Capítulo 4 Capítulo 4 - Eu Não Sou Sua Luna

Faltavam poucos dias para o acasalamento, e Serena já tinha decidido uma coisa: não entraria naquela união sem deixar tudo muito claro.

Ela não podia impedir que duas alcateias comemorassem o acordo. Não podia apagar o anúncio feito diante de todos.

Mas podia estabelecer limites. E, se Eron pretendia dividir uma vida com ela, seria melhor que entendesse isso antes da cerimônia.

Por isso, naquela manhã, Serena atravessou a propriedade da Coração Lunar procurando por ele. Não demorou para encontrar.

Eron estava na área de treinamento, cercado por alguns guerreiros. Serena parou a uma distância segura e observou. Ele estava sem a camisa.

Esse foi o primeiro problema. O segundo foi perceber que Safira tinha razão. Eron era absurdamente atraente.

O corpo dele era forte, marcado por anos de treinamento, com ombros largos e músculos firmes. Os cabelos brancos estavam um pouco bagunçados, e algumas mechas caíam sobre a testa. Quando ele girou para bloquear um ataque, Serena percebeu o modo como se movia.

Rápido.

Preciso.

Seguro.

Safira soltou uma risadinha dentro da cabeça dela.

— "Eu avisei."

Serena fechou a expressão.

— Cala seu focinho.

— "Nem falei nada."

— Eu ouvi você pensando. — A loba riu ainda mais. Serena cruzou os braços. — Para de olhar.

— "Você está olhando."

— Estou analisando.

— "O corpo dele?"

Serena respirou fundo.

— Você quer ficar sem falar comigo até amanhã?

Safira finalmente se calou. Por alguns segundos.

— "Ele tem costas bonitas."

— Safira!

Um dos guerreiros desviou o olhar na direção de Serena. Ela fingiu que nada tinha acontecido.

Eron derrubou o adversário com um movimento rápido, segurou o braço do homem antes que ele atingisse o chão com força e o ajudou a levantar.

— Outra vez — ordenou.

O guerreiro assentiu. Foi então que Eron percebeu Serena. Os olhos azul-gelo encontraram os dela imediatamente. Ele ficou parado por um instante.

Serena teve a estranha impressão de que ele já sabia que ela estava ali havia algum tempo. Eron falou algo para os guerreiros e se afastou do grupo.

Pegou uma toalha e passou pelo rosto antes de caminhar até ela. Serena tentou não olhar novamente para o peito dele. Safira não ajudou.

— "Agora ele está vindo."

— Eu consigo ver.

— "Sem camisa."

— Safira.

— "Só estou informando."

Eron parou diante dela.

— Veio desistir?

Serena estreitou os olhos.

— Veio seria se eu estivesse falando de você. Eu vim.

Eron ergueu uma sobrancelha. Depois soltou uma risada.

— Vai corrigir minha gramática durante nosso casamento inteiro?

— Se necessário.

— Isso pode ser divertido.

— Para você, talvez.

Eron pegou a camisa que estava sobre uma cadeira e começou a vestir. Serena odiou perceber que parte dela preferia que ele demorasse um pouco mais. Safira riu.

Serena ignorou.

— Preciso conversar com você.

Eron terminou de vestir a camisa.

— Parece sério.

— É sério.

Ele fez um gesto indicando uma área mais afastada do campo de treinamento.

— Vamos.

Serena caminhou ao lado dele. Quando chegaram perto de uma árvore grande, longe o suficiente dos guerreiros, Eron se virou.

— Então?

Serena não perdeu tempo.

— Quero estabelecer algumas condições antes do acasalamento.

Eron não pareceu surpreso.

— Estou ouvindo.

— Teremos quartos separados. — Ele assentiu. Serena continuou: — Você não entra no meu quarto sem minha autorização. — Outro aceno. — Não haverá cobrança íntima.

Eron permaneceu calado.

