Capítulo 6
— Ahm… oficial, não era pra gente ir atrás dele? — Elle tirou Anara do desconforto ao ver Dravian sumir tão de repente quanto tinha aparecido.
— Não. A gente não pode confiar em ninguém — respondeu Anara, embora os olhos continuassem grudados nas árvores que tinham engolido Dravian minutos antes.
— Mas ele salvou a gente — Elle insistiu.
— E você agradeceu. Estamos quites. — Anara encerrou o assunto. Ela tinha preocupações mais importantes do que alienígenas confusos, ainda que bonitos. — Vem… você consegue se mexer?
Anara chegou mais perto de Elle para ajudá-la a se levantar, conferindo se o joelho permitia qualquer mobilidade.
— Acho que sim… — Elle tentou soar mais corajosa do que se sentia, e Anara percebeu o teatro.
— A gente precisa de água e abrigo se quiser sobreviver até conseguir voltar pra casa — Anara tentou soar mais confiante do que estava.
— Pra onde? — perguntou Elle, enquanto Anara a colocava de pé, testava o movimento do joelho e a ajudava a mancar apoiada numa bengala improvisada.
Anara não respondeu de imediato. Em vez disso, olhou ao redor. Ela era detetive, não especialista em sobrevivência, mas isso não significava que não soubesse o básico de orientação quando se está perdida em terreno desconhecido.
Ela usou o método mais antigo de qualquer manual: fincou um graveto no chão e observou o Sol por quinze minutos para achar as direções. Depois, pegou uma corda na mochila de Elle e amarrou ao próprio tronco, deixando-a arrastar atrás delas enquanto caminhavam, para terem certeza de que não estavam andando em círculos.
Elle não questionou os métodos de Anara, simplesmente porque não tinha experiência com sobrevivência e estava mais concentrada na própria dor.
Elas começaram a andar, e as horas se borraram em suor, fome e pernas latejando. As duas seguiram em frente muitas vezes na pura teimosia, como se desistir não fosse uma opção.
Mas, quando o dia virou noite e o frio da mata começou a entrar nos ossos junto com a escuridão que se aproximava — e tudo de desconhecido que ela podia trazer —, as duas ficaram inquietas.
O silêncio estranho da floresta, que tinha assombrado as duas o dia inteiro depois que Dravian foi embora, ficou quase sufocante conforme a noite se fechava ao redor delas. Em silêncio, Elle mancou um pouco mais para perto de Anara, enquanto Anara mantinha um olho em Elle e o outro no entorno, como se esperasse a criatura voltar de trás de cada grupo de árvores, a arma erguida instintivamente, destravada.
Nenhuma das duas disse nada, mas a cada passo as duas se preocupavam mais se iam conseguir — não chegar em casa, só aguentar até a manhã. E, além disso, desconfiar de Dravian começava a parecer cada vez mais uma decisão ruim. Porque ele tinha sido o único outro ser vivo que elas encontraram que não estava tentando matá-las. A suspeita de Anara ainda existia, mas por dentro ela se debatia, perguntando-se se não devia ter dado a ele o benefício da dúvida.
Mas tudo parou quando elas viram uma luz tremeluzente entre as árvores.
As duas trocaram um olhar, com o coração falhando uma batida. Elle quis acreditar que era a fogueira de Dravian. Anara torceu para não ser uma miragem — ou pior, um teste. Nenhuma disse em voz alta o que esperava. Mas a decisão estava tomada. Elas foram naquela direção.
A luz aumentou conforme se aproximavam.
Os passos delas vacilaram quando ouviram vozes; ao chegar perto o bastante, perceberam que a luz vinha de uma fogueira e que havia pessoas ali, falando inglês.
Elle abriu a boca para pedir ajuda, se expondo na hora. Anara tapou a boca dela com a mão, encarando-a com dureza.
— Psiu. A gente não sabe se são hostis — sussurrou Anara, e a esperança sumiu dos olhos cansados de Elle, que deixou os ombros caírem.
