Capítulo 7

—Ethan! Você devia… —uma voz carregada de urgência interrompeu os dois.

Eles se afastaram. O recém-chegado acrescentou: —Foi mal, é que… aconteceu uma coisa. Você precisa ver…

—Anara, você vai ficar bem? —Ethan checou, e ela se virou para ele com um sorriso e assentiu. —Vou, vou… pode ir.

Ele era um fofo por tentar cuidar de todo mundo. Mas ela via a tensão nos ombros dele e as olheiras fundas, como se já fizesse um tempo que ele não dormia direito.

Ela deixou Ethan ir com o garoto que tinha vindo chamá-lo. Uma parte dela queria ver o que estava acontecendo, mas ela ainda precisava de um minuto para se recompor. Então, com os olhos na mata escura e silenciosa, ficou sozinha, abraçando a si mesma.

Ela encarava aquele vazio quando achou que viu algo se mexer entre os troncos. A escuridão da noite e o cansaço faziam ela querer acreditar que era o vento ou a imaginação, mas a verdade é que não tinha vento nenhum naquela floresta estranha desde que eles chegaram. E sim, talvez ela estivesse cansada, mas não a ponto de começar a ter alucinação. Ela teve certeza de que havia alguma coisa —ou alguém— na mata quando viu a sombra saltar de uma árvore para outra. Instintivamente, deu um passo para trás, em direção à fogueira e ao grupo.

Ela podia ser muita coisa; burra não era uma delas. Não ia confrontar aquilo sozinha só porque tinha uma arma que tinha se recusado a funcionar contra a criatura mais cedo.

Ela se distraiu com o alvoroço e se virou a tempo de ver Ethan carregando um adolescente mais ou menos da idade da Elle, com a perna ensanguentada, em direção a uma tenda improvisada. Anara correu até eles. Precisava saber o que tinha acontecido e também avisar Ethan sobre o que tinha visto na mata.

—O que aconteceu? —Anara perguntou ao entrar na tenda.

Ethan levantou o olhar. —Nada com que se preocupar, foi só um arranhão —ele deu aquele sorriso tranquilizador que as pessoas dão para crianças, em vez de explicar as coisas direito. Isso irritou um pouco Anara.

—A perna dela tá sangrando. Isso é mais do que um arranhão, Ethan. Cadê aquele papo de que a gente tá todo mundo tentando sobreviver? —ela falou, num tom mais irritado do que realmente se sentia.

—Ooh, quem é ela, Ethan? Eu gostei dela —a garota, que Anara deduziu ser Nicole, deu um sorriso torto apesar da dor na perna, que Ethan estava limpando e enfaixando, junto com a mulher de pele verde a quem Ethan tinha encarregado de cuidar da Elle.

Ethan soltou um suspiro, olhando de uma para outra —Nicole, Anara e a mulher de pele verde, que inclinou a cabeça para ele, quase com um ar maternal.

—Vai. Ela vai ficar bem.

Ethan se levantou na mesma hora. —Vem, eu te explico. —Ele se virou para Anara enquanto limpava o sangue das mãos.

Anara o seguiu em silêncio, até Ethan ir até um riacho ali perto, onde eles tinham montado o acampamento por causa da água fresca. Ele lavou as mãos, e Anara finalmente deixou os lábios secos tomarem um gole.

Ethan ficou ali, paciente, observando ela beber, até ela se endireitar e limpar o queixo com a manga. Anara se virou para ele esperando uma resposta, e Ethan passou a mão pelo cabelo.

—Quando a gente montou essa comunidade, a gente tinha regras. A gente tem regras. —Ele começou a contar nos dedos. —Nada de sair do perímetro da comunidade em nenhuma hora do dia. Você já viu como essa mata é esquisita. Nada de ir sozinho pra lugar nenhum. E, aconteça o que acontecer, garante que mais de uma pessoa saiba, pra ninguém ficar isolado. —Ele tentou aliviar o clima, sem sucesso. —É assim que a maioria dos personagens morre em filme de terror.

