Capítulo 3: Um parceiro de vida adequado
Vanya acordou se sentindo surpreendentemente descansada. Passara a noite desviando das perguntas dos pais e das especulações implacáveis de Selene, mas sabia que Ares devia ter contado ao pai dela o que aconteceu na mata. Ele nunca quis colocá-la em apuros, mas, no instante em que ela fazia alguma coisa imprudente — como patrulhar sozinha, encarar um apodrecido e ser hipnotizada pela maldita criatura —, Ares fazia questão de relatar. Principalmente ao pai dela.
Ah, Ares. O que eu vou fazer com você?
De onde estava deitada na cama, ela pegou o próprio reflexo no espelho. Olhos verde-esmeralda, pesados de exaustão, encaravam-na de volta. O cabelo vermelho-escuro se espalhava para todos os lados, selvagem e indomado. As pessoas sempre disseram que ela era bonita, mas ela nunca entendeu o que, de repente, tinha feito Ares olhar para ela de um jeito diferente. Ele era o zeta da matilha, o general de guerra deles, filho do Alfa Callum e da Luna Beatrice. Ele podia ter qualquer uma — alguém marcante, poderosa, alguém como Selene. Ainda assim, por anos, ele tinha escolhido permanecer sem par, preso a ela em segredo.
Devo me sentir lisonjeada? Ou só idiota?
Vanya soltou o ar com força e virou o rosto, afastando-se do espelho. Não adiantava tentar prever o que vinha pela frente. Mais cedo ou mais tarde, Ares ia acabar com aquilo, fosse lá o que fosse entre eles, e ela teria que aceitar. Seguir em frente.
Ela já tinha feito as pazes com o fato de que nunca teria um par — ela não era uma metamorfa de nascença, e pronto. Talvez ela encontrasse alguém que a enxergasse como ela era, um humano que a valorizasse. Talvez.
Mas o futuro marido dela teria que esperar.
Agora, ela tinha problemas maiores. Como descobrir um jeito de quebrar o controle de Killian sobre ela, pegá-lo antes que ele sumisse de novo e — ainda mais urgente — evitar de qualquer jeito o Banquete Anual da Aliança Real.
Por que eu não posso ser dispensada dessa porra de Banquete Anual da Aliança Real?
Enquanto os preparativos para o evento consumiam o resto da casa, Vanya ficou no quarto. Ela ainda conseguia perceber o que estava acontecendo ao redor, se quisesse, mas, por enquanto, manteve a própria percepção travada. Ela precisava de tempo para pensar, para traçar uma estratégia e, acima de tudo, para respirar.
Todos os caçadores tinham audição e olfato superiores aos dos humanos. Mas, como qualquer metamorfa de nascença sem dom, Vanya não possuía talento especial algum. Selene fazia questão de nunca deixá-la esquecer isso.
— Aceita, querida irmã — Selene dizia, com a voz escorrendo condescendência. — Você pode até ter aprendido algumas habilidades, mas nunca vai conseguir competir comigo. Eu sou especial. Você não é.
Vanya nunca discutiu. Em vez disso, ela aperfeiçoou a arte do sarcasmo cortante.
— Selene, você tem toda a razão. Você não só é uma metamorfa de nascença com um rosto que poderia ter sido esculpido pela própria Afrodite, como também é uma das queridinhas da deusa da lua. Eu nunca conseguiria competir com você. É algo que eu só posso desejar.
Se Selene alguma vez percebeu o sarcasmo ou simplesmente absorveu o elogio como uma gata convencida tomando sol, Vanya nunca soube. Não que isso importasse.
Toc. Toc. Toc.
Vanya se encolheu com o barulho repentino, encarando a porta de cara fechada antes de gemer por dentro. O cheiro que atravessou a madeira confirmou — um dos ômegas da matilha. Ela lançou um olhar para o despertador ao lado da cama.
13:00. Perfeito. Na hora certa para um total de nada.
Arrastando-se para sentar, ela abriu a porta. “Sim, Gaston?”
“O beta Randall quer falar com você.”
Vanya arqueou uma sobrancelha. “O que ele quer?”
“Ele não disse. Só falou que você precisa ver ele. Tipo, agora.”
Ela pensou em bater a porta na cara dele, mas até isso exigia mais energia do que ela estava disposta a gastar. “Tá. Daqui a um minuto eu vou.”
