Capítulo 5
Por um bom tempo, nenhuma das duas se mexeu.
O choque de quase morrer — e de ser salva por um estranho que elas não sabiam se era aliado ou inimigo — deixou as duas paralisadas.
Até que o estranho falou:
— De nada, senhoritas.
A voz dele era macia, calma, grave — como um oceano em repouso, mas com um mundo inteiro escondido por baixo.
— Ai, graças a Deus... — Elle murmurou atrás de Anara e literalmente desabou de costas, olhos fechados, respirando fundo de alívio, o cabelo espalhado na terra úmida do bosque.
Anara, por outro lado, não tinha esse luxo de relaxar na hora — nem de confiar de imediato. Ela estreitou os olhos para ele enquanto se levantava, sem baixar a faca que tinha puxado por causa da fera abatida.
— Tira o capuz — ordenou, com voz de policial.
— Eita, oficial... vamos marcar um encontro antes — ele respondeu, enquanto balançava a espada e espirrava do metal um respingo do resíduo roxo-berinjela do bicho. O tom dele era brincalhão demais para o humor dela e para a situação. Para Anara, aquilo soava suspeito, não charmoso.
— Eu não vou repetir — ela avisou, lançando um olhar rápido para a arma caída, não muito longe dali.
Ele foi com calma, limpou a lâmina e depois encaixou a espada na bainha presa atrás das costas.
— Obrigada, senhor! — Elle gritou atrás dela.
Anara se segurou para não revirar os olhos. Essa menina não tinha nenhum instinto de autopreservação.
— Pelo menos uma de vocês tem educação — ele disse e, enfim, começou a tirar o capuz. Devagar. Devagar demais. Tão dramaticamente lento que Anara teve vontade de ir até ele e arrancar aquilo com a mão. Ela sabia que ele estava fazendo de propósito, só para irritá-la.
Mas toda a impaciência e a paranoia dela evaporaram num instante, engolidas pela incredulidade, quando o capuz caiu e revelou o rosto dele.
— Mas que...?! — escapou dos lábios de Anara, atônita, encarando-o.
— Eu sei, eu sei... pode admirar à vontade. Não cobro — ele deu um meio sorriso, sabendo por que ela estava olhando, e não tinha nada a ver com ele ser bonito.
— Ué... por que você é azul?! — Elle exclamou do chão, onde estava sentada, fazendo a pergunta que Anara tinha na ponta da língua — junto com: “E seus olhos são amarelos?!” Essa menina precisava aprender a ler o clima.
Só que o estranho, com pele azul e olhos amarelos — em traços humanos, por sinal, bem marcantes — não pareceu se incomodar. Na verdade, parecia estar se divertindo com as reações delas.
— O quê? Não me diga que vocês nunca conheceram um Kryll de Zoran, da Cordilheira da Estrela do Norte — os olhos amarelos dele quase brilhavam enquanto Anara encarava, sem saber se estava sonhando, alucinando ou simplesmente ficando maluca de vez.
— Você é... um alienígena — Anara finalmente murmurou, juntando as peças entre as palavras dele, a aparência e o anúncio que tinha começado mais cedo.
— Bom, tecnicamente, você é alienígena pra mim — ele respondeu com um sorrisinho, como se não tivesse ouvido o anúncio de “sobrevive o mais forte” — ou como se não tivesse sido ele quem provocou aquilo. De todo jeito, ele deu um passo na direção de Anara. — De qual aglomerado de planetas você é? — perguntou, como se estivesse perguntando de que bairro ela vinha.
— O quê? — A estranheza das ações dele, das palavras e da aparência fez a paranoia e a desconfiança de Anara recuarem, por um momento, para o fundo da cabeça.
Ele a examinou da cabeça aos pés, como se estivesse avaliando, e deixou o olhar parado no peito dela um segundo a mais do que devia, num tipo de apreciação descarada, antes de descer devagar e depois subir de novo. Aproveitando a confusão dela, ele completou:
— Pele clara, sangue vermelho… um e cinquenta e… quanto? Cinquenta e oito? Sessenta e poucos? Eu diria: terráquea. Acertei? Via Láctea? Sistema solar da estrela Sol. A gente tem documentários sobre a sua espécie.
