Capítulo 3 Capítulo 3 - Não Darei Um Herdeiro a Ele

Serena mal teve tempo de respirar antes que Mason segurasse seu braço com cuidado e Derek abrisse a porta de uma sala reservada ao lado do salão principal. Ela entrou sem discutir, mas o jeito como fechou a porta deixou claro que a conversa não seria tranquila.

— Vocês dois vão me explicar isso agora.

Mason respirou fundo. Derek ficou diante dela.

— Serena, nós íamos conversar com você.

— Quando? Depois que eu estivesse diante do altar?

— Não seja injusta.

— Injusta? — Serena riu sem humor. — Vocês acabaram de anunciar meu acasalamento na frente de todo mundo como se estivessem anunciando uma nova rota comercial.

Mason passou a mão pelo rosto.

— Não foi assim.

— Foi exatamente assim.

Serena andava de um lado para o outro. Safira continuava inquieta dentro dela, mas dessa vez permanecia calada.

— Quero saber de tudo. Sem esconder nada.

Derek trocou um olhar com Mason. Então falou:

— Coração Lunar e Lua de Prata têm uma relação antiga. Você sabe disso.

— Sei.

— E também sabe que nossas fronteiras são grandes demais para continuarmos dependentes apenas de acordos temporários.

Serena cruzou os braços.

— Continuem.

Mason se aproximou da mesa.

— Separadas, as duas alcateias já são fortes. Juntas, seriam praticamente impossíveis de derrubar.

Serena permaneceu séria. Aquilo ela entendia. Desde pequena, aprendeu que liderança não era apenas força. Era estratégia, território, alimento, segurança, rotas comerciais e alianças.

Derek continuou:

— Uma união entre você e Eron encerraria de vez qualquer disputa entre as duas regiões. Nossos soldados poderiam atuar juntos. As patrulhas seriam mais rápidas. O comércio ficaria protegido.

Serena escutou tudo. Não interrompeu. Mason percebeu.

— Você sabe o quanto isso pode beneficiar nosso povo.

— Sei.

— Então entende por que pensamos nisso.

Serena olhou para os dois.

— Entender não significa gostar.

Derek assentiu.

— Ninguém está pedindo que goste agora.

— Não. Só estão pedindo que eu entregue minha vida.

A frase pesou na sala. Mason baixou o olhar por um instante.

— Serena, nós nunca quisemos tirar sua liberdade.

Ela riu.

— Então escolher meu companheiro escondido foi uma forma estranha de mostrar isso.

Safira sussurou:

— "Ela tem razão."

Serena quase respondeu. Mason respirou fundo novamente.

— Você é nossa filha. Mas também é Alfa.

— Eu sei.

— E Eron também é.

Serena desviou o olhar. O rosto dele voltou à sua mente. Os olhos azul-gelo. A calma irritante. Aquele jeito de olhar para ela como se já soubesse alguma coisa.

— E isso torna tudo melhor?

Derek respondeu:

— Torna a união mais forte. — Serena ficou calada. Mason continuou: — E existe outra coisa.

Ela olhou para sua mãe.

— Claro que existe.

Ela hesitou.

— Um filho de vocês carregaria as duas linhagens.

Serena ficou imóvel. A frase pareceu mudar o ar. Safira também se levantou dentro dela.

— "Serena."

Ela ignorou.

— Então chegamos à verdadeira questão.

Mason franziu a testa.

— Não foi isso que eu quis dizer.

— Foi exatamente isso.

— Não.

— Foi. — Serena apontou para os dois. — Vocês querem unir as alcateias, reforçar fronteiras, criar um exército maior e depois produzir um herdeiro que represente tudo isso.

Derek tentou interromper.

— Serena...

— Não. — Ela ergueu a mão. — Eu ouvi vocês. Agora vocês vão me ouvir. — Mason ficou quieta. Serena respirou fundo. — Eu não sou irresponsável.

Os pais a observaram.

— Eu sei o que Lua de Prata significa. Sei quantas famílias dependem das decisões que tomamos. Sei que não posso pensar apenas no que eu quero. — A voz dela ficou mais firme. — E é exatamente por isso que eu não vou simplesmente virar as costas para essa aliança.

Derek arregalou os olhos.

— O que está dizendo?

Serena olhou para os dois.

— Eu aceito.

O silêncio veio imediato. Mason pareceu não acreditar. Derek soltou o ar devagar.

— Serena...

Ela ergueu a mão outra vez.

— Ainda não terminei. — O alívio dos dois desapareceu. Serena continuou: — Aceitarei o acasalamento. Ficarei ao lado de Eron em reuniões, guerras, acordos ou qualquer obrigação que seja necessária para proteger Lua de Prata e Coração Lunar.

Mason assentiu lentamente.

— Isso já é mais do que...

