Capítulo 1 Capítulo 1 - Companheira

Eron Niversoon tinha acabado de completar década e, para ele, isso significava uma coisa muito importante, já era velho o suficiente para acompanhar os guerreiros durante os treinamentos mais sérios da Coração Lunar.

Pelo menos era isso que ele repetia desde cedo. Jason, seu pai e Alfa da alcateia, discordava com a mesma paciência de quem já tinha ouvido aquele pedido dezenas de vezes.

— Pai, eu consigo acompanhar eles. Eu já sei lutar, já corro mais rápido que alguns dos menores e o Enok também quer ir — Eron insistiu, caminhando atrás de Jason pelo corredor da residência Alfa. — Você prometeu que quando eu completasse dez anos ia pensar no assunto.

Jason parou e olhou para o filho com aquela expressão calma que sempre deixava Eron ainda mais irritado.

— Eu prometi pensar. Não prometi dizer sim.

— Isso é praticamente enganar.

— Isso é ser pai.

Eron bufou e cruzou os braços.

Dentro da mente dele, Enok soltou um som baixo, quase uma risada. O lobo branco já estava presente havia algum tempo e, embora Eron ainda fosse muito jovem, os dois se entendiam bem. Enok era muito mais sério, mais atento e menos impulsivo. Na opinião de Eron, isso era irritante.

— "Seu pai está certo."

Eron fechou a cara.

— Você deveria estar do meu lado.

Jason ergueu uma sobrancelha.

— Falando com Enok?

— Ele está sendo traidor.

— Então talvez esteja aprendendo alguma coisa comigo.

Jason soltou uma risada e continuou andando. Eron permaneceu parado por alguns segundos, indignado, até ouvir a voz da mãe chamando do salão principal.

— Eron! Pare de perseguir seu pai e venha me ajudar.

Ele caminhou até lá e encontrou Enora organizando uma mesa cheia de comidas, doces, frutas e bebidas. A residência estava sendo preparada para uma pequena comemoração. Não era uma festa enorme, apenas um encontro entre amigos próximos das duas famílias.

Eron pegou um doce da mesa.

Enora bateu de leve na mão dele.

— Nem pense.

— Eu só ia provar.

— Você já provou quatro.

— Isso foi controle de qualidade.

Enora riu.

— Claro. E eu sou a Deusa da Lua.

Eron fez uma careta.

Ele conhecia todas as histórias sobre a Deusa da Lua. Enora gostava de contar desde que ele era pequeno. Falava sobre destinos, companheiros, vínculos, promessas e fios invisíveis que uniam certas pessoas.

Eron achava bonito.

Também achava exagerado.

— Se ela existe mesmo, podia convencer o papai a me deixar treinar com os guerreiros.

— A Deusa da Lua provavelmente tem coisas mais importantes para fazer.

— Mais importantes do que eu?

Enora fingiu pensar.

— Muitas.

Eron abriu a boca, ofendido.

Jason entrou no salão naquele instante e passou um braço ao redor da cintura da esposa.

— Não provoque o menino.

— Estou ensinando humildade.

— Está falhando.

Os três riram.

Era assim quase todos os dias na residência dos Niversoon.

Eron havia crescido cercado de carinho, liberdade e proteção. Conhecia cada corredor, cada guerreiro, cada funcionário. Não tinha ideia de que aquele dia, tão comum até então, ficaria marcado para sempre em sua memória.

Duas horas depois, as portas principais se abriram.

Mason e Derek chegaram.

Eron conhecia os dois desde pequeno. Eram os líderes da alcateia Lua de Prata e amigos de seus pais havia muitos anos. Os quatro se visitavam com frequência, treinavam juntos e discutiam política até tarde.

Mas naquele dia havia algo diferente.

Mason carregava um pequeno embrulho nos braços.

Enora foi até eles imediatamente.

— Finalmente!

— Não reclame. Ela decidiu que precisava ser alimentada justamente quando estávamos saindo — Mason respondeu, sorrindo.

Derek parecia cansado, mas feliz.

— E depois sujou a manta.

Jason riu.

— Já está dando ordens.

— Isso porque você ainda não ouviu ela chorar — Derek respondeu. — Essa menina consegue acordar metade da Lua de Prata.

Eron observava de longe.

Enora olhou para ele e fez um gesto.

— Venha conhecer Serena. Ela tem poucos dias e já conseguiu fazer quatro adultos perderem completamente o juízo.

— Eu estou ocupado.

Enora olhou para as mãos vazias do filho.

— Fazendo o quê?

Eron pensou rápido.

— Pensando.

Jason riu.

— Então pode pensar mais perto.

Sem muita vontade, Eron caminhou até eles. Ele esperava ver apenas um bebê.

Pequeno.

Barulhento.

Talvez feio.

Mas parou quando olhou para o rosto da menina.

Serena estava enrolada em uma manta rosa decorada com pequenas rosas vermelhas. Tinha pele clara, cabelos brancos muito finos e olhos cinza-claros que pareciam grandes demais para o rosto delicado.

