Capítulo 6 FangClaw Smackdown

Ponto de vista de Aeloria

—A fera tem um nome —disparei.

—Kaelthys —disse Naralia, como se sempre tivesse sabido. Ela inclinou a cabeça para ele, para ele, não para mim, como uma rainha saudando um rei. —Bem-vindo.

Kael ergueu a cabeça e a encarou por um longo tempo. Então baixou o maxilar no menor dos gestos, uma cortesia e um aviso.

“Este aqui entende de dentes”, ele enviou.

—Lady Naralia —tentou de novo o sacerdote alto, mais suave agora, manobrando com aquela velha arma burocrática... adiar. —A preocupação do Acordo é a segurança. Uma candidata Mítica...

—...usa um distintivo Mítico —ela completou, lançando um olhar rápido para o meu peito.

O cristal-galáxia pulsou, e as constelações vagaram. A luz do cômodo parecia diferente quando o tocava; até as pupilas de Nymera se afinaram.

—Você escondeu o nome dela do Monólito. Tentou mandá-la embora. E então fabricou uma “revisão de anomalia” porque o seu teste se comportou mal diante de testemunhas.

O sorriso dela não era gentil.

—Não confunda covardia com segurança.

O sacerdote da esquerda se eriçou.

—Acusações...

—Fatos —ela cantou. —Vocês geraram uma segunda fera final na Fase Três. Isso não é padrão. Isso não é sancionado. Isso é assassinato embrulhado em administração.

Meu coração falhou uma batida.

—Você viu?

—Eu faço questão de ver —disse Naralia, ainda observando os Bondwardens como se estivéssemos tendo uma conversa paralela e educada.

—Mais importante: todo mundo viu. As arquibancadas estavam bem tagarelas. Vocês podem tampar o Monólito. Não podem arrolhar mil bocas.

O sacerdote mais à direita avançou meio passo na direção de uma gaveta. A cabeça de Nymera virou. Ela não se moveu além disso. De algum modo, era mais aterrorizante do que um rugido.

—Vai lá —Naralia convidou, sedosa. —Alcance de novo. Depois contamos seus dedos.

Ele ficou completamente imóvel.

O sacerdote alto trocou de máscara sem trocar de máscara.

—Mesmo que o sangue nobre seja certificado, a Academia mantém o direito de designar a colocação. Podemos restringir...

—Vocês podem fazer o seu trabalho —rosnou Naralia. —Que é educar. Vocês vão providenciar alojamentos, grandes o bastante para Kaelthys descansar sem quebrar essa sua gracinha de alvenaria. Vão designá-la ao anel de treinamento da Elite. Vão agendar a avaliação dela com o Motor da Divindade.

Os olhos dela lampejaram.

—E vocês não vão mexer nas calibrações.

—Nós calibramos tudo...

—Não vão mexer nelas. Porque eu vou saber. —Ela tocou a têmpora. —Tenho amigos dentro dos seus fios. Eles guincham. É adorável.

—Lady Naralia —disse baixinho, porque a sala tinha ficado afiada o bastante para cortar. —Por que... agora? Quer dizer, obrigada, mas por quê?

Ela me olhou então como se fôssemos as duas únicas almas no prédio.

—Porque alguém me contou que uma tempestade de cabelo azul saiu do mar e fez a água obedecer. Porque sua mãe e eu paramos de nos falar no dia em que ela escolheu um homem que media o valor pelo que o templo sussurrava de volta, e porque eu jurei que, se o mundo algum dia tentasse engolir a filha dela, eu morderia esse maldito mundo.

Aquilo caiu no meu peito como uma âncora e como um presente. Assenti, uma vez só. Eu consigo aceitar isso.

O sacerdote à esquerda se agarrou a uma nova palha. “Minha Lady, até mesmo uma Fangclaw deve respeitar a soberania do Acordo...”

As sobrancelhas de Naralia se arquearam. “Soberania é uma palavra esplêndida para homens de máscara.”

O sacerdote da direita tentou atacar por outro lado. “Se a Casa insistir em dar assento a esta Candidata, o Acordo exigirá supervisão. Avaliações diárias. Um limite para a manifestação da fera em espaços públicos. Escoltas.”

Nymera se levantou. A sala pareceu se lembrar, de repente, de que ela pesava mais do que algumas carruagens e já tinha matado mais coisas do que a peste. Ela avançou, macia, e pousou uma pata sobre a escrivaninha. Suas garras deslizaram para fora com um som como o de uma fechadura se abrindo sozinha.

“Escoltas?”, Naralia repetiu, tão suave quanto um veneno mata. “Querido, eu vou escoltá-la.”

A janela tremeu, como se concordasse. Ou talvez fosse Kael, que começara a vibrar como uma maré prestes a subir até a lua.

“Compromisso”, disse depressa o sacerdote alto, com as mãos erguidas, ao mesmo tempo apaziguador e calculista. “Avaliação neste fim de semana. Designação temporária de aposentos. Status provisório, pendente da… confirmação do Motor.”