— Mas ninguém vai decidir quando eu vou ter filhos.

O silêncio voltou. Derek fechou os olhos por um segundo. Mason falou:

— Serena, um herdeiro seria importante.

— Então Eron terá um problema.

— Serena.

— Não haverá herdeiro.

A firmeza da voz dela não deixava espaço. Derek se aproximou.

— Você tem dezoito anos. Ninguém está dizendo que precisa ter um filho agora.

— Não interessa se é agora ou daqui a dez anos. — Ela encarou os dois. — Esse corpo é meu. — Mason permaneceu quieta. — A alcateia não manda nele. Vocês não mandam nele. E Eron também não vai mandar.

Safira aprovou:

— "Muito bem."

Serena respirou fundo.

— Se eu algum dia tiver um filho, será porque eu quis. Não porque alguém decidiu que duas linhagens precisam de um herdeiro.

Derek suavizou a expressão.

— Eu entendo.

Serena olhou para sua mãe. Ela demorou um pouco mais. Então assentiu.

— Eu também.

— Ótimo.

Ela caminhou até a porta. Antes de sair, sua mãe a chamou:

— Serena. — Ela virou. — Nós erramos em esconder isso. Mas nunca pensamos em você como uma peça de acordo. E logo vai entender porque.

Ela sustentou o olhar dela.

— Então não voltem a me tratar como uma.

Abriu a porta. E encontrou Eron do outro lado. Serena parou. Ele estava encostado na parede com os braços cruzados. Calmo demais. Safira reagiu imediatamente.

— "Ele."

Serena fechou os olhos por um segundo.

— Estava ouvindo?

Eron ergueu uma sobrancelha.

— Você estava praticamente gritando.

— Ótimo.

Ela passou por ele.

— Economiza explicações.

Eron descruzou os braços e segurou apenas a porta para que ela passasse. Não tocou nela. Serena percebeu. E não sabia por que aquilo chamou tanto sua atenção.

— Serena. — Ela parou. Olhou por cima do ombro. Eron estava sério agora. — Eu não quero uma mulher obrigada a me dar um filho.

A resposta pegou Serena de surpresa.

— Não?

— Não. — Ele se aproximou um passo. — Um filho não é uma dívida. — Serena ficou olhando. Eron continuou: — Se algum dia tivermos um, quero que seja porque nós dois escolhemos.

Safira ficou estranhamente quieta. Serena perguntou:

— E se eu nunca escolher?

Eron não hesitou.

— Então não teremos.

Ela procurou alguma mentira no rosto dele. Não encontrou.

— Então estamos entendidos.

Eron assentiu.

— Sobre isso, sim.

Serena estreitou os olhos.

— E sobre o resto?

O sorriso de lado voltou.

— Sobre o resto, ainda temos muito para discutir.

— Não temos.

— Temos.

— Eu já aceitei o acasalamento.

— Aceitou a aliança. — Serena franziu a testa. Eron continuou: — Não significa que me aceitou.

Ela soltou uma risada curta.

— Você é convencido.

— Ainda nem comecei.

Serena balançou a cabeça.

— Se acha que vou cair aos seus pés porque todo mundo resolveu nos unir, pode esquecer.

Eron sorriu.

— Não quero você aos meus pés. — O tom dele mudou. Serena percebeu. — Quero você olhando para mim e escolhendo ficar.

Por algum motivo, aquilo a atingiu. Ela não respondeu. Safira falou:

— "Gostei."

Serena respondeu mentalmente:

— Ninguém te perguntou nada.

— "Continuo gostando."

Eron observou o rosto dela.

— Sua loba está falando?

Serena ficou imediatamente desconfiada.

— Como sabe?

— Sua expressão mudou.

— Não tente me analisar.

— Vai ser difícil.

— Por quê?

Eron inclinou a cabeça.

— Porque vou passar bastante tempo perto de você.

Serena cruzou os braços.

— Não abuse da sorte.

— Ainda não comecei a usar.

Ela virou as costas e começou a andar. Eron não foi atrás. Isso a surpreendeu novamente. Safira falou:

— "Ele não tentou impedir."

— Eu percebi.

— "E também não gostou da ideia do herdeiro obrigatório."

— Eu ouvi.

— "Talvez ele não seja tão ruim."

Serena entrou novamente no salão.

— Safira.

— "O quê?"

— Não começa.

A loba riu. Serena voltou para a festa com a mesma postura firme de antes, mas algo tinha mudado. Ela ainda estava irritada com os pais.

Ainda odiava ter descoberto o acasalamento daquela forma. Ainda não pretendia entregar sua vida a um homem apenas porque duas alcateias achavam conveniente.

Mas agora existia uma dúvida.

Eron Niversoon talvez não fosse o inimigo daquela situação. E isso, para Serena, era quase tão perigoso quanto se ele fosse.

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