— Nem tentativa de me convencer usando o vínculo, posição, hierarquia ou qualquer outra desculpa.

— Certo.

Serena franziu a testa. Esperava mais reação. Mesmo assim, continuou.

— Você é Alfa da Coração Lunar. Eu sou Alfa da Lua de Prata. Nosso acasalamento não muda isso.

— Concordo.

— E você não vai usar seu posto para me dar ordens.

Eron cruzou os braços.

— Mais alguma coisa?

— Não tome decisões que envolvam minha alcateia sem falar comigo.

— Justo.

— Não decida onde vou estar, com quem vou falar ou quando devo voltar.

— Certo. — Serena ficou esperando. Nada. Eron apenas a observava. — Terminou?

— Por enquanto.

— Aceito.

Ela piscou.

— Só isso?

— Só isso o quê?

— Você aceita?

— Foi o que eu disse.

Serena pareceu desconfiada.

— Sem discutir?

Eron sorriu de lado.

— Você queria que eu discutisse?

— Eu esperava que contestasse alguma coisa.

— Por quê?

— Porque homens com poder geralmente gostam de lembrar todo mundo que têm poder.

O sorriso dele diminuiu.

— E você acha que eu preciso fazer isso com você?

Serena sustentou o olhar.

— Ainda não sei o que você precisa fazer.

Eron deu um passo na direção dela. Serena ficou imóvel. Ele parou antes de entrar realmente em seu espaço. Nem perto demais. Nem longe.

— Serena, eu poderia ter recusado esse acasalamento anos atrás.

Ela ficou séria.

— Anos atrás…

Eron percebeu o erro.

— Quero dizer que isso foi discutido há muito tempo entre nossas famílias.

Serena estreitou os olhos.

— Quanto tempo?

— Não estamos falando disso agora.

— Você mencionou.

— E vou explicar quando for o momento certo.

Ela soltou um riso curto.

— Isso não me deixa menos irritada.

— Eu imaginei. — Eron continuou: — Mas o ponto é outro.

Serena cruzou os braços.

— Estou ouvindo.

— Eu poderia ter recusado. — Ela ficou quieta. — Não recusei.

Eron apontou discretamente para ela.

— Você poderia ter recusado agora.

— Eu tenho responsabilidades com meu povo.

— Eu sei.

— Então não finja que minha escolha foi completamente livre. — Eron ficou sério. — Não estou fingindo.

Aquilo surpreendeu Serena. Ele continuou:

— Eu sei que existe política nisso. Sei que existe pressão. Sei que nossas famílias querem essa união.

Serena ergueu o queixo.

— Então sabe por que estou estabelecendo regras.

— Sei. — Eron respirou fundo. — E também sei que nada disso me dá direito sobre seu corpo. — Serena ficou surpresa. Ele continuou olhando diretamente para ela. — Nem sobre suas escolhas.

Por alguns segundos, Serena não encontrou resposta. Aquilo a irritou ainda mais. Não porque ele estivesse errado. Mas porque estava sendo razoável demais. Safira comentou:

— "Eu gosto dele."

Serena respondeu mentalmente:

— Você gosta porque ele é bonito.

— "Também."

Eron inclinou o rosto.

— Sua loba está falando outra vez?

Serena olhou para ele.

— Você precisa parar de perceber isso.

— É difícil.

— Por quê?

— Seu rosto entrega. — Ela fechou a expressão imediatamente. Eron riu. — Viu?

— Não vi nada.

— Claro.

Serena respirou fundo.

— Ótimo. Então estamos entendidos.

— Estamos. — Ela fez menção de ir embora. Eron chamou: — Serena.

Ela parou.

— O quê?

— Eu tenho uma regra.

Serena se virou completamente.

— Uma?

— Uma.

— Dependendo dela, eu posso recusar.

— Pode. — Ela esperou. Eron falou: — Não minta para mim. Nunca.

Serena franziu a testa.

— Só isso?

— Só.

