Capítulo 1

Kara

A dor me acorda às três da manhã.

Não é aquela dor surda de exaustão — essa eu já conheço bem pra caralho. Não é a ardência aguda de um roxo novo — também tenho vários desses. Isso é diferente. Vem de dentro, como se alguma coisa estivesse tentando sair, arranhando meus ossos por dentro.

Eu engasgo e me enrolo toda no colchão fino. Minha coluna estala — tec tec tec — cada vértebra se mexendo como dominó caindo em câmera lenta. O som é úmido, orgânico, errado.

Meu Deus. Merda. Que porra é essa?

Minhas omoplatas queimam como se alguém tivesse encostado ferros em brasa nelas, de dentro pra fora. Eu mordo o travesseiro pra não gritar. Não posso deixar eles ouvirem. Não vou dar o gostinho de saberem que eu tô com dor.

Não no último dia. Nem pense em quebrar logo no último maldito dia.

Eu me forço a ficar sentada, cada movimento trazendo novas ondas de agonia pelo meu esqueleto. O quartinho de depósito — meu “quarto” nos últimos dez anos — está totalmente escuro, exceto pelo brilho verde fraco da aurora boreal dançando do lado de fora da única janelinha. Trinta de novembro, no Alasca, significa sem nascer do sol, sem pôr do sol. Só noite sem fim.

Igual à minha vida nessa porra de casa.

Cambaleio até a janela e encosto a testa no vidro congelado, desesperada por alívio. Minha pele tá queimando. Não preciso de termômetro pra saber que tô com febre — pelo menos uns 40 graus, talvez mais. Minhas mãos tremem enquanto eu agarro o parapeito.

Tô morrendo? É isso? Dez anos de inferno pra morrer num quartinho de depósito na noite antes de finalmente ficar livre?

A ideia dá vontade de rir. Ou chorar. Ou os dois. Em vez disso, eu só encaro o calendário de parede que venho mantendo há anos. X vermelhos riscam cada dia, igual preso marcando contagem regressiva pra liberdade. A data de amanhã tá circulada três vezes de canetão: 1º de dezembro. Meu aniversário de dezoito anos.

O dia em que esse pesadelo finalmente acaba.

O dia em que eu posso finalmente ir embora daqui e nunca mais olhar pra trás.

“Só mais um dia”, eu sussurro pra minha própria imagem no vidro. A garota que me encara parece a morte — olheiras fundas embaixo dos olhos castanhos, pele pálida e esquisita, cachos dourados e cheios murchos, grudados de suor. “Você aguenta mais um dia, Kara. Você já sobreviveu a coisa pior.”

Mas será mesmo? Essa dor… não é normal. E se eu desmaiar antes de conseguir fugir? E se me encontrarem morta aqui dentro e só derem de ombros, chamarem de “causas naturais” e me largarem numa cova sem nome em algum lugar?

Não. Eu finco as unhas na madeira com tanta força que sinto as farpas entrando. Você não vai morrer nesse quarto. Não dá esse prazer pra esses desgraçados.

A aurora lá fora tremeluz, a luz verde lavando o terreno coberto de neve. Por um instante, eu sou puxada de volta — não pro quartinho de depósito, mas pra outra noite fria. A noite mais fria da minha vida.


Dez anos atrás. 1º de dezembro. Meu aniversário de oito anos.

A gente tava dirigindo há horas, as mãos do meu pai brancas de tanto apertar o volante, minha mãe chorando baixinho no banco da frente. Eu ia atrás, abraçada no meu lobo-do-átrio de pelúcia, sem entender por que a gente tava deixando nosso apartamento no meio da noite, por que minha mãe ficava repetindo “me desculpa, meu amor, me desculpa” sem parar.

O Solar da Meia-Noite surgiu no meio da neve como coisa de pesadelo. Enorme. Escuro. Cercado por um deserto branco sem fim.