Gaston assentiu e sumiu pelo corredor. Com um suspiro resignado, Vanya voltou para o armário, revirou a bagunça e desistiu quase na hora. Como ela não tinha ninguém para impressionar — nem o Ares —, ficou com um jeans velho e uma camiseta branca. Pular o banho foi uma decisão fácil. Prendeu o cabelo num rabo de cavalo e saiu.
Quando entrou no escritório do Randall, encontrou-o sentado à mesa, tomando café e folheando um jornal como se fosse uma tarde perfeitamente normal. Só que não era. Não para ela.
O estômago dela apertou.
“Pai?” A voz saiu mais firme do que ela se sentia. “Mãe?”
Sentada ao lado de Randall, Celeste mal ergueu os olhos. E, naquele instante, Vanya soube — fosse lá o que fosse, não ia ser bom.
Ela ainda achava estranho e desconfortável chamar Celeste de mãe. Se não fosse pelo pedido do pai adotivo, ela não teria chamado Celeste de “mãe” — e tinha quase certeza de que a própria Celeste também não ia querer isso.
Celeste e Selene eram praticamente cópias carbono. As duas tinham aquela beleza clássica de loira. Randall, pelo menos, era moreno, mas, de algum jeito, os três compartilhavam os mesmos olhos de um azul profundo. Quando Vanya ficava perto deles, o cabelo ruivo e os olhos verdes faziam ela parecer uma estranha, um lembrete gritante de que ela não pertencia de verdade.
“Vanya, como é que você se deixou hipnotizar por um podre?” A voz de Celeste veio afiada, indo direto ao ponto.
Lá vamos nós de novo, pensou Vanya. Ela se preparou para o sermão que já tinha ouvido mais vezes do que conseguia contar.
“…Você quase deu um troço no seu pai. Como você pôde humilhar a sua própria família? Principalmente o seu pai?…”
Quando Celeste finalmente terminou o sermão ensaiado, virou-se para Randall, esperando o apoio dele. Bem na hora, ele suspirou e se inclinou para a frente.
— Vanya, o que aconteceu? — perguntou, dando a deixa para ela explicar.
— Eu não sei como aconteceu, só… aconteceu. Quando o Killian—
— Você sabe o nome daquele lobisomem imundo? Como? Você perguntou antes de tentar prender ele? Vocês dois ficaram se conhecendo agora? — Celeste disparou. O jeito como ela e Selene pensavam e falavam parecido chegava a dar arrepios.
Randall esfregou as têmporas.
— Celeste, não importa se ela sabe ou não o nome daquele desgraçado. O que importa é descobrir como ele conseguiu enfeitiçar ela. — Ele voltou o olhar para Vanya. — Continua.
Vanya puxou o ar, fundo.
— Quando ele… o Killian… — fez questão de dizer o nome de novo, só para irritar Celeste — …ele só olhou nos meus olhos. Como um vampiro faria. Eu tentei de tudo pra me soltar, mas era impossível. Parecia que eu estava presa no lugar por alguma coisa invisível.
— E o que mais ele fez? — Randall perguntou, inclinando-se mais. — Ele disse alguma coisa pra você?
A mente dela voltou às palavras de Killian. Vamos continuar de onde paramos, Ruiva?
O estômago dela revirou. Ela devia contar?
— Ele… ah…
O olhar de Randall ficou mais duro.
— Sim? Ele disse alguma coisa?
Celeste soltou uma risada de deboche antes que Vanya respondesse.
— Ah, qual é, Randall. Esses apodrecidos não conversam. Eles atacam, matam e comem. É só isso que sabem.
— A mamãe tem razão — Vanya se ouviu dizer antes de conseguir se segurar. Aquilo era raro. Quase nunca concordava com Celeste.
Mas ela franziu a testa e continuou:
— Só que parecia que o Killian estava tentando invadir a minha cabeça. Foi assim que eu descobri o nome dele. Ele estava empurrando pensamentos pra dentro da minha mente… tentando falar comigo.
Randall esfregou o queixo.
— Interessante. Apodrecidos e renegados perdem a cabeça. Não raciocinam, não pensam. Tudo o que sobra são os instintos, e a maioria dos lobisomens renegados que eu já encontrei nem consegue voltar à forma humana.
