Capítulo 4

Kara

Eu já tinha visto elas por aí — elas orbitam os trigêmeos Sterling tipo satélites de grife — mas a gente nunca tinha se falado de verdade. Garotas como elas não falam com garotas como eu.

Até agora, aparentemente.

“Kara, né?” Sophia se encosta no armário ao lado do meu, só dente branco perfeito e gloss brilhando nos lábios. “Você mora com os trigêmeos Sterling, não mora?”

Meu estômago afunda. Meu Deus. O que foi que eu fiz? Será que eu passei vergonha por eles de algum jeito? Isso é por causa do waffle?

“Eu... é. Eu moro lá.”

Os olhos da Emma se arregalam. “Isso é muito sorte. Tipo, quais são as chances, literalmente? Você vê eles todo dia? Como eles são em casa? O Blake dorme sem camisa mesmo?”

Eu pisco. “O quê?”

“Meu Deus, se eu morasse naquela casa”, Sophia suspira, empolgada, “eu literalmente ia engravidar todo dia. Aqueles caras são insanos.”

As duas caem na gargalhada. Risadinhas agudas, cheias de ar, que fazem minha cabeça latejar.

Certo. Claro. Elas acham que eu tô vivendo um conto de fadas. Não fazem ideia de que eu durmo num depósito transformado em quarto e passo as manhãs cozinhando comida que eu não tenho permissão de comer.

“Não é bem assim”, eu digo baixinho. “Eu só... moro lá.”

Sophia estende a mão e encosta no meu cabelo — o meu cabelo, que eu não tive tempo de trançar de manhã e agora cai em ondas úmidas e embaraçadas pelas minhas costas. “Seu cabelo é lindo, sério. Tipo, uau. Você é tipo a Cachinhos Dourados.”

Emma concorda com entusiasmo. “Total! Você é tipo uma Cinderela da vida real. Só que, né, os Príncipes Encantados são Alphas do futuro, absurdamente gatos, que já moram no castelo.”

Algo acende dentro do meu peito. Talvez seja a febre. Talvez seja um surto de fome. Talvez sejam só dez anos engolindo sapo finalmente vindo à tona.

“Então eu sou a Cinderela”, eu digo devagar, “e na história, ela foge à meia-noite, né?”

Rola um segundo de silêncio. Aí Sophia cai na risada. “Meu Deus. Você é engraçada! Eu não sabia que você era engraçada.”

Emma abre um sorrisão. “Sério, por que a gente nunca falou com você antes? Você é legal, de verdade.”

Eu só dou de ombros. “Acho que eu tava ocupada.”

“Bom, você devia sentar com a gente no intervalo qualquer dia”, Sophia fala. Aí o olhar dela desce pras minhas calças jeans encharcadas, minhas botas arrebentadas, meu casaco surrado. Algo muda na expressão dela. Não chega a ser pena, mas... consciência. “Sabe, você ia ser muito bonita se tivesse, tipo, umas roupas melhores. Não é sendo grossa nem nada! É só que... sua estrutura óssea é incrível. Você super aguentaria um makeover.”

Claro. Porque o meu maior problema é roupa, não abuso sistemático e falta de comida.

Mas eu engulo a ironia. “Valeu, eu acho.”

O primeiro sinal toca. Elas se despedem com a mão e vão rebolando até a sala de aula, me deixando ali pingando, com frio e mais confusa do que nunca.

Isso acabou de acontecer mesmo? As duas garotas mais populares da escola acabaram de... falar comigo? Me elogiar?

Não se acostuma com isso, eu me aviso. Você vai embora amanhã. Nada disso importa.

Mas uma partezinha patética dentro de mim sussurra: E se pudesse importar? E se você não precisasse ir embora?

Eu bato a porta do armário com força e sigo pro laboratório de biologia.


O Dr. Harrison já tá no quadro quando eu escorrego pra minha carteira na última fileira. Ele é um dos poucos professores que nunca me tratou como caso de caridade — quarenta e poucos anos, alto e de ombros largos dos tempos em que treinava o time de beisebol, com olhos castanhos gentis e um senso de humor seco. A aula de hoje é sobre respiração celular, mas ele começou entregando as provas do meio de semestre de biologia.

