Capítulo 5

Kara

O sinal final toca às três da tarde, e eu estou prestes a me levantar e ir embora quando ouço um farfalhar e sussurros atrás de mim.

Dou uma olhada por cima do ombro e vejo Sophia e Emma ainda sentadas nas carteiras. Emma fuça na bolsa cara atrás de um espelhinho, enquanto Sophia remexe nas coisas dela.

— Merda, acabou meu pó — Sophia reclama num sussurro. — Hoje à noite tem o pré‑party da família Sterling e eu não posso aparecer com essa cara oleosa e horrorosa.

Emma franze a testa enquanto confere a maquiagem.

— Meu rímel também tá quase no fim. Deus, a gente precisa passar na Sephora, mas minha mãe tomou meu cartão hoje — disse que eu gastei demais esse mês.

— Eu também tô sem dinheiro da mesada — Sophia diz, desanimada. — Tudo porque eu comprei aquele vestido semana passada.

Eu paro no meio do caminho, uma ideia maluca se formando na minha cabeça.

Elas precisam de maquiagem. E eu... eu preciso parecer uma garota de verdade na festa de amanhã à noite, não uma empregadinha esfarrapada, de cabelo desgrenhado e roupa rasgada.

Dezoito anos. O dia da minha primeira transformação. Se eu tiver sorte, talvez eu encontre meu par entre os lobos visitantes — alguém de bem longe, alguém que possa me tirar deste inferno.

Mas do jeito que eu tô agora? Pareço uma pivete de rua. Ninguém vai me enxergar como uma potencial parceira.

Foda‑se. Só vai.

Eu me viro e caminho até a mesa delas.

— Eu posso ajudar vocês — digo em voz baixa.

As duas levantam o olhar para mim, com a expressão confusa.

— Ajudar com o quê? — Sophia pergunta.

— Maquiagem — respondo, tentando manter a voz firme, mesmo com o coração disparado. — Eu sei onde vocês podem comprar maquiagem barata, mas de boa qualidade. Não são marcas famosas, mas funcionam do mesmo jeito. Eu posso levar vocês lá.

Não é totalmente mentira. Nos últimos anos, eu dei umas escapadas de vez em quando pras lojinhas baratas da cidade, usando qualquer moedinha que eu conseguia juntar pra comprar o básico. Eu sei quais marcas paralelas são baratas, mas valem a pena.

Emma pisca.

— Sério? Onde?

— Umas lojinhas na beira da cidade. Os preços são um terço do que vocês pagariam na Sephora, mas a qualidade é boa. — Dou uma pausa. — Mas eu preciso que vocês façam um favor pra mim.

Sophia se inclina na minha direção, interessada.

— Que favor?

— Amanhã é o meu aniversário de dezoito anos — cada palavra parece ser arrancada da minha garganta. — Também é a minha primeira transformação. Amanhã à noite vai ter uma festa na propriedade — a celebração da herança dos trigêmeos Sterling. Eu quero...

Respiro fundo.

— Eu quero parecer uma garota normal. Não é só comprar maquiagem, eu preciso que vocês me ensinem a usar, a combinar, a fazer eu parecer... alguém que valha a pena notar.

Que valha a pena amar. Que valha a pena salvar.

Os olhos de Emma se arregalam, a boca dela se abrindo num O perfeito.

— Meu Deus, você quer encontrar seu par na festa, não quer?

Eu não respondo, mas a verdade está estampada na minha cara: eu quero sair daqui.

A expressão de Sophia muda completamente — de confusão para empolgação.

— Pera, pera, pera. Amanhã é primeiro de dezembro, né? Também é o aniversário dos trigêmeos Sterling. Você faz aniversário no mesmo dia?

— Sim — minha mandíbula se contrai. Não pensa nisso. Não pensa no fato de que eles ganham uma comemoração de três dias enquanto eu ganho um quartinho de depósito e sobra de comida fria. — Mas ninguém lembra do meu.

Emma agarra o braço de Sophia, a voz ficando aguda e ofegante.

— Isso é tão romântico! Se você se transformar no seu aniversário e encontrar seu par na mesma noite — isso é tipo, destino!

