Capítulo 6
Kara
— Nove de dez — a Emma diz, inclinando a cabeça. — Você está maravilhosa. Mas está formal demais pra uma festa. Vai parecer que tá indo pra uma reunião de negócios.
A Sophia concorda com a cabeça. — Guarda esse pra outra ocasião. Experimenta a saia.
Terceiro look: uma saia preta plissada, bem curtinha, uma blusa branca com decote coração, meia-calça preta e botinha preta de salto.
A saia é curta. Tipo, muito curta. E o decote da blusa desce o bastante pra mostrar o começo dos meus seios.
Meu Deus do céu.
Eu saio devagar, puxando a barra da saia pra baixo. — Isso aqui não tá... curto demais?
A Sophia pula da cama. — Dez de dez! É esse! Meu Deus, Kara, as suas pernas são surreais. Por que você tava escondendo isso?
A Emma abre um sorriso. — E seus peitos ficaram ótimos com essa blusa. Sério, você tem um corpo de matar.
Eu fico encarando meu reflexo no espelho.
Caralho.
A garota que olha de volta pra mim não parece uma empregada. Não parece alguém que limpa privada pra sobreviver.
Ela parece... bonita.
Não. Não bonita. Gostosa.
Algo aperta no meu peito. Orgulho? Esperança? Pavor?
E se isso realmente funcionar? E se alguém reparar em mim amanhã?
A Sophia me entrega as botas. — Prova essas. Salto de uns sete centímetros. Você precisa treinar a andar com elas.
Eu calço as botas. Dou um passo.
Puta merda...
Eu cambaleio. Meu tornozelo vira. Eu me debato, agarrando na parede pra não cair.
A Emma segura meu braço, rindo. — Beleza, hora do treino de passarela. Anda pra cima e pra baixo no corredor até pegar o jeito.
E lá vou eu. Pra frente e pra trás entre as araras de roupa, tropeçando no começo, meus tornozelos gritando de protesto.
Isso é ridículo. Eu pareço um filhote de cervo aprendendo a andar.
Mas na décima volta, alguma coisa encaixa. Meu quadril começa a balançar naturalmente. Meus passos ficam firmes. Seguros.
Eu tô conseguindo. Caralho, eu tô mesmo conseguindo.
A Sophia bate palmas. — Perfeito! Agora você tá pronta.
Eu me olho no espelho mais uma vez.
Talvez. Talvez eu consiga.
Quando a gente chega na casa da Emma, já são seis da tarde e o sol se pôs faz tempo. O céu tá de um índigo profundo, com as primeiras estrelas furando a escuridão.
A casa dela é enorme — uma mansão espalhada pelo terreno no bairro mais rico de Anchorage, cheia de janelões do chão ao teto e arquitetura super moderna. A entrada é aquecida, então não tem neve nenhuma. Só um asfalto liso, perfeito.
Claro que tem.
O quarto da Emma é maior do que todo o primeiro andar do alojamento dos empregados da Midnight Estate. Uma cama king-size com uma manta de pelo branco. Um closet que caberia o meu quartinho de depósito três vezes. Uma penteadeira com mais maquiagem do que eu já vi na vida.
É isso que gente normal tem, penso, olhando tudo em volta, em choque. É assim que é a vida quando você não é uma maldita escrava de dívida.
— Senta — a Sophia manda, apontando pra cadeira da penteadeira.
Eu sento.
Meu coração tá batendo tão forte que eu me admiro que elas não consigam ouvir.
E se eu ficar pior depois? E se elas perceberem que eu não tenho salvação?
Na hora seguinte, elas trabalham em mim como se eu fosse uma escultura e elas, as artistas.
A Sophia enrola meu cabelo com um babyliss, fazendo ondas grossas e brilhantes que caem pelos meus ombros. Ela espirra um spray que cheira a baunilha e faz meu cabelo brilhar como ouro derretido.