— Eu não costumo mentir.

O sorriso dele voltou.

— Vai começar.

Serena ficou imediatamente irritada.

— Como é?

— Vai começar quando descobrir algumas coisas.

— Que coisas?

Eron permaneceu calmo.

— Descubra.

Serena abriu a boca. Depois fechou.

— Você faz isso de propósito.

— O quê?

— Fala metade das coisas e fica com essa cara.

— Que cara?

— Essa.

— Muito específico.

Ela deu um passo na direção dele.

— Se existe alguma coisa sobre esse acasalamento que eu ainda não sei, seria uma ótima hora para falar.

Eron a observou. Por um momento, Serena achou que ele realmente contaria. Mas ele apenas respondeu:

— Ainda não.

— Por quê?

— Porque você não acreditaria.

Serena soltou uma risada sem humor.

— Experimente.

Eron olhou para ela por alguns segundos. Depois desviou os olhos para o campo de treinamento.

— Não.

— Inacreditável.

— Você perguntou. Eu respondi.

— Você é irritante.

— Você já falou isso.

— E vou repetir.

Eron sorriu.

— Então já estamos criando hábitos de casal.

Serena apontou para ele.

— Não comece.

— Minha futura Luna está ficando nervosa.

Ela ficou imóvel.

— Não me chame assim.

Eron arqueou uma sobrancelha.

— Você será minha Luna.

— Politicamente.

— Ainda será.

Serena se aproximou um pouco mais.

— Escute bem, Eron Niversoon. — O sorriso dele desapareceu devagar. — Eu vou cumprir aquilo que aceitei. Vou estar ao seu lado diante das alcateias. Vou participar das decisões. Vou lutar se for necessário. — Ela apontou para o próprio peito. — Mas eu não sou sua propriedade.

Eron não se moveu.

— Nunca pensei que fosse.

Serena sustentou o olhar.

— Ótimo. — Ela deu um passo para trás. — Então não esqueça.

Eron assentiu.

— Não vou.

Serena virou e começou a caminhar. Dessa vez ele não a chamou. Ela atravessou parte da propriedade ainda tentando entender por que aquela conversa não tinha terminado como imaginava.

Esperava resistência. Recebeu respeito. Esperava arrogância. Recebeu limites. Era mais fácil odiá-lo quando imaginava que Eron tentaria mandar nela.

O problema era que ele não estava fazendo isso.

Safira falou:

— "Isso incomoda você."

— Não.

— "Incomoda."

— O que me incomoda é você falar demais.

— "Você esperava um inimigo."

Serena continuou andando.

— E talvez ainda seja. — Safira não respondeu. Aquilo chamou atenção. Serena parou. — Safira? O que foi?

A loba demorou.

— "Nada."

Serena franziu a testa.

— Você acabou de mentir para mim?

— "Não."

— Safira.

Outro momento de silêncio da loba. Serena sentiu a inquietação dela. Era diferente. Não parecia medo. Parecia que a loba sabia alguma coisa.

— Você sabe o que Eron quis dizer. — Safira não respondeu. — Sabe?

— "Talvez."

Serena ficou imóvel.

— Talvez?

— "Não quero falar agora."

Serena arregalou os olhos.

— Desde quando você esconde coisas de mim?

Safira se recolheu.

— "Até mais, Serena."

— Não faça isso.

Nada. A conexão entre elas permaneceu ali, mas Safira se recusou a continuar a conversa. Serena ficou parada no meio do caminho, irritada.

Primeiro seus pais.

Depois Eron.

Agora sua própria loba.

Todo mundo parecia saber alguma coisa que ela não sabia.

Naquela noite, deitada na cama, Serena encarou o teto por muito tempo. Safira permaneceu silenciosa.

E, pela primeira vez desde que as duas aprenderam a conversar, Serena teve certeza de que sua própria loba estava escondendo alguma coisa dela.

E aquilo a incomodava muito mais do que deveria.

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