Capítulo 4: Seu primeiro companheiro
Depois da conversa rápida com os pais, Vanya se virou, saiu do escritório de Randall e foi direto para o quarto. E, durante boa parte da tarde, ela não quis falar com ninguém. Estava irritada com Celeste por achar que podia simplesmente escolher alguém para ser seu companheiro de vida; e também estava irritada com o pai adotivo por deixar a esposa fazer o que bem entendesse com aquilo.
Mas com Ares... com Ares ela estava ainda mais furiosa; se ele não tivesse contado ao Randall, nada disso teria acontecido. Ela não teria que aguentar Rowan e aquela boca dele se Ares tivesse ficado de bico calado.
É tudo culpa daquele desgraçado!
Vanya queria dar um soco na cara dele por ter dedurado, mas sabia que nunca ia conseguir derrubar aquele sujeito, então simplesmente pulou o jantar e apagou.
Infelizmente, o estômago dela, roncando e reclamando de fome, a acordou às dez da noite. Então, com os olhos pesados de sono, ela saiu do quarto e desceu as escadas. No caminho para a cozinha, percebeu que todo mundo ainda estava trabalhando duro, pendurando decorações no grande salão. Guirlandas de pinhas e frutinhas vermelhas se estendiam por todo o comprimento do corredor. Flores coloridas e conjuntos de bolas ornamentadas enfeitavam o caminho sobre as mesas, capturando a luz das velas que iluminavam o corredor — tudo em preparação para a chegada de Lorde Alaric.
“Mas o que é isso?” ela murmurou, baixinho, enquanto continuava a explorar os corredores.
Ela também descobriu que a Chef de Cuisine da matilha — a Chef Clara, como a chamavam — não podia ser interrompida no escritório enquanto preparava uma refeição gigantesca para o banquete, e que dois dos deltas deles, junto com seus ômegas, tinham se voluntariado para ajudá-la na cozinha. Vanya até se surpreendeu ao saber que até os gammas da matilha tinham se voluntariado, cheios de entusiasmo, para entrar no comitê de decoração, liderado pela irmã dela, toda empolgada, é claro.
“Vanya, você finalmente decidiu sair da sua caverna!” Vanya se virou e deu de cara com a própria Selene, deixando um grupo de ômegas para vir até ela.
“Merda”, Vanya sibilou, quase sem som. Tudo o que ela queria era pegar alguma sobra do jantar na cozinha e voltar para o quarto. Agora tinha que lidar com ela.
Porra. Como caçadora, ainda bem que ensinaram Vanya a esconder o que sentia de verdade e até impedir que os outros lessem seus pensamentos. Com exceção do Alfa Callum e dos gammas, que raramente saíam das tocas a menos que fosse uma ocasião especial. Ela supunha que aquilo contava como uma dessas ocasiões: a Visita da Aliança Real.
“Então, o que você acha?”, perguntou Selene. “Eu quero que este ano fique mais divertido, mas ainda com um ar mais descontraído.”
Vanya olhou ao redor do salão por um instante, fingindo estar deslumbrada com a beleza que a cercava. “Não acredito que você se superou de novo este ano. Eu achava impossível, mas... uau. Incrível.”
Selene tinha sido responsável pelo mesmo comitê de decoração na Visita Anual da Aliança Real no ano passado e, se Vanya fosse sincera, estava tudo montado do mesmo jeito do ano anterior. O mesmo lustre enorme pendia do teto; todas as paredes tinham as mesmas mesas compridas, cada uma com sua própria coleção de enfeites; até as tochas bem acesas seguiam o mesmo conceito que Selene tinha usado no ano passado.
“Obrigada. A mamãe acha que eu devia ser designer de interiores. Você acredita?”
“Acredito. Você é bem artística.” Dizer a Selene exatamente o que ela queria ouvir já era quase automático para Vanya.
“Eu sei. E, embora você tenha sido adotada e, portanto, não tenha os nossos genes criativos, saiba que eu aprecio opiniões de gente de raciocínio simples. E, como minha irmã adotiva, eu considero a sua opinião muito importante.”
“Uau”, foi tudo o que Vanya conseguiu dizer.
“Eu sei.” Selene ficou com um ar orgulhoso. “Eu também tenho me dito isso. Lorde Alaric e a família dele estão a caminho, e eu mal posso esperar para conhecê-los. Estou ansiosa para ouvir ele dizer como o lugar está lindo. E mal posso esperar para mostrar tudo ao Cassian.”
“Cassian?”
Selene olhou para Vanya e abriu um sorriso. “Meu Deus. Você não sabe?”
“O quê?”
“Lorde Alaric e a família dele vão vir acompanhados por um dos cavaleiros do Conselho Real, lá da Capital.”
“Sério? Por quê?”
“Bem, tudo graças ao seu canalha favorito, eles querem garantir que Lorde Alaric esteja em segurança enquanto estiver aqui.”
Vanya sentiu uma pontada de preocupação na hora. Randall tinha dito que ninguém podia saber do que aconteceu. A mamãe contou pra Selene? Mas ela sabia que a filha ia espalhar.
“Selene.” Vanya olhou em volta, com medo de alguém escutar. “Quem te contou sobre o Killian?”
Selene sorriu de um jeito maldoso. “Você quer dizer o seu canalha favorito e como ele te hipnotizou?”
“Quem te contou?”
“Eu só ouvi falar. Não é nada demais.”
“É, sim. Ninguém pode saber. O Conselho Real não pode — merda.”