Então ele deu mais um passo na direção dela.
— Eles não disseram que você é mais bonita ao vivo do que na tela.
Era óbvio: ele estava tentando provocar.
E conseguiu.
Porque aquilo estourou a bolha de incredulidade em que ela estava. Anara ergueu a faca de novo, mais firme, e falou num tom mais duro:
— Quem é você?
E emendou a pergunta que vinha martelando desde o instante em que ele tinha abatido a fera:
— E de onde diabos você saiu?
— Ooh… — Ele lançou um olhar para Elle, como se agora eles fossem aliados, antes de encarar Anara de novo. — Mandona… eu gosto disso.
— Eu juro que, se você não começar a responder… — ela começou a ameaçar, com a paciência no fim.
Ele levantou a mão, soltando uma risada grave, e em vez de avançar nela, deu um passo na direção do monstro morto, deixando claro que tinha parado de brincar. O sorriso de canto diminuiu, mas não sumiu de vez, como se fosse parte permanente do rosto dele.
— Tá bom, tá bom, Kizha — ele soltou uma risadinha, em rendição, mas acrescentou: — Quer dizer “tigresa” em zórquis, a nossa língua, aliás.
E ainda teve a audácia de piscar para ela depois.
Aquilo foi a gota d’água, mas ela nem teve tempo de explodir, porque ele começou a falar:
— Eu sou o príncipe Dravian Kryll, filho de Xareath Kryll Terceiro, governante de Zoran, o maior planeta guerreiro da constelação da Estrela do Norte.
Para Anara, ele não soou orgulhoso da própria linhagem. A entonação parecia certa, mas não chegava nos olhos. Mesmo assim, ela não tirou conclusão nenhuma; não conhecia Zoran, zórish, zorain… seja lá o que fosse. Ela não estava acostumada às expressões de alienígenas.
— Eu acordei nessas matas ontem, depois que algum OVNI idiota me abduziu. Tô vagando desde então. Ainda bem que eu estava com o meu Voltar de confiança… ou vocês duas não estariam vivas.
O sorrisinho irritante voltou quando ele se virou para Anara, depois de conferir alguma coisa no corpo decapitado da besta.
— Então você foi sequestrado, convenientemente estava com a sua arma, e nos encontrou logo depois do anúncio pra “salvar o dia” antes de a gente morrer? — Anara fez aspas no ar para deixar claro que não acreditava naquela história.
— O quê? — Ele quase riu, achando que ela estava brincando. — Você acha que eu inventaria isso?
Mas aí viu o quão séria ela estava e completou, caindo a ficha:
— Você acha mesmo que eu inventei isso.
— Por que não? — ela desafiou.
Aquilo não caiu bem. Os olhos dele se estreitaram. Pela primeira vez, o sorriso sumiu completamente — e, com ele, a leveza brincalhona, substituída por uma sensação de perigo que não estava ali antes.
Então ele fez o que um cara como ele faria numa situação dessas:
— Bom, nesse caso, se diverte tentando entender tudo sozinha, com uma garota que nem consegue ficar em pé.
Ele devolveu o desafio e se virou para ir embora, puxando o capuz de volta, do mesmo jeito que tinha aparecido, sem esperar por mais desconfiança, ordens ou provocações da Anara, enquanto a pobre Elle ficava sentada no chão, com os olhos indo de um para o outro — entre os dois estranhos que tinham salvado a vida dela no mesmo dia e que tinham acabado de discutir como um casal velho.
Dravian sumiu mata adentro, de capuz e sobretudo de couro, sem olhar para trás, deixando as duas encarando a direção por onde ele foi com mais perguntas do que antes. E, de algum jeito, aquilo incomodou Anara mais do que deveria.