“Tá certo, pessoal”, ele anuncia, levantando um bolo de folhas. “As provas estão corrigidas. Alguns de vocês foram muito bem. Alguns de vocês... nem tanto.”

Gemidos percorrem a sala de aula.

Ele desce pelos corredores, distribuindo as provas viradas para baixo nas carteiras. Quando chega em mim, ele faz uma pausa. Aí vira minha prova de um jeito que o grande “A+” vermelho fica visível pra todo mundo.

— E a nossa campeã invicta de ciências — ele anuncia, alto o bastante pra turma inteira ouvir — continua a sua sequência de vitórias. Kara, excelente trabalho, como sempre.

Algumas pessoas batem palmas sem muita vontade. A maioria só fica olhando. Sinto meu rosto esquentar.

Por favor, não faz disso um evento. Só segue em frente, por favor...

— Sophia. — A voz do Dr. Harrison fica seca quando ele larga uma prova numa carteira duas fileiras adiante. — F.

O rosto da Sophia fica branco.

— Emma. F menos. Eu nem sabia que isso era possível até corrigir a sua prova.

A Emma parece que vai chorar.

— As duas, conversem comigo depois da aula. Se não passarem na prova final, vocês estão fora da equipe de líderes de torcida. Política da escola.

Ah, merda.

Arrisco olhar pra elas. Sophia está encarando a prova como se ela tivesse acabado de anunciar o fim do mundo. As mãos da Emma estão tremendo.

Eu conheço essa sensação. Eu vivo essa sensação todo santo dia.

Talvez... talvez eu pudesse ajudar? Não por elas, exatamente. Mas porque fazer alguma coisa boa, por uma vez, talvez me faça sentir como uma pessoa em vez de saco de pancadas.

Você não deve nada pra elas, sussurra a voz amarga na minha cabeça. Elas nunca ligaram pra você até hoje.

Mas elas repararam em mim, outra voz retruca. Elas falaram comigo. Disseram que eu sou engraçada.

Estou tão perdida nos meus pensamentos que nem percebo o Dorian Peters até ele estar bem do lado da minha carteira.

Dorian é tudo o que eu odeio nessa escola: alto, largo, loiro e maldoso daquele jeito casual de quem nunca ouviu um “não” na vida. Ele é colega do Blake no time de beisebol e me trata como se eu fosse alguma coisa grudada no tênis dele.

Ele roça de propósito na minha carteira — com força — e meu fichário aberto voa longe. As folhas explodem pelo chão. Canetas se espalham. Minhas anotações perfeitamente organizadas viram uma nevasca de papel branco.

— Opa — diz Dorian, sem um pingo de sinceridade. — Foi mal aí, bolsista.

Risos percorrem a sala.

O Dr. Harrison se vira num estalo.

— Dorian. Junte. Tudo. Agora.

— Eu nem...

Agora.

O maxilar do Dorian trava, mas ele se agacha e começa a juntar as folhas. Enfia tudo na minha mão, todo amassado. Quando pega a última folha, sinto um puxão no couro cabeludo — rápido e agudo.

Ele pegou o meu elástico de cabelo. O último que eu tenho. Um elástico preto baratinho, que já estava se segurando por um fio.

— Valeu — ele resmunga, enfiando no bolso. Aí me lança um sorriso de deboche quando se levanta. — Tá judiada hoje, hein, Kara. Tá doente ou o quê?

Meu cabelo cai na frente do meu rosto em ondas úmidas e embaraçadas. Eu empurro tudo pra trás da orelha e me forço a olhar pras minhas anotações arruinadas.

Amanhã, penso de novo. Só mais um dia.

O Dr. Harrison pigarreia.

— Dorian, detenção. Kara, me desculpa por isso.

— Tá tudo bem — eu sussurro.

Mas não tá tudo bem. Nada nesse dia tá nem perto de bem.

Eu recolho minhas folhas com as mãos tremendo, enfio tudo de volta no fichário e tento me concentrar em mitocôndrias. Em processos celulares, produção de energia, em coisas que fazem sentido.

Não na fome arranhando o meu estômago. Não na água gelada ainda espremendo dentro das minhas botas. Não no fato de que eu só tenho mais um elástico de cabelo e ele já está se desfazendo na costura.

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