Ele olhou para mim e para meu distintivo, como se quisesse, pela força do desejo, torná-lo opaco. “E um observador do Acordo nas aulas.”

“Pois bem”, disse Naralia, surpreendendo todo mundo, inclusive eu. “Vocês podem ter um observador. Deem a ele um assento e uma pena. Se ele tentar pegar qualquer outra coisa, Nymera vai arrancar as mãos dele.”

Os bigodes da leoa se eriçaram. O sacerdote da direita ficou meio esverdeado.

“E os aposentos?”, acrescentou Naralia.

“Ala Norte”, disse o sacerdote à esquerda, tenso. “Andar de elite. Acesso aos estábulos.”

“Para uma leoa”, disse Naralia com brandura e então, de propósito: “e um Leviatã.”

O silêncio pinicou a pele. O sacerdote alto inclinou-se levemente. “Para… Kaelthys.”

Naralia se virou de novo para mim, o sorriso voltando a encaixar no rosto como um nascer do sol. “Pronto. Bobagem administrativa concluída. Vamos, sobrinha. Vamos pegar gelo para esse rosto e depois te exibir direito, para as fofoqueiras fazerem seu exercício.”

Eu encarei Naralia por um bom tempo. “Você é mesmo minha tia.”

“Tragicamente, para todo homem sem graça nesta sala.”

Ela estendeu a mão. De perto, vi os calos — a palma de uma espadachim, não apenas a de uma lady. “Você vai me deixar ficar onde sua mãe não ficaria?”

Algo em mim, que estava tenso desde o nascimento, soltou o ar devagar. “Sim”, eu disse, e minha voz não tremeu.

Peguei a mão dela. O calor subiu pelo meu braço. A leoa bufou em aprovação. Kael roçou meu ombro com a mandíbula. O vínculo brilhou, firme como um farol.

“Esta morde do nosso lado”, ele enviou.

“Ótimo”, murmurei de volta. “Estamos colecionando dentes.”

Nós nos viramos para a porta. “Ah”, disse Naralia, despreocupada por cima do ombro, como se estivesse lembrando de uma lista de compras. “Mais uma coisa. Publiquem o Monólito.”

O sacerdote alto se encolheu. “Minha Lady...”

“Publiquem.” O veludo na voz dela sumiu, e as garras apareceram. “Vocês não vão apagar a minha sobrinha. Nem hoje. Nem nunca.”

A leoa tirou a pata de cima da escrivaninha. A madeira rangeu de alívio. Os Guardiões do Vínculo não voltaram a respirar até estarmos no corredor.

No salão de mármore, o barulho, o sol e o cheiro dos campos de treino me atravessaram como uma onda. Passamos por um grupinho de alunos que, abençoadamente, ficou em silêncio ao nos ver, os olhos saltando dos meus óculos rachados para meu distintivo de galáxia e para a leoa. Alguns fizeram sinais de proteção. Outros se endireitaram, como se tivessem sido flagrados curvados sob uma tempestade.

— Sobre o distintivo mítico — eu disse, porque fingir que não ouvia os sussurros parecia fraqueza. — Eles odeiam.

— Eles temem — Naralia corrigiu. — Medo é ótimo. Significa que eles já estão recuando.

— A minha mãe…?

— Na cidade. — A boca de Naralia se apertou, depois suavizou. — Ela vai saber ao anoitecer que a filha dela é a tempestade. E então, finalmente, vai ter de decidir se quer se molhar.

Soltei uma risada abafada que doeu na bochecha.

— Você é muito espalhafatosa.

— Sim — ela disse, encantada. — E você está bem viva. Vamos manter as duas coisas assim.

A mente de Kael pressionou a minha; ele estava satisfeito. “Eu gosto dela.”

— Eu também — admiti e, em algum lugar dentro da dor e da raiva, uma esperança pequena e imprudente ergueu a cabeça para olhar em volta.

Viramos na direção da Ala Norte. Atrás de nós, sinos tocaram, agudos e límpidos, enquanto o Monólito de Cristal se atualizava. Uma onda de suspiros percorreu o pátio. Eu nem precisava olhar para saber o que ele mostrava.

Meu nome. Minha fera. Meu nível.

Uma galáxia sobre o meu coração respondeu, brilhando com força, e as sombras da academia pareceram recuar um pouco, como se o prédio tivesse dado um passo para longe de mim.

— Bem-vinda à Academia Beast Bond, Aeloria Fangclaw Tideborn — disse Naralia, saboreando cada sílaba porque sabia que aquilo escandalizaria alguém.

— Vamos começar uma guerra do jeito certo... com papelada e lanches.

Nymera rosnou baixo. Kael riu.

Limpei o sangue do lábio, endireitei os ombros e caminhei como uma gostosa perigosa, direto para a vida que tentaram me negar.