Mas, quando ela não sorriu, ele pigarreou.

— Hum… A Nicole achou que viu um coelho. A gente não viu bicho nenhum por aqui desde que chegou, mas ela parecia bem certa. E foi atrás. Acabou caindo num buraco no chão, não muito longe daqui.

— O que um buraco desses tá fazendo no meio da mata, fundo o bastante pra fazer a perna de uma garota sangrar daquele jeito? — o lado detetive da Anara entrou em ação.

Ele deu de ombros.

— Nada nesse lugar faz sentido. Eu já parei de questionar. Tem gente dependendo de mim. — Ele falou como se carregasse um peso de verdade nos ombros, e a Anara sentiu uma pontada de culpa por ter soado irritada com ele mais cedo; o coitado só estava tentando impedir que tudo desmoronasse sozinho.

— Eu vou ver a Nicole. — Ele se virou pra sair, e a Anara acrescentou: — Não sei de coelho nenhum, mas eu tenho certeza de que vi alguma coisa, grande, pulando nas árvores mais cedo. Tava escuro demais pra ver detalhes, mas, se eu tiver que chutar, era do seu tamanho.

Ethan parou. Ele não perguntou se ela tinha certeza; só assentiu e foi embora, num “eu resolvo, valeu por avisar”.

Ela ficou ao lado do riacho por um instante, até a curiosidade analítica vencer. Olhou para o acampamento, mas quando viu já estava indo na direção que Ethan disse que a Nicole tinha caído no buraco. Ela sabia que devia avisar alguém ou levar alguém junto, como ele disse, mas e se alguma coisa acontecesse durante a noite? Alguma coisa pior? Ela confiava no próprio instinto.

— Que lugar é esse? — ela resmungou, se afastando do acampamento, guiada por aquela intuição que, no trabalho, fazia ela seguir rastros de serial killer.

Quanto mais se afastava do som da água correndo, mais tudo ficava escuro, úmido e silencioso de um jeito sinistro. Mas ela não parou. Precisava ver o buraco, como se uma parte dela soubesse que não era tão comum quanto o Ethan estava fazendo parecer.

— Ah! — ela soltou um suspiro engasgado quando escorregou de repente, perdendo não só o equilíbrio, mas também o chão sob o pé. Sentiu o pé se enroscar em raízes nas paredes do buraco até ficar pendurada de cabeça pra baixo no escuro, se xingando por não ter feito aquilo durante o dia. — Porra! — ela exclamou.

Mas ela não era do tipo que desistia. E, mais importante, por causa do trabalho, estava acostumada a treinar. Então tinha condicionamento suficiente pra tentar soltar o tornozelo usando só a força do abdômen.

Até que ela ouviu um zumbido mecânico vindo da parede, bem ao lado da orelha. Achou que podia ser o sangue subindo pra cabeça, mas não: ela já tinha ficado de cabeça pra baixo antes. Aquilo era som mecânico mesmo, tipo um computador esquentando de tanto esforço e a ventoinha tentando resfriar.

— Precisa de ajuda, Kizha? — uma voz conhecida, agradavelmente grave, cortou o silêncio da noite, misturada à respiração pesada dela por estar pendurada.

— Que diabos você tá fazendo aqui? — ela gritou, mais irritada com ela mesma por estar naquela situação do que com ele… embora se convencesse de que era o contrário.

— Eu sabia que você era problema desde o momento em que atirou naquela criatura. Não consegui ficar longe. Me processa depois que eu te tirar daí — ela praticamente ouviu o sorriso dele, e isso deu nela uma vontade de apagar aquilo da cara dele… mas, pra isso, teria que aceitar a ajuda.

Ela cerrou os dentes. Odiava ficar impotente. Pior ainda: odiava ficar à mercê de estranhos flertadores.

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