Capítulo 2 Capítulo 2 - Dezoito Anos Depois
Dezoito anos se passaram desde o dia em que Serena Turnyte fechou a pequena mão ao redor do dedo de Eron Niversoon e fez dois fios brilhantes surgirem entre eles.
Serena não se lembrava daquele dia. Para ela, aquela história nem existia.
O que existia era a noite do seu aniversário de dezoito anos, o salão principal da Lua de Prata cheio de convidados, as bandeiras da alcateia espalhadas pelas paredes e uma quantidade absurda de gente sorrindo para ela como se completar dezoito anos fosse algo muito mais importante do que realmente era.
Ela estava acostumada com atenção.
Filha de Mason e Derek, criada para um dia liderar a Lua de Prata, Serena passou a infância aprendendo a lutar, negociar, reconhecer ameaças e entrar em uma sala sem abaixar a cabeça para ninguém.
Ser bonita era apenas um detalhe.
Seus cabelos brancos caíam pelas costas, os olhos cinza-claros chamavam atenção e o vestido prateado escolhido para aquela noite marcava sua cintura. Serena sabia que todos estavam olhando.
Não se importava.
Safira, sua enorme loba branca, tinha outra opinião.
— "Você poderia sorrir."
Serena pegou uma taça de uma bandeja.
— Estou sorrindo.
— "Isso não é um sorriso. Parece que você está escolhendo quem vai matar primeiro."
Serena quase riu.
— Talvez eu esteja.
Safira soltou uma risada dentro de sua mente.
As duas eram parecidas demais.
Teimosas, difíceis, impacientes e completamente incapazes de aceitar ordens apenas porque alguém achava que devia dar.
Serena já sabia que depois daquele aniversário suas responsabilidades aumentariam. Passaria a participar de mais decisões, assumiria mais controle sobre patrulhas e seria tratada de forma mais séria pelos Alfas aliados.
Isso não a assustava. Na verdade, era exatamente o que queria. O problema era aquela sensação estranha que não desaparecia.
Safira andava inquieta dentro dela desde o início da festa.
— "Tem alguma coisa aqui."
Serena levou a taça aos lábios.
— Tem centenas de lobos aqui.
— "Não. Alguma coisa nossa."
Serena franziu a testa.
— Nossa?
— "Sim."
— Você está ficando dramática.
— "Não estou."
— Safira, é meu aniversário. Tem gente demais, perfume demais, comida demais e música demais. Você provavelmente só está irritada.
A loba rosnou.
— "Eu sei diferenciar irritação de outra coisa."
Serena respirou fundo.
— Então me avise quando descobrir o que é.
Ela voltou a conversar com uma jovem Beta de uma alcateia aliada, mas Safira continuou inquieta. Até ficar completamente imóvel.
Serena percebeu.
— O que foi?
Nenhuma resposta. Ela se virou devagar. E então viu.
Eron Niversoon.
Alfa da Coração Lunar.
Ela o conhecia.
Todo mundo conhecia.
Coração Lunar era uma das alcateias mais respeitadas da região, e Eron tinha assumido grandes responsabilidades ainda jovem. Serena já havia ouvido falar de negociações lideradas por ele, de conflitos encerrados sem guerra e de outros resolvidos com força quando diálogo não bastava.
Mas nunca o tinha observado daquele jeito.
Eron tinha vinte e oito anos.
Era muito alto, quase dois metros, com ombros largos, postura firme e cabelos brancos semelhantes aos dela. Os olhos azul-gelo se destacavam mesmo à distância.
E estavam presos em Serena. Ela sentiu alguma coisa apertar dentro do peito. Não gostou.
— "Bonito" — Safira comentou.
Serena desviou os olhos.
— Não perguntei.
— "Alto."
— Continuo não perguntando.
— "Muito alto."
— Safira.
— "E está olhando."
Serena pegou outra taça só para ter alguma coisa nas mãos.
— Se continuar falando, vou passar o resto da festa ignorando você.
Safira riu.
— "Você pode tentar."
Serena olhou novamente para Eron. Ele continuava observando. Não era um olhar vulgar. Também não parecia simples curiosidade.
Era pior.
Havia reconhecimento. Como se ele já conhecesse cada detalhe dela. Serena ficou incomodada.
— Por que ele está me olhando desse jeito? — Safira não respondeu imediatamente. Isso chamou ainda mais atenção. — Safira?
— "Não sei."
Serena quase riu.
— Você acabou de passar dez minutos falando sobre ele.
— "Falar não significa entender."
Eron levantou a taça em um cumprimento discreto. Serena não respondeu. Ele sorriu de lado. Aquilo irritou ainda mais.
— Convencido.
— "Gostei do sorriso."
— Você está insuportável hoje.
Safira ficou satisfeita demais consigo mesma. Serena decidiu ignorar Eron. Funcionou por aproximadamente dois minutos. Porque continuava sentindo o olhar dele.
Quando se virou novamente, encontrou Jason e Enora próximos dele. Isso fazia sentido. As famílias eram amigas havia muitos anos.
O que não fazia sentido era a forma como Enora olhou para Serena e depois para Eron com um sorriso que parecia esconder alguma coisa.