Ela estava acordada. E olhando diretamente para ele. Eron franziu a testa.

— Ela está olhando para mim.

Derek riu.

— Provavelmente está tentando decidir se gosta de você.

— Ela nem sabe pensar direito.

Mason arregalou os olhos.

— Não diga isso perto dela. Ela pode se ofender.

Jason encostou a mão no ombro do filho.

— Cuidado. Não subestime uma Turnyte.

Eron continuou olhando. Serena mexeu os braços dentro da manta. Uma pequena mão apareceu. Mason aproximou a bebê.

— Quer tocar?

Eron fez uma careta.

— Ela não quebra?

Enora quase engasgou de tanto rir.

— Não, meu amor. Bebês não quebram só porque alguém toca na mão deles.

— Você sempre diz que eles são frágeis.

— Isso não significa que são feitos de vidro.

Eron soltou o ar e estendeu o indicador. Foi apenas isso. Um gesto simples. Mas no instante em que Serena fechou os pequenos dedos ao redor do dedo dele, tudo mudou.

Eron sentiu um calor percorrer sua mão. Depois o braço. Depois o peito. Ele arregalou os olhos.

— Mãe...

Dois fios surgiram ao redor de seu pulso. Um dourado. Outro prateado. Eron ficou imóvel.

Os fios se entrelaçaram lentamente, brilhando como se tivessem luz própria, e seguiram da mão dele até a pequena mão de Serena.

Os quatro adultos pararam de falar.

Enok se levantou dentro da mente de Eron de maneira tão brusca que ele quase deu um passo para trás.

— "Companheira."

Eron piscou.

— O quê?

Enora olhou para ele.

— Filho?

Eron ignorou.

— Enok, o que você falou?

O lobo branco respondeu com absoluta certeza:

— "Nossa."

Eron arregalou ainda mais os olhos.

— Nossa o quê? — Serena apertou o dedo dele. Eron tentou puxar. Não conseguiu de imediato. — Ela é forte!

Dessa vez ninguém riu. Eron percebeu. Olhou para Jason. Depois para Enora. Depois para Mason e Derek. Todos estavam olhando para os fios.

— O que é isso?

Jason respirou fundo.

— Eron...

— Isso é magia?

Enora se aproximou.

— Não exatamente.

— Então o que é?

Mason beijou a testa da filha.

— É uma coisa rara.

Eron franziu a testa.

— Isso não explica nada.

Derek olhou para Jason.

— Ele é muito novo.

— Eu tenho dez anos — Eron protestou. — Não sou um bebê.

Serena soltou um pequeno som. Eron olhou para ela.

— Não falei de você.

Os adultos finalmente riram, mas a tensão ainda estava ali. Eron percebeu. Depois de alguns segundos, Serena soltou seu dedo. Os fios continuaram brilhando. Eron olhou para o próprio pulso.

— Eles vão ficar aí?

— Provavelmente não — Enora respondeu.

— Provavelmente?

— Eron, não se preocupe.

Essa frase nunca funcionava com ele.

— Quando alguém fala para eu não me preocupar, significa que eu deveria me preocupar.

Jason sorriu.

— Você puxou isso da sua mãe.

— Claro que não — Enora respondeu.

Eron não queria ouvir os adultos discutirem. Deu alguns passos para trás. Foi quando sentiu. Uma necessidade estranha. Forte. Desconfortável.

Como se estivesse fazendo algo errado ao se afastar. Eron parou. Olhou para Serena. Ela continuava tranquila nos braços da mãe.

Ele deu outro passo. A sensação aumentou.

Proteja.

Cuide.

Volte.

Eron franziu a testa.

— Enok, pare.

— "Não sou eu."

— É sim.

— "Não."

Eron saiu do salão e entrou no corredor. A sensação piorou. Parecia absurdo, mas ele queria voltar. Queria conferir se Serena estava bem. Queria ter certeza de que ninguém a deixaria cair.

Ninguém a machucaria. Nem Mason. Nem Derek. Nem mesmo seus pais. Eron parou no meio do corredor, irritado consigo mesmo.

— Então quem é?

Enok respondeu tranquilamente:

— "Ela."

Eron virou o rosto. Do salão, ainda conseguia enxergar Serena. Pequena. Quietinha. Completamente alheia à confusão que tinha causado.

— Isso não faz sentido.

— "Ainda não."

Eron olhou novamente para os fios dourado e prateado que começavam a desaparecer de seu pulso.

— Por que você chamou ela de companheira?

Enok não respondeu por alguns segundos. Depois respondeu:

— "Um dia você vai entender."

Eron continuou olhando para Serena.

Naquele momento, não fazia ideia de como uma menina com poucos dias de vida poderia ter qualquer importância em seu futuro.

Só sabia que alguma coisa havia mudado. E, mesmo sem entender o motivo, uma certeza estranha se instalou dentro dele.

Se alguém algum dia tentasse machucar aquela pequena bebê de cabelos brancos e olhos cinza-claros, teria de passar por ele primeiro.

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