Mas tragam seus vidrinhos, se isso faz vocês se sentirem importantes.

Ela avançou mais para dentro da sala sem sequer pedir permissão. A leoa a acompanhou, macia, silenciosa como sombra. O olho do Bondwarden mais à direita tremeu, um tique que fez meu pelo eriçar. O olhar dele não saía de Kael.

— Esta besta deve ser contida e... estudada.

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