Capítulo 2
Kara
Às seis da manhã, estou na cozinha, agarrada na bancada de mármore para conseguir ficar de pé.
A dor se espalhou por tudo. Minhas mãos latejam. Meus pés doem. Cada articulação parece estar sendo arrancada e remontada do jeito errado. O suor escorre pela minha coluna mesmo eu estando tremendo de frio. Mas eu me obrigo a me mexer, a funcionar, a fingir que está tudo bem.
Porque hoje é a semana de aniversário deles. Os trigêmeos Sterling fazem vinte anos amanhã — no mesmo dia em que eu faço dezoito. E a Luna Victoria deixou uma lista pra mim ontem à noite: waffles de mirtilo, bacon com maple, ovos mexidos, linguiça, suco de laranja espremido na hora.
Tudo o que eles mais gostam.
Nada pra mim, claro. Nunca tem.
A criadinha ingrata e endividada não pode esperar comer a mesma coisa que os futuros Alfas, né?
Abro a geladeira, e o ar gelado bate no meu rosto como um tapa. Minhas mãos tremem tanto que quase derrubo a caixa de ovos.
Concentra, Kara. Só precisa aguentar o café da manhã. Só mais algumas horas.
— Bom dia, Cenoura.
Eu me sobressalto. Blake aparece atrás de mim de repente, a estrutura enorme bloqueando a luz. Não ouvi ele entrar — meus ouvidos estão zumbindo, tudo soa abafado e distante, como se eu estivesse debaixo d’água.
— Você tá um lixo — ele continua animado, esticando o braço por cima de mim pra pegar o prato inteiro de bacon que acabei de fritar. — Provavelmente nem deviam desperdiçar comida com você mesmo. Você vai embora amanhã, né?
Meu estômago se contrai com força. Eu não como nada desde ontem de manhã — alguém pegou a barrinha de proteína que eu tinha guardado pro jantar. E agora ele tá levando o bacon que eu passei vinte minutos fazendo.
Claro que tá. É claro que ele tá, porra.
— Blake — a voz do Asher corta a cozinha. Fria. Controlada. A voz de quem nunca passou fome um único dia na vida privilegiada que tem. — A mesa tá esperando.
Blake me lança um sorrisinho de canto — Deus, como eu odeio esse sorriso — e vai embora com o meu bacon. Todo ele. Eu aperto ainda mais a borda da bancada, me forçando a não tremer, a não mostrar fraqueza, a não mandar ele se foder.
Só mais um dia. Você não pode estragar tudo agora.
— Os talheres não estão polidos o suficiente — Asher diz, sem olhar pra mim. — Faz de novo.
Eu encaro os garfos perfeitamente limpos. — Sim, Alpha — sussurro.
Babaca.
Cole aparece na porta, todo solzinho falso e covinhas que provavelmente fazem outras garotas derreterem.
— Cenoura! Você não vai ficar doente logo no seu último dia, né? Ia ser trágico.
Ele estende a mão como se fosse checar minha testa, e eu não consigo evitar — me afasto num sobressalto. Memória do corpo. Da última vez que ele me tocou “de boa”, eu acabei abandonada numa nevasca.
O sorriso dele não vacila. Ele toca minha testa assim mesmo, depois faz questão de limpar a mão na calça jeans.
Como se eu fosse contagiosa. Como se eu fosse suja.
Vai se foder você também, Cole.
Minha visão embaça por um segundo. De febre ou de raiva, já nem sei mais. A cozinha se inclina de lado e eu preciso travar os joelhos pra não cair.
Não chora. Nem pensa em chorar na frente deles.
Eu fiz essa promessa sete anos atrás, e não vou quebrar agora. Não quando estou tão perto de conseguir minha liberdade.
Sete anos atrás. Eu tinha onze. Eles tinham treze.
Era um sábado de dezembro, uma semana antes do Natal. Eu estava esfregando o chão da cozinha quando o Cole apareceu, sorrindo como se a gente fosse melhor amigo.
— Ei, Cenoura — ele disse. — Quer brincar de esconde-esconde?
Eu olhei pra cima, confusa. Eles nunca falavam comigo, a não ser pra zoar meu cabelo ou minhas roupas usadas. — O quê?
— Esconde-esconde — Blake disse, chegando atrás dele. — Sabe, aquele jogo que criança brinca? Ah, é — você é praticamente uma criança. Onze anos, né?
— A gente tá entediado — Asher completou, de braços cruzados. — E tá frio demais pra ir pra cidade. Então… esconde-esconde. Topa?
Eu devia ter dito não. Devia ter percebido a armadilha. Mas eu tinha onze anos, estava sozinha pra caralho e tão faminta por qualquer migalha de gentileza humana que caí direitinho.
— Tá bom — eu disse, e odiei o quanto minha voz soou empolgada.
Eles me levaram pra além do rio congelado, até o campo de treinamento onde os guerreiros da matilha praticavam. Depois dali era só… mato. Quilômetros e quilômetros de branco, de nada.
— As regras são simples — Blake disse. — A gente conta até cem. Você se esconde. Em qualquer lugar que quiser. Quanto melhor o esconderijo, mais legal vai ser.