Destino. Aham, sei. Se destino fosse real, meus pais não teriam me jogado fora como lixo. Se destino fosse real, eu não teria passado dez anos sendo tratada como uma maldita empregada.

Mas eu sorrio. Eu aceno com a cabeça.

Porque essa é a minha única chance.

"Beleza." Sophia se levanta, de repente toda séria, em modo negócios. "Fechado. A gente vai fazer você ficar incrível. Cabelo, maquiagem, roupa, tudo. Você ajuda a gente a economizar com maquiagem boa, e nós vamos garantir que todo lobo naquela festa repare em você."

Algo afrouxa no meu peito. Algo pequeno, frágil e cheio de esperança.

E isso me apavora.

"Fechado", eu sussurro.


Antes de entrar na Nordstrom, Sophia de repente parou e se virou pra mim.

"Espera." Ela olhou pras minhas botas encharcadas e pro casaco surrado, a testa franzindo de leve. "A gente precisa arrumar umas roupas decentes pra você primeiro."

Meu rosto pegou fogo. Elas repararam. Claro que iam reparar.

"Eu não tenho dinheiro…"

"Nem vem." Emma abanou a mão, me cortando. "Você fez a gente economizar uma fortuna, lembra? Aqueles cosméticos iam custar pelo menos duzentos dólares aqui. E você fez a gente gastar só cinquenta."

Sophia assentiu, concordando. "Essa é a nossa forma de te retribuir. E se você vai arrumar um par na festa de amanhã, precisa parecer que pertence àquele lugar."

Pertencer àquele lugar. A frase enfiou uma faca no meu peito. Eu nunca tinha pertencido a lugar nenhum.

"Sério, eu não preciso…"

"Kara." A voz da Sophia foi firme. "Aceita. É isso que amigas fazem."

Amigas. Ela disse que nós éramos amigas.

Minha garganta apertou. Não chora. Não paga mico.

"Tá bom", eu disse baixinho. "Obrigada."

Emma abriu um sorrisão. "Perfeito! Vamos escolher um baita look juntas."


A Nordstrom é clara, quente e avassaladora.

As luzes são claras demais. O ar cheira a perfume, roupa nova e dinheiro. Eu me sinto como uma alienígena que acabou de pousar em outro planeta.

Tá todo mundo olhando pra mim. Minhas botas molhadas rangem no chão polido. Meu parka rasgado pinga neve derretida. Eu pareço um rato afogado num palácio.

Sophia e Emma não parecem notar. Elas me arrastam direto pra sessão jovem, puxando roupa das araras mais rápido do que eu consigo acompanhar.

Um suéter vermelho de ombro caído. Calça jeans preta bem justa. Um vestido azul-cobalto colado ao corpo. Uma jaqueta de couro que provavelmente custa mais do que a Luna Victoria me paga em um ano.

"Prova isso!" Sophia enfia um monte de tecido nos meus braços.

"E isso aqui também!" Emma acrescenta outra pilha.

Eu tropeço até o provador, com os braços cheios de roupas que parecem queimar a minha pele.

Isso custa mais do que tudo que eu já tive na vida.

Minhas mãos tremem enquanto eu tiro o jeans molhado e o suéter puído. Pego um vislumbre de mim mesma no espelho—pálida, ossuda, joelhos roxos de esfregar chão—e tenho que desviar o olhar.

Não pensa nisso. Só prova as malditas roupas.

Primeiro look: jeans preto bem justo e um suéter vermelho. A calça agarra meu quadril de um jeito que me é estranho. Apertado. Intencional.

Eu saio do provador hesitante, puxando a barra do suéter.

Sophia balança a cabeça. "Sete de dez. A calça tá ótima, mas o vermelho é muito chamativo. Te deixa apagada."

Emma concorda com um aceno. "Concordo. Próximo!"

Ok. Não foi um desastre. Continua.

Segundo look: um vestido azul royal com um blazer acinturado. O tecido é macio e caro, moldando no meu corpo como se tivesse sido feito pra mim.

Eu aliso o vestido sobre o quadril, encarando meu reflexo.

Quem diabos é essa?

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