Naralia seguiu o Guardião do Vínculo com o deslizar régio de quem nunca, em toda a vida, ouviu um não. Nymera avançava ao lado dela, macia e silenciosa. Kael vinha atrás de mim, cantarolando na minha cabeça, satisfeito e predatório.

Eu ainda estava revivendo o som dos sinos do Monólito atrás de nós quando alguma coisa... mudou.

Um puxão no fundo do meu ventre. Uma faísca correndo pela pele. E então... o cheiro mais intoxicante... doce e quente... e, meus deuses, chocolate.

Eu literalmente parei de andar, porque o cheiro me atingiu como um soco por dentro dos pulmões. Minha boca encheu d’água. O mundo balançou.

— Mas que porra é essa... — murmurei.

Kael ergueu a cabeça num estalo, e as nadadeiras dele se abriram.

— Eu reconheço esse cheiro. Par.

Meu estômago revirou com tanta força que quase vomitei.

— Não. Não, não, não. Nem começa.

Ele bufou.

— Tarde demais. O vínculo sabe.

Virei a tempo de ver a origem.

Calren Stormwing. Porra. O pesadelo da minha infância.

Alto, presunçoso, postura perfeita, cabelo loiro perfeito, aquela linha de mandíbula perfeita pra caralho. Era completamente injusto o quanto aquele homem era bonito. Aff. Nojento. E atrás dele? O falcão gigante dele, Zephyros, pousado como uma coroa de arrogância.

Mas o universo não estava satisfeito só com isso. Claro que não. Claro que ele tinha uma namorada pendurada no braço, com cara de que ia tombar a qualquer segundo sob o peso do próprio peito. Morena, lustrosa, de biquinho. Provavelmente burra feito uma porta. Exatamente o tipo de garota que costumava rir quando ele me empurrava nas poças.

Os olhos dele me encontraram. E se arregalaram. E se arregalaram. E se ARREGALARAM.

— Ah, puta que pariu — sussurrei. — Não. Absolutamente não.

Naralia parou à minha frente, com uma mão na cintura.

— O que foi?

Tudo. Tudo está errado.

O Bondwarden abriu a porta de uma escadaria como se nada apocalíptico estivesse acontecendo, mas eu congelei. Meu coração disparou com tanta violência que Kael bateu a cauda no chão em aviso.

Calren deu um passo na minha direção, e a morena cambaleou para acompanhar.

— Ei... eu não te conheço? — ele perguntou. A voz dele baixou, quase incerta.

Eu não respirei. Não pisquei. Só passei por ele a passos rápidos, como se ele fosse uma doença.

As sobrancelhas de Naralia subiram até a raiz do cabelo enquanto ela me seguia.

— Bem. Hmmm. Quem é aquele?

— Ninguém — eu disse alto demais. — Absolutamente ninguém que valha o oxigênio.

— Aeloria.

— Um inseto.

— Aeloria Tideborn — ela insistiu.

Soltei o ar por entre os dentes.

— Tá. Calren Stormwing. Um dos meus valentões de antigamente. Ele me aterrorizava quando a gente era criança.

Naralia parou de andar, parou de respirar e ficou exatamente da cor do assassinato.

— Ele fez o quê?

— Por favor, não — sibilei, agarrando a manga dela. — Pelo amor de tudo que é água do mar, por favor não se vira.

Os dedos dela se fecharam e abriram, como se ela estivesse decidindo qual osso dele gostaria de quebrar primeiro.

— Eu só quero falar com ele.

— Você quer cometer um crime de guerra.

A risadinha de Kael escorregou para dentro do meu crânio.

“Eu apoio a tia.”

— Cala a boca.

“Ela cheira a batalha. Eu aprovo.”

— Kael, NÃO.

Naralia enfim cedeu, embora mantivesse o maxilar rígido. Nymera resmungou baixinho, claramente ofendida por mim.

— Por que você não me contou antes? — Naralia perguntou, a voz suave, mas letal.

Porque o universo aparentemente se diverte me chutando. Porque o garoto que me enfiava nas fontes do templo e ria quando eu chorava agora cheirava a chocolate e destino.

— Ele é irrelevante — eu disse. — E eu não vou falar dele.

Kael, no entanto, não deu a mínima aquática para limites.

“Ele é o par dela”, anunciou, presunçoso.

Minha alma guinchou.

— Kaelthys, eu vou te afogar.

“Você não pode. Eu nado.”

Naralia piscou para mim.

— Par?

Fingi que não ouvi.

— Vamos. Quero ver os novos aposentos. De preferência uns sem trauma relacionado a falcões no corredor.

Se o universo queria me amarrar ao garoto que um dia enfiou minha cabeça debaixo d’água, ia aprender hoje.

E Kael voltou a cantarolar, perverso e satisfeito.

“Eu gosto de uma boa complicação.”

Eu funguei, engolindo o cheiro de chocolate antes que ele me engolisse.

— Então se prepara. A gente vai afogar essa academia inteira antes de terminar.

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