— E se você chegar até meia-noite sem a gente te achar — acrescentou Cole, com aquele sorriso de covinha —, você ganha.
— O que é que eu ganho? — perguntei.
— Um dia inteiro sem tarefas — disse Asher. — Amanhã. Você pode fazer o que quiser.
Um dia de folga. Um dia inteiro de folga. Eu não lembrava da última vez que tinha tido uma coisa dessas.
— Fechado — falei.
Eles viraram de costas e começaram a contar. — Um... dois... três...
Eu corri.
A neve era funda, chegava acima dos meus joelhos em alguns lugares. Eu estava só com um moletom fino — eles tinham dito que não ia demorar, que eu não ia precisar de casaco de verdade. Achei uma árvore caída a uns oitocentos metros dali, enorme e antiga, o tronco formando uma espécie de caverna na neve.
Perfeito.
Me arrastei pra dentro, o coração disparado de empolgação. Pela primeira vez em três anos, eu me senti quase... normal. Como uma criança brincando. Como se eu não fosse só a órfã escrava por dívida.
Ouvi a voz deles ao longe: — Noventa e oito... noventa e nove... CEM! Pronta ou não, lá vamos nós!
Prendi a respiração, sorrindo.
Passaram cinco minutos. Depois dez. Depois vinte.
A floresta estava silenciosa, só o vento fazia barulho.
Depois de uma hora, comecei a ficar preocupada. — Ei! — gritei. — Eu tô aqui! Vocês vão passar frio!
Nada.
Saí de baixo da árvore. A temperatura tinha caído — estava escurecendo e, no Alasca, em dezembro, isso devia ser por volta das três da tarde. O céu tinha aquele tom roxo‑preto estranho que aparece antes da longa noite.
— Blake? Cole? Asher? — gritei.
Quem respondeu foi o vento.
Comecei a andar de volta pelo caminho por onde eu tinha vindo, mas a neve tinha coberto minhas pegadas. Tudo parecia igual. Árvores brancas. Chão branco. Céu branco.
Entrei em pânico.
— SOCORRO! — berrei. — ALGUÉM ME AJUDA!
Ninguém veio.
Andei por um tempo que parecia horas, meu moletom fino não segurava nada do frio. Meus dedos começaram a ficar dormentes. Depois os dedos dos pés. Meu rosto parou de parecer parte do meu corpo. Eu não conseguia parar de tremer.
Caí duas vezes. Na segunda, não consegui levantar logo de cara. A neve era tão macia. Tão branca. Seria tão fácil só... ficar ali.
— Levanta — falei pra mim mesma. — Levanta, Kara. Não deixa eles ganharem. Não morre aqui.
Mas eu estava com tanto frio. Tão cansada.
Não sei quanto tempo fiquei deitada ali. Tempo suficiente pra eu começar a me sentir quente de novo — e alguma parte distante do meu cérebro sabia que isso era ruim, sabia que significava que eu estava morrendo.
Foi aí que a patrulha me encontrou.
Os guerreiros da matilha estavam fazendo a ronda da noite. Um deles viu meu moletom azul‑vivo contra a neve. Depois eles disseram que meus lábios estavam roxos, que eu nem estava tremendo mais. Esse é o estágio perigoso — quando o corpo desiste de tentar se aquecer.
Eles me levaram às pressas pro hospital da matilha. Hipotermia grave. Congelamento em oito dedos das mãos e seis dos pés. Os médicos não sabiam se iam precisar amputar.
Passei três dias no hospital.
No segundo dia, a Luna Victoria veio me visitar. Ela ficou aos pés da cama, com o rosto inescrutável. Atrás dela, os trigêmeos exibiam uma preocupação bem apropriada.
— A gente sente muito — disse Cole, com os olhos grandes e inocentes. — Procuramos você em todo lugar. Chamamos seu nome por mais de uma hora.
— A gente achou que você tinha voltado pra casa quando não conseguimos te encontrar — acrescentou Blake. — A gente não sabia que você tinha se perdido.
Asher só ficou ali, de braços cruzados, sem dizer nada. Mas nos olhos dele — por um segundo, eu vi alguma coisa brilhar. Culpa, talvez. Ou satisfação.
A Luna olhou pra mim com aqueles olhos verdes e frios. — Fico feliz que você esteja se recuperando — ela disse. — Mas, Kara, não cause problemas. Esses meninos estavam tentando te incluir, e você transformou isso em drama.
— Eu quase morri — sussurrei.
— Você foi fundo demais na floresta — ela disse. — Isso não é culpa deles. Da próxima vez, use o bom senso.
Ela saiu. Eles foram atrás, e Cole ainda lançou um último olhar cheio de falsa simpatia por cima do ombro, que eu sabia — SABIA — que era falso.
Naquela noite, tremendo debaixo de cobertores de hospital que não alcançavam o frio dentro de mim, eu fiz uma promessa:
Nunca mais confiar neles. Nunca mais acreditar na gentileza deles. Nunca mais deixar que me vissem quebrar.
E nunca, jamais, chorar na frente deles.