Anara se aproximou o mais silenciosamente que conseguiu. As vozes ecoavam no silêncio sinistro da mata. Mas, enfim, ela conseguiu distinguir pessoas ao redor da fogueira.
O que ela viu fez uma esperança de verdade tremular no peito pela primeira vez naquele dia.
Mulheres, adolescentes, homens, em barracas improvisadas ao redor de uma fogueira enorme. Umas cinquenta pessoas — e claramente nem todas eram humanas. Anara notou pelo menos dois alienígenas de pele verde-sálvia e cabelo vermelho como fogo.
— Eu sugeriria que você se decidisse logo. Sua companheira não aguenta ficar em pé por muito mais tempo — disse uma voz grave e calma, vinda de cima.
Elle quase deu um grito de susto quando Anara apontou a arma para a figura alta que saltou da árvore exatamente debaixo da qual as garotas estavam escondidas para observar o grupo.
O homem ergueu as mãos para mostrar que estava desarmado e não fez menção de se aproximar nem demonstrou hostilidade. Pelo contrário: ele irradiava uma calma e uma naturalidade que inspiravam confiança.
— Sou o sargento Ethan Cole, do Exército dos Estados Unidos, oferecendo abrigo a todos os sequestrados, independentemente de gênero, idade ou… planeta de origem — disse ele, com um sorriso pequeno que chegou aos olhos.
— Exército dos Estados Unidos? Isso quer dizer que o governo sabe onde a gente está? A gente foi resgatada? Acabou? — Elle disparou, numa esperança desesperada.
Ethan coçou a nuca, e os ombros caíram um pouco.
— Infelizmente, acho que ninguém sabe que estamos aqui. Eu também sou um dos sequestrados.
— Ah… — a animação de Elle desmoronou.
Mesmo com o cérebro de Anara a mil, as primeiras palavras dela surpreenderam as duas:
— Eu sou Anara, e esta é a Ella. A gente precisa de ajuda.
Sim, Anara Deniz, a desconfiada e paranoica, estava pedindo ajuda a um completo desconhecido. Mas a decisão não foi tão impulsiva quanto pareceu. Ethan não era draviano. Com calça camuflada e colete, as plaquetas militares pendendo no peito musculoso, ele transmitia confiança pela linguagem corporal — e, principalmente, pelos olhos, que Anara fazia questão de ler nas pessoas.
— Claro. Tem água, comida e ataduras improvisadas. Venham — disse ele, movendo-se devagar para carregar Elle em direção à comunidade, como se fosse a coisa mais natural do mundo ajudar uma menina ferida, levá-la em segurança e dividir suprimentos.
— Você vai simplesmente dividir tudo? — Anara não conseguia desligar completamente a paranoia.
Ethan riu. Não foi aquele sorrisinho convencido dos dravianos. Foi um riso quente, que enchia o peito e vibrava no ar.
— A gente quer voltar pra casa, não quer? Pra que guardar a sobrevivência só pra si?
— Obrigada — ela disse antes que pudesse recuar de novo para a desconfiança. Elle percebeu, mas ficou calada.
Em poucos instantes, eles foram notados, e Ethan encaminhou Elle a um dos de pele verde, explicando que ele era bom com ervas e analgésicos.
Enquanto Anara ficava na borda do grupo, perdida em pensamentos, Ethan parou ao lado dela.
— Inacreditável, né? — ele falou, calmo apesar da situação, com os olhos na mesma fogueira que Anara encarava antes de ele chegar.
— Eu tô com medo — ela sussurrou, mais para si mesma do que para ele, mas foi a presença dele que permitiu que ela admitisse aquilo, nem que fosse só um pouco.
Ethan se virou para ela e, sem dizer nada, com cuidado — dando a ela toda a chance de resistir — puxou Anara para um abraço. Ela deixou, porque, depois do dia que teve, precisava daquilo. Então ela se permitiu relaxar contra ele pela primeira vez desde que acordara na floresta.
Aí, a sensação voltou.
Olhos.
Observando de onde eles tinham vindo, fazendo os pelos da nuca dela se arrepiarem.