—Desculpa estourar a sua bolha, querida irmã, mas eu tenho certeza de que eles podem… sabe… não sabem porra nenhuma.
Ela balançou a cabeça depressa. —Para com isso. Eu tô falando sério. Você contou pra alguém? Sobre o Killian?
—Não. Por quê?
—Ótimo. Faça questão de manter a boca fechada sobre isso.
—Por quê?
—Só faz isso! —ela falou com a irmã, um pouco mais ríspida do que o normal, o que quase nunca acontecia.
Selene cruzou os braços no peito. —Você não manda em mim.
—Eu sei que não. Mas o Alfa Callum manda, e ele disse pro pai não contar pra ninguém sobre o incidente na floresta. Então, por ordem do nosso alfa, mantém essa boca fechada, tá? —Ela olhou em volta de novo antes de completar: —Vai lá e continua com o seu… design de interiores.
Selene foi embora bufando, irritada. E, em vez de ir pra cozinha, Vanya subiu direto pro quarto do Ares, na ala esquerda. Ela ainda estava furiosa com ele, mas precisava falar com ele antes que os boatos sobre o encontro dela com Killian se espalhassem.
Devagar, ela subiu a escada, tomando cuidado pra não olhar pra cima nem fazer contato visual com ninguém que pudesse se surpreender ao ver uma caçadora circulando pela ala esquerda. Quando chegou ao patamar, porém, se surpreendeu ao não ver ninguém. Ela seguiu em frente e caminhou em silêncio pelo corredor.
Assim que se aproximou do quarto do Ares, percebeu que a porta estava entreaberta, permitindo que ela espiassse lá dentro e visse o que ele estava fazendo. Mas a porta bateu com força antes que ela chegasse perto o bastante para olhar pela fresta.
Como caçadora, Vanya conseguia mascarar o próprio cheiro e deixar a mente e os pensamentos completamente fora do alcance de todos —com exceção do Alfa, da Luna dele e de todos os que tinham patente, pelo menos em teoria. Mas, por ser a favorita do Lachlan e também a caçadora mais curiosa, ela aprendeu secretamente uma técnica para bloquear metamorfos de alta patente, até mesmo da realeza, alfas inclusive, de lerem e sentirem a presença dela. Lachlan achava que essa habilidade seria útil.
Tipo, agora.
Vanya fechou os olhos rápido e se concentrou em esconder a própria presença. E, por um breve momento, ela ficou na dúvida se devia bater ou simplesmente voltar mais tarde. Ela se lembrou de uma vez em que bateu na porta dele e o viu parado ali, pelado. Ela ficou um pouco envergonhada de invadir a privacidade dele, mas ele não pareceu incomodado naquela ocasião. Ainda assim, ela continuava puta com o Ares, e ver ele nu não ia ajudar em nada, então ela deu meia-volta… mas parou de repente assim que ouviu o rosnado gutural do Ares, vindo de dentro do quarto.
O coração dela disparou no peito.
Ele tá com raiva? Eu devia bater pra ver se ele tá bem?
Ela respirou fundo e, contra o bom senso, ergueu a mão para bater na porta à sua frente. Parou por um instante, encarando os próprios pés, antes de soltar o ar devagar mais uma vez. Então…
—…bom, alguém deve ter informado a Capital sobre aquele desgraçado! —Vanya engoliu em seco quando a voz do Alfa Callum ecoou, trovejante, dentro do quarto.
—Sim —Ares respondeu no mesmo tom. —Mas eu tô dizendo que não foi a Vanya. Não pode ter sido ela.
O quê? Como o pai tinha apontado, o Killian conseguiu impor a superioridade dele sobre mim com facilidade. Por que eu contaria pra aqueles imbecis da Capital sobre a minha própria experiência ridiculamente humilhante?
—Então resolve isso! Eu não posso ter um espião ou um traidor na minha alcateia! —o Alfa Callum berrou.
—O senhor não acha que “espião” ou “traidor” é forte demais pra descrever alguém que talvez esteja com medo e só queira segurança extra contra aqueles renegados, pai?
—Você enlouqueceu?! Essa pessoa me traiu no instante em que procurou aquela maldita sacerdotisa na Capital e vazou a informação sobre o Killian. Há cinquenta anos, Ares, eu sou o Alfa da alcateia Black Hollows. Eu derramei sangue e jurei proteger todo mundo nesta alcateia de qualquer mal. A gente não precisa de proteção extra daqueles malditos vampiros reais, um pé no saco. Pelo amor de Deus, nós somos a segunda maior alcateia do Oeste!
—Então talvez tudo o que o senhor precise fazer seja garantir a todo mundo na alcateia exatamente isso.
—Garantir? Se eles realmente acreditam em mim, se confiam em mim o bastante pra saber que eu não vou deixar nada acontecer com eles, eu não preciso fazer nada! A atitude do traidor foi um insulto à minha liderança e a mim.
—Eu não vejo desse jeito, pai.
—Por que você tá tão empenhado em defender o traidor? Foi a Vanya, não foi?
—Não! Não foi ela, pai. Quantas vezes eu tenho que dizer isso?!
Que porra deu no Alfa Callum? Eu não conheço ninguém na Capital. Muito menos uma porra de uma sacerdotisa.
—Então descubra quem foi, ou eu vou mandar o Lachlan lidar com a sua companheira.
Espera… o quê?
Vanya engoliu em seco. Os músculos dela enrijeceram. O estômago se contraiu.
Eu sou a companheira do Ares? Que porra é essa?!
