Capítulo 3 - Este vai ser um longo dia! 👽

—Socorro!

Ela estava andando fazia cerca de uma hora quando ouviu aquele grito.

Seus pés pararam. Anara se perguntou se era uma armadilha ou se alguém realmente precisava de ajuda no meio daquela mata estranha.

Sim. Estranha. Porque não havia vento, nem farfalhar de folhas, nem grilos ou qualquer som da natureza — nem mesmo o barulho distante de água correndo. Até os próprios passos dela ecoavam, como se ela não estivesse caminhando sozinha.

Então, dizer que ela estava desconfiada do pedido de socorro era pouco.

—Por favor, alguém! Qualquer pessoa! —a voz falha gritou de novo, a última parte ainda mais desesperada e sem esperança. Quem quer que fosse parecia estar com dor, se é que era mesmo uma pessoa precisando de ajuda.

Mas ignorar ia contra tudo o que tinham ensinado pra ela na academia de polícia e contra tudo o que ela era desde antes disso. Então, ela engatilhou a arma, pronta pra qualquer coisa, e seguiu o som do chamado. Tentou fazer com que seus passos fossem leves e silenciosos — o que, numa floresta já assustadoramente quieta, era um problema.

Quando ela empurrou um emaranhado de arbustos grossos, com o dedo no gatilho, pronta para lutar ou correr, parou, a testa franzida.

Havia uma garota jovem, provavelmente com dezesseis ou dezessete anos, caída numa valeta, com a perna ensanguentada num ângulo esquisito que parecia doer só de olhar. Os olhos da garota estavam fechados; o cabelo loiro, sujo; o rosto, manchado de lágrimas, retorcido de dor; a respiração, curta. Os olhos dela se abriram de repente quando Anara surgiu por entre os arbustos.

—Me ajuda, por favor! —ela implorou na hora.

—O que aconteceu com você? —Anara se abaixou rápido, ficando de joelhos ao lado da garota, sem mexer nela ainda, apenas examinando o ferimento.

—Eu não sei. Eu só estava procurando um jeito de sair dessa mata. Eu quero ir pra casa —a garota chorou, fechando os olhos de dor outra vez.

—Como você veio parar aqui? Onde estão seus pais? —Anara entrou no modo policial por instinto, mas ainda não guardou a arma; não tinha certeza se estavam sozinhas.

—Eu não sei. Eu só acordei num quarto aqui, eu tentei fugir. Eu estava com muito medo. —Ela olhou pra Anara, ainda apavorada. —Por favor, me ajuda.

Anara assentiu, tentando tranquilizá-la.

—Eu sou a Anara, eu sou policial. Eu vou te levar pra casa. Como você se chama? —mas a mente dela ia ligando pontos, como um quebra-cabeça bem na frente dela que se recusava a se completar por falta de algumas peças importantes.

—Eu sou Elena, Elena Cross. Os amigos me chamam de Elle. —Ela fungou. Anara via: Elle estava com dor, mas tentando não perder a cabeça. Garota corajosa, pensou.

—Certo, Elle —Anara começou, mas parou ao sentir que estavam sendo observadas. Os pelos da nuca se arrepiaram enquanto ela olhava ao redor, com o olhar atento.

Ninguém.

Como antes. Não havia som nenhum, além da respiração irregular de Elle e dos próprios movimentos de Anara.

—O que foi? —Elle perguntou, alarmada.

—Nada. Só fica atenta —Anara avisou e se preparou pra ajudar Elle. Ela tirou a mochila e começou a procurar os suprimentos, cuidadosa pra manter a arma fora do alcance da menina. Só porque estava ajudando não significava que confiava nela pra não fazer alguma besteira. Anara tinha aprendido a não confiar em rostos inocentes no trabalho dela.

—Oficial, onde eu tô? —perguntou Elle, vendo Anara tirar um kit de primeiros socorros, obviamente insuficiente pro ferimento dela.

—Você é de onde? —Anara devolveu, porque não tinha resposta pra pergunta da garota. A verdade é que Anara também não fazia ideia de onde elas estavam.

—Oklahoma —respondeu a menina, enquanto Anara abria a garrafa d’água pra lavar o sangue da perna dela e ver exatamente qual era o problema.

—Eu sou de Nova York —Anara manteve a conversa enquanto despejava a água na perna, e Elle soltou um assobio de dor.

—Então… qual é o estrago? —perguntou Elle. Ela tinha a sensação de que não ia conseguir andar tão cedo —se é que algum dia.

—Esse sangue é de arranhões da queda, não da lesão —deduziu Anara. —Me diz onde dói. —Ela começou a apertar a perna ao redor do ângulo estranho.

—Ai, aí! —Elle fez uma careta, e Anara concluiu: —Nada tá quebrado. Pelo menos, eu acho que não. Se estivesse, você não ia conseguir ficar tão parada assim. Mas, claro, você precisa de um raio-X. —Ela se recostou, pensando em voz alta. —Parece só um joelho deslocado. Já vi vários, coloquei uns dois no lugar no campo. —Era como se ela estivesse se dando um discurso de incentivo.

—Talvez a gente devesse chamar ajuda médica ou tentar chegar num hospital. Sei lá, deixar os profissionais fazerem isso —disse Elle, desconfiada.

—Você acha que vai aparecer uma ambulância aqui, mesmo que a gente conseuisse ligar —e eu nem tenho celular—, é isso? —retrucou Anara, seca, calando a adolescente.

Quinze minutos.

Um pano na boca.

Gritos abafados.

E suor na testa de Anara, porque colocar um joelho no lugar numa adolescente não é a mesma coisa que fazer isso como alguém devidamente treinado.

Ela juntou dois pedaços de madeira pra usar como talas e outro pra servir de bengala, porque Elle não podia ficar ali. Elas tinham que se mover.

Nenhuma das duas parou pra pensar na conveniência de encontrar talas e uma bengala perfeitas no meio daquela mata —só muito mais tarde.

Quando Anara ajudava a Elle, gemendo e reclamando, a ficar de pé, um chiado cortou o ar que, fora isso, estava silencioso.

As duas se encararam num “Você ouviu isso?” mudo antes de erguerem os olhos pro alto quando o som se repetiu.

Então veio um anúncio monótono, quase robótico, que fez um arrepio correr pela espinha delas e as deixou paralisadas, atônitas, sem acreditar:

"Bem-vindos, Homo sapiens... Vocês estão... todos... todos ... sendo testados para provar sua teoria da sobrevivência do... do mais apto. Vocês estão em um ambiente sintético, feito para testá-los até os seus... seus... seus limites, em todos os sentidos. Há um portal de volta para o seu lar que só vai se abrir... ... só com uma chave. A chave tem três partes; nenhuma parte funciona... funciona sozinha. Trabalhem juntos ou sozinhos, mas ninguém passa sem encontrar e combinar as partes da chave e ativar o portal (eco mecânico: 'portal, portal').

Boa sorte!"

Aquele final soou debochado, mas, na cabeça de Anara, muita coisa fazia sentido —e levantava ainda mais perguntas. O quebra-cabeça tinha acabado de evoluir do 2D pro 3D.

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