— Kara —, disse meu pai, parando o carro em frente aos portões de ferro. A voz dele tremia. — Princesa, a gente precisa que você seja forte.

— A gente vai visitar alguém? — perguntei.

Minha mãe fez um som que parecia um animal ferido.

Meu pai saiu do carro, deu a volta e abriu minha porta. O frio me acertou como um soco — eu nunca tinha sentido um frio daqueles, do tipo que atravessa o casaco e entra nos ossos.

Ele se ajoelhou na neve, ficando na altura dos meus olhos. Os olhos dele estavam vermelhos. Ele também tinha chorado.

— A gente precisa que você fique aqui por um tempo — ele disse.

— Quanto tempo?

— Só... só até a gente resolver umas coisas. Do trabalho. E... e de outras coisas também.

— Mas hoje é meu aniversário — sussurrei. — Você disse que ia ter bolo.

Ele me puxou para um abraço tão apertado que eu mal conseguia respirar. O corpo inteiro dele tremia. — Eu sei, meu amor. Eu sei. Me perdoa. A gente vai voltar pra te buscar. Logo. Eu prometo.

— Connor, a gente tem que ir — disse minha mãe de dentro do carro, a voz grossa de choro. — Eles... a gente não pode...

— Eu sei! — meu pai retrucou, e logo em seguida amoleceu o tom. — Eu sei, Celeste. Só... me dá um minuto.

Ele se afastou um pouco, segurando meus ombros. — Escuta, Kara. As pessoas daqui são... são família. De certo modo. A esposa do irmão da sua mãe. Ela aceitou deixar você ficar.

— Por que eu não posso ficar com vocês?

— Porque... — A voz dele falhou. — Porque o papai cometeu alguns erros, e agora a gente precisa consertar isso. Mas você vai ficar segura aqui. Tá bom? Você vai ficar segura.

Segura. A palavra já parecia errada naquela hora.

Minha mãe saiu do carro, tropeçando na neve com o salto fino. Ela apertou meu lobo de pelúcia contra o meu peito. — Cuida de você, meu amor — soluçou. — Se comporta. Seja corajosa. A gente te ama demais.

— Mãe...

— A gente tem que ir — disse meu pai, e de repente os dois já estavam de volta no carro. O motor roncou.

— Espera! — eu gritei. — Pai! Mãe! Não me deixem aqui!

Mas o carro já estava andando, as lanternas traseiras sumindo no meio da neve.

Fiquei ali parada, com oito anos de idade, no meio de uma noite de inverno no Alasca, só com uma mochila e um lobo de pelúcia, gritando até minha voz acabar. — Volta! Por favor, volta!

Os portões se abriram atrás de mim.

Uma mulher estava ali — alta, elegante, envolta em um casaco grosso de pele. O rosto dela era bonito e frio como a neve ao nosso redor.

— Pare com essa gritaria — ela disse. Não de forma cruel, mas também não carinhosa. Só... cansada. — Você vai acordar as crianças.

— Meus pais...

— Já foram. E não vão voltar. Pelo menos não hoje à noite. — Ela me encarou por um longo momento, algo complicado passando pelo rosto dela. Dor, talvez. Ou raiva. — Seu pai é meu... ele é família. E família ajuda família. Mesmo quando... — Ela se interrompeu. — Entra antes que você congele.

— Mas eles disseram...

— Eu sei o que eles disseram. — Ela virou as costas. — Pegue sua bolsa. A partir de hoje, você vai trabalhar pra pagar o que seus pais devem. Quarto e comida não são de graça.

Eu tinha oito anos. Eu não entendia palavras como “dívida” ou “dever”. Eu só entendia que meus pais tinham me deixado na neve no dia do meu aniversário, e que aquela mulher fria, de olhos verdes, era tudo o que eu tinha.

Então peguei minha bolsa e segui atrás dela para a escuridão da Mansão Midnight.

Eu nunca mais saí de lá.

Próximo Capítulo