Capítulo 3
Kara
A sala de jantar é uma catedral de riqueza à qual eu nunca vou pertencer.
A luz da manhã atravessa as janelas do chão ao teto, iluminando a longa mesa de mogno carregada com tudo que passei duas horas preparando. Waffles de mirtilo empilhados como torres douradas. Bacon com maple reluzindo de gordura. Ovos mexidos tão fofos que praticamente flutuam. Suco de laranja espremido na hora em jarras de cristal que custam mais do que a minha existência inteira.
Eu fico parada no vão entre a cozinha e a sala de jantar — minha posição permanente nesta casa. Não sou serva o bastante pra ficar escondida. Nem família o bastante pra sentar.
O Alfa Marcus corta o waffle sem levantar os olhos. A Luna Victoria toma o café, os olhos verdes varrendo a tela do celular. Os trigêmeos formam um muro de cabelo preto e maxilares perfeitos, atacando a comida como lobos famintos.
O que é irônico, considerando que eu é que estou há vinte e quatro horas sem comer.
Meu estômago se contrai com tanta força que eu preciso segurar o batente da porta. A dor de hoje de manhã se assentou num latejar constante, fundo, nos ossos. Minhas mãos ainda tremem. O suor encharca as costas da minha blusa térmica gasta, embora eu esteja com frio, tanto frio que meus dentes querem bater.
Só passa pelo café da manhã. Depois você desaba na despensa por cinco minutos antes da escola.
— Kara. — A voz do Asher corta o tilintar dos talheres. — Os garfos estão com marcas d’água.
Eu olho pra mesa, piscando. Os garfos estão perfeitos — eu os poli por vinte minutos ontem à noite, esfregando cada dente até brilhar. Mas quando um Alfa fala, você não discute.
— Sim, Alfa — eu sussurro. — Vou refazer.
Blake dá uma risadinha no suco de laranja.
— A Cenoura tá perdendo a mão. Talvez a dívida esteja deixando você relaxada.
Não reage. Não dá o gostinho pra ele.
Eu vou em direção à mesa pra recolher os talheres, e é aí que a mão do Blake se estica — um borrão de velocidade sobrenatural que eu não acompanho nem quando tô saudável. Os dedos dele se fecham em volta do último waffle do prato de serviço, aquele que eu tava de olho, aquele que eu pensei que talvez, só talvez, eles tivessem esquecido.
Ele leva o waffle à boca, dá uma mordida enorme e sorri pra mim com a boca cheia.
— Hmmm. Delicioso, Cenoura. — Ele mastiga devagar, de propósito. — Você se superou.
Minha mão congela no meio do movimento. Por um segundo — só um — nossos olhos se encontram. Os dele têm a cor de gelo ártico, lindos e vazios de calor. E eu vejo ali, aquele lampejo de satisfação. Ele sabe exatamente o que tá fazendo.
Ele sabia que eu tava com fome. Ele sabia que era o último pedaço. Ele pegou mesmo assim.
Chega. Chega chega chega—
— Obrigada, Blake — eu forço a dizer. As palavras arranham como vidro. — Fico feliz que você tenha gostado.
Cole ri, leve e musical.
— Olha a cara dela. Acho que ela tá realmente puta.
— Linguagem, Cole — diz a Luna Victoria, sem emoção. Depois, pra mim: — Limpe a mesa. E tente parecer menos... ressentida. É deselegante.
Meus dedos se fecham em punhos ao lado do corpo. Deselegante. Como se eu fosse o problema. Como se querer comer a comida que eu mesma fiz fosse um defeito de caráter.
Blake dá outra mordida, mais lenta dessa vez. Saboreando. A língua dele passa pra pegar uma gota de xarope no canto da boca, e eu juro por Deus que ele faz isso de propósito, prolongando, garantindo que eu veja cada segundo dele engolindo o que deveria ter sido meu.
— Guarda o fôlego, Cenoura — ele diz, passando pra aquele tom falsamente simpático que faz minha pele arrepiar. — Você já é cheinha o bastante. Tô fazendo um favor.
Cheinha. Eu uso 38. Tenho curvas porque sou mulher, não um menino pré-adolescente. Mas no mundo dele — no mundo deles, onde as ex-namoradas vestem 34 e parecem manequins caros — ter bunda e peito te torna “gorda”.
O waffle some em quatro mordidas. Ele limpa as mãos no guardanapo, amassa e solta em cima do meu chão recém-limpo.
— Opa — ele diz. — Acho que você vai ter que passar o pano de novo.
Asher se levanta, ajustando o suéter preto de cashmere.
— A gente sai em cinco minutos. Não nos faça chegar atrasados. — Ele faz uma pausa, aqueles olhos azul-gelo finalmente pousando em mim. — E, Kara? Da próxima vez que os talheres não estiverem perfeitos, você refaz todo o café da manhã. Entendido?
"Sim, Alpha."