— Eu sei, pai — ela disse, frustrada. — Foi por isso que eu fiquei tão desconcertada. Ele não era pra conseguir fazer isso. E eu também nunca vi ele na forma de lobo. O Ares estava lá. Ele viu o que aconteceu.
Celeste lançou a ela um olhar cortante.
— Aonde você quer chegar com isso, Vanya?
— Que o Killian não é só mais um apodrecido sem mente — ela disse, devagar. — Ele não se perdeu por completo. Ele pode ser outra coisa, completamente diferente. E isso pode significar que ele é uma ameaça ainda maior pra matilha. A gente precisa ir mais fundo.
Randall assentiu.
— Vamos. Eu vou falar com o Alfa Callum.
— O Ares disse que também vai falar com o pai dele — Vanya acrescentou. — Posso estar completamente errada, mas… e se eu estiver certa? Melhor estar preparado do que ser pego de surpresa.
— Eu entendi o que você quer dizer. —
— E eu prometo que vou ser mais cuidadosa da próxima vez — disse ela, encarando os olhos dele.
— Claro que vai — Randall respondeu, embora houvesse algo indecifrável na expressão dele. — Mas o Ares levantou um bom ponto quando falei com ele hoje de manhã. Então, eu concordei com ele e com o Lachlan...
A mandíbula de Vanya se contraiu. — Concordou com o quê?
— De agora em diante, você vai fazer reconhecimento com o Rowan.
— O quê?! — ela explodiu. — Eu não preciso de babá! Eu estava bem sozinha — o Ares é que apareceu do nada e estragou meu plano. Ele não me salvou nem nada. Eu tinha tudo sob controle!
— Não dificulta, Vanya — Celeste disse. — A gente só quer ter certeza de que você está segura.
— Mas o Rowan é... — Vanya tentou encontrar as palavras certas. — Aquele cara não sabe calar a boca sobre a Selene.
Celeste sorriu, como quem já esperava aquilo. — Porque eles são amigos desde crianças. E o Rowan é só um filhote simpático, doido pra criar laços. Ele não quer te fazer mal, Vanya.
— Você só pode estar brincando — ela retrucou, virando-se para Randall. — Qual é a próxima? Tirar a porra do meu direito de usar o celular? Eu tenho vinte e quatro anos, não sou uma adolescente rebelde.
Celeste arqueou uma sobrancelha, mas não disse nada. Ela detestava palavrões. Uma das poucas coisas em comum entre ela e a mãe de Vanya.
Randall soltou o ar devagar. — Eu sei que você prefere trabalhar sozinha, Vanya, mas o Killian entrou na sua cabeça. Isso não é algo que eu possa simplesmente ignorar. Eu não vou correr o risco de isso acontecer de novo.
Ela engoliu a vontade de discutir. Provavelmente era melhor não mencionar que não tinha sido a primeira — nem sequer a segunda — vez que Killian tinha invadido a mente dela. Se eles soubessem, iam surtar.
— Tá. Eu entendo — ela resmungou.
Randall assentiu e então abaixou a voz. — E mais ninguém pode saber do Killian. Você contou pra alguém o que aconteceu?
Ela balançou a cabeça. — Não. Eu fui direto pro meu quarto quando voltei da mata. Não saí de lá até agora.
— Bom — ele disse. — Lorde Alaric vai estar aqui em dois dias, e o Conselho Real não pode ficar sabendo disso — nem sobre o Killian nem sobre quaisquer outras ameaças dentro ou fora do nosso território. O Alfa Callum não quer que eles se metam. Se o Killian for uma ameaça, nós resolvemos. Sem gente de fora.
Vanya assentiu. — Entendido.
Celeste sorriu de novo, mas dessa vez havia algo naquele sorriso que deixou Vanya em alerta.
— E tenta se dar bem com o Rowan — Celeste disse, como quem não quer nada.
Vanya estreitou os olhos para ela. — Por quê?
Celeste trocou um olhar com Randall antes de dizer: — Já que você não nasceu com um companheiro predestinado, seu pai e eu achamos melhor encontrar pra você um parceiro de vida adequado.
— O quê?!? — o sangue dela praticamente ferveu.
— Não se preocupa, Vanya — Celeste disse, com suavidade. — O Alfa Callum acha que é uma ideia brilhante.
— Ah, entendi. E não tem nada de porra nenhuma brilhante nisso, e você sabe muito bem! — ela disparou.