A Emma cuida da maquiagem. Base pra uniformizar minha pele amarelada e mal nutrida. Corretivo embaixo dos olhos pra esconder as olheiras eternas. Iluminador nas maçãs do rosto, que faz meu rosto parecer esculpido em vez de chupado.
Delineado gatinho que faz meus olhos castanhos parecerem enormes e misteriosos. Sombra em tons terrosos de bronze e dourado. Máscara de cílios tão grossa que meus cílios parecem leques.
E, por fim — um batom vermelho matte e ousado.
Vermelho. Como sangue. Como poder.
"Tá," diz a Sophia, dando um passo pra trás. A voz dela sai ofegante de empolgação. "Agora coloca a roupa."
Eu visto a saia preta, a blusa branca, a meia‑calça e as botas. Minhas mãos estão tremendo tanto que mal consigo fechar o zíper da saia.
E se eu ficar ridícula? E se eles rirem de mim?
"Não olha ainda", a Emma avisa. "Fecha os olhos."
Elas me posicionam em frente ao espelho de corpo inteiro. Sinto as mãos delas nos meus ombros, me firmando.
"Agora. Abre."
Eu abro os olhos.
E esqueço como se respira.
Puta. Que. Pariu.
A garota no espelho não sou eu. Não pode ser. Ela tem a pele iluminada e ondas suaves e glamourosas de cabelo dourado que refletem a luz. Os olhos são profundos e cheios de charme, emoldurados por cílios escuros. Os lábios vermelhos são seguros, marcantes — sexy, até.
A roupa preta e branca valoriza cada curva — cintura minúscula, peito farto, pernas longas que parecem não ter fim.
Ela parece alguém que importa.
Ela parece alguém que as pessoas iriam querer.
Minha garganta aperta. Minha visão embaça.
Não chora. Nem pensa em chorar, porra.
Mas já é tarde. Uma lágrima escorre pelo meu rosto, quente e humilhante.
"Obrigada", eu sussurro. Minha voz falha. "Eu... obrigada."
Antes que eu consiga me controlar, me viro e jogo os braços em volta das duas. Abraço tão forte que provavelmente tô esmagando as costelas delas.
Eu tenho amigas. Caralho, eu realmente tenho amigas.
A Emma me abraça de volta, a voz suave. "Você sempre foi bonita, Kara. A gente só te ajudou a enxergar isso."
A Sophia aperta meu ombro. "Você vai deixar todo mundo de boca aberta amanhã."
Eu acabei de fazer amigas? O pensamento dá voltas na minha cabeça, tonto e surreal. É assim que se sente ser... normal?
Por dez anos, eu fui invisível. Um fantasma. Um pedaço de mobília.
Mas amanhã?
Amanhã, eu vou ser vista.
São 7h30 da noite quando o Range Rover da Sophia encosta na Midnight Estate.
Meu estômago despenca.
Fodeu.
Eu fiquei fora a tarde inteira. Era pra eu ter limpado o salão de festas, arrumado a decoração, organizado as mesas do jantar pra festa de amanhã.
A Luna Victoria vai me matar.
Ou pior — vai descontar em mim na frente de todo mundo amanhã.
A Emma se inclina por cima do banco, sorrindo. "E aí? A gente pode entrar? Conhecer os trigêmeos?"
Ah, nem ferrando.
"Não." Eu agarro minha bolsa, o coração batendo tão forte que dói. "Eles não gostam de visita. E já tá tarde. É melhor vocês irem pra casa."
Por favor, não insiste. Só vai embora.
A Sophia faz biquinho, mas não discute. "Tá, vai. Mas você tem que usar essa roupa amanhã. E manda foto pra gente!"
"Eu mando", eu minto.
Eu não tenho celular. Eu não tenho nada.
Desço do carro, acenando enquanto elas vão embora. Depois me viro em direção à casa.
As luzes estão acesas. As janelas brilham como olhos, me vigiando.
Por favor, que eles não percebam que eu sumi, eu rezo. Por favor. Só mais um dia.
Eu entro pela porta lateral, minhas botas novas batendo de leve no piso de azulejo. Prendo a respiração, escutando.