O Cole vai atrás dos irmãos, mas para na porta. Vira de volta. Por um instante—só um instante—algo quase humano passa pelo rosto dele. Quase como culpa.
Aí ele sorri. "Não se preocupa, Cenoura. Só mais um dia disso, né? Amanhã você tá livre."
Ele fala como se fosse consolo. Como se dez anos de desumanização sistemática pudessem ser apagados por uma porra de contagem regressiva.
Eles vão embora. A porta da frente bate com força. Pela janela, eu vejo o Cadillac Escalade preto deles rugindo ao ligar, cuspindo cascalho e fumaça enquanto o Blake arranca da garagem.
Eles vão pro Northern High. O mesmo lugar onde eu vou.
Mas eu vou a pé.
Dezembro no Alasca não tá de brincadeira.
Às 6h45, o céu ainda é daquele roxo profundo e machucado que conta como manhã durante a temporada de noite longa. Temperatura: quinze graus Celsius negativos. O vento atravessa meu casaco de segunda mão—um dos descartes da Luna Victoria de três anos atrás, o zíper quebrado, as penas de ganso emboladas e inúteis.
Eu enfio as mãos ainda mais fundo nos bolsos e começo a caminhada de três quilômetros até o ponto de ônibus.
A neve tá empilhada até o joelho dos dois lados da estrada. Minhas botas—compradas num brechó quando eu tinha dezesseis anos e já pequenas na época—deixam entrar água a cada passo. Meus dedos dos pés ficam dormentes em cinco minutos. No décimo minuto, não sinto mais o rosto.
Tá tudo bem. Isso é normal. Você já fez isso mil vezes.
Faróis aparecem atrás de mim. Por um segundo idiota e esperançoso, eu penso que talvez eles tenham voltado. Talvez alguém tenha olhado pelo retrovisor e sentido um fiapo de decência humana—
O Escalade passa rugindo, tão perto que eu tenho que me jogar no monte de neve pra não ser atropelada. Uma onda de lama com gelo explode em cima de mim, encharcando meu jeans.
Pelas janelas fumê, eu ouço música. Risadas. A voz do Blake gritando alguma grosseria.
Eles nem diminuem a velocidade.
Eu me arrasto pra fora da neve, as pernas tremendo. Minha calça tá dura de gelo da altura do joelho pra baixo. A água chacoalha dentro das botas a cada passo.
Eu odeio eles. Eu odeio eles tanto que parece um segundo coração batendo. Eu odeio eles eu odeio eles eu odeio—
Amanhã.
A palavra corta a raiva como uma lâmina. Amanhã eu faço dezoito. Amanhã eu vou me transformar pela primeira vez, minha loba finalmente acordando dentro de mim. Amanhã eu vou ter meu próprio cheiro, minha própria força, minha própria autonomia.
Amanhã eu encontro meu par—ou vou embora e nunca mais olho pra trás.
De qualquer jeito, eu termino de ser saco de pancada deles.
O Northern High parece que um paraíso de inverno veio aqui e vomitou em cima da escola.
Fitas prateadas, azuis e brancas pendem de toda superfície disponível. Faixas gigantes anunciam: "CELEBRE OS NOVOS ALPHAS DA MATILHA SILVER FROST! FALTA UM DIA PARA OS TRIGÊMEOS STERLING ASSUMIREM O PODER!"
A entrada principal é ladeada por esculturas de gelo em forma de lobos. Alguém instalou um relógio digital de contagem regressiva no saguão: 23:14:37... 23:14:36...
Os alunos circulam em roupas de inverno caríssimas, tagarelando empolgados sobre a festa de amanhã à noite. As meninas são um mar de casacos Canada Goose e botas UGG. Os meninos usam jaquetas de time e tênis de grife que custam mais do que tudo que eu já tive na vida.
Eu vou pingando neve derretida no piso de mármore polido e tento ficar invisível.
"Meu Deus, você consegue imaginar?" Uma garota perto dos armários guincha pra amiga. "Eles vão ser Alphas oficiais. Tipo, líderes de matilha de verdade. Isso é muito sexy."
"Eu ouvi dizer que o Blake tá finalmente solteiro", a amiga sussurra de volta. "Você acha que eu tenho alguma chance—"
"Você? Por favor. Ele só namora modelo."
Eu deslizo por elas em direção ao meu armário—número 237, enfiado lá no canto onde ninguém precisa ver a bolsista. Minha combinação sempre emperra como de costume. Eu puxo a porta com força e quase pulo de susto quando duas figuras aparecem uma de cada lado.
Sophia e Emma.
As duas altas, as duas loiras, as duas vestidas como se tivessem acabado de sair de um editorial de moda de inverno. Sophia com um suéter de cashmere rosa. Emma com um colete puff branco por cima de uma blusa de gola alta preta, o cabelo preso num rabo de cavalo perfeito lá no alto da cabeça.