Serena estreitou os olhos.
— Tem algo acontecendo.
Safira respondeu:
— "Eu avisei."
Antes que Serena pudesse ir até eles, Mason subiu alguns degraus próximos ao centro do salão e ergueu a mão. A música diminuiu. As conversas também.
— Atenção, por favor.
Serena olhou para o pai. Derek ficou ao lado dele. Os dois estavam sorrindo. Ela conhecia aqueles sorrisos. E imediatamente desconfiou.
Mason começou agradecendo a presença de todos, falou sobre o aniversário da filha, sobre o orgulho que sentiam da mulher em que ela havia se tornado e sobre o futuro da Lua de Prata.
Serena sorriu educadamente. Até ele continuar.
— Nossa amizade com a Coração Lunar começou muito antes do nascimento de Serena. Durante anos, nossas alcateias lutaram lado a lado, protegeram fronteiras juntas e cresceram mantendo respeito e confiança.
Serena parou de sorrir. Derek assumiu a fala.
— E hoje queremos anunciar uma nova etapa dessa união.
O salão ficou mais atento. Serena olhou para os pais. Depois para Eron. Ele não parecia confuso. Nem surpreso. Na verdade, parecia estar esperando. O estômago dela apertou.
Mason continuou:
— Dentro de uma semana, a Lua de Prata e a Coração Lunar serão unidas de forma definitiva.
Alguns convidados começaram a sorrir antes mesmo do anúncio terminar. Serena sentiu o sangue gelar.
— Não.
Safira ficou quieta. Derek olhou diretamente para a filha.
— Serena Turnyte será acasalada com Eron Niversoon, Alfa da Coração Lunar.
O salão explodiu em aplausos. Serena não ouviu quase nada. As vozes se misturaram. Os brindes começaram. Alguns vieram cumprimentá-la. Ela não respondeu.
Seus olhos estavam nos pais. Depois foram para Eron. Ele continuava parado no mesmo lugar. Calmo demais. Serena sentiu a raiva subir. Ela atravessou o salão.
As pessoas abriram caminho. Eron percebeu imediatamente que aquilo não seria uma conversa agradável. Mesmo assim, permaneceu onde estava.
Serena parou diante dele. Precisou levantar o rosto por causa da diferença de altura.
— Você sabia?
Eron sustentou seu olhar.
— Sabia.
A resposta veio simples. Sem tentativa de escapar. Serena apertou a taça.
— Há quanto tempo?
Ele demorou um pouco.
— Muito tempo.
A resposta piorou tudo.
— Muito tempo quanto?
Eron olhou rapidamente para Jason e Enora. Depois voltou para ela.
— Anos.
Serena riu sem humor.
— Claro.
— Serena...
— Então todo mundo sabia.
— Não exatamente.
— Meus pais sabiam. Seus pais sabiam. Você sabia. — Ela apontou discretamente para o salão. — Quantas pessoas ali também sabiam?
— Algumas.
Serena respirou fundo.
— Impressionante.
Eron perdeu o sorriso.
— Eu entendo que esteja com raiva.
— Não. Você entende que eu descobri na frente de uma sala cheia de gente que decidiram com quem vou passar o resto da minha vida.
— Eu não escolhi a forma como anunciaram.
— Mas aceitou. — Eron não negou. Serena percebeu. — Aceitou?
— Sim.
A palavra saiu firme. Ela estreitou os olhos.
— Sem nem falar comigo.
— Eu pretendia falar.
— Quando? Depois da cerimônia?
Eron respirou fundo.
— Serena, isso não é tão simples.
— Para mim é. — Ela olhou para os pais. Depois voltou para ele. — Parece que eu sou a única pessoa nesta festa que não sabia com quem iria passar o resto da própria vida.
— Serena...
— Não. — A firmeza da voz fez Eron parar. Ela continuou: — Não tente consertar isso agora. Não aqui.
Eron abaixou um pouco o rosto.
— Tudo bem.
Serena se afastou antes que a raiva se transformasse em algo pior. Passou pelos pais sem parar. Entrou em um corredor mais vazio e respirou fundo. Safira estava estranhamente quieta. Serena percebeu depois de alguns segundos.
— E você? — Nenhuma resposta. — Safira? — Serena cruzou os braços. — Não vai reclamar?
Finalmente a loba respondeu:
— "Estou ocupada."
Serena franziu a testa.
— Com quê?
Safira pareceu olhar através dos olhos dela para o salão. Para Eron.
— "Com ele."
Serena virou o rosto lentamente. Eron ainda estava no mesmo lugar. Mas agora ele olhava diretamente na direção dela. Safira ficou inquieta de novo. Muito mais do que antes. Serena sentiu um arrepio atravessar o corpo.
— O que está acontecendo?
A loba demorou alguns segundos.
— "Ainda não sei."
Serena continuou olhando para Eron. Ele parecia saber alguma coisa que ela não sabia. Seus pais também. Safira estava agindo de forma estranha.
E pela primeira vez naquela noite, a raiva deu lugar a outra sensação.
Desconfiança.
Porque Serena começava a entender que aquele anúncio escondia muito mais do que uma simples aliança entre duas alcateias.
