Capítulo 3 Capítulo 3- Alexei
Em meio à tensão que dominava minha mente, o sono parecia uma possibilidade distante.
Eu estava deitado, encarando o teto escuro do quarto, mas minha cabeça permanecia presa aos acontecimentos das últimas horas. Cada pensamento me levava ao mesmo ponto.
Giorgia Caccini.
A mulher que em breve carregaria meu sobrenome.
A mulher que deveria ser apenas uma peça em um acordo cuidadosamente planejado.
Era isso que eu repetia para mim mesmo.
Ela era uma aliança.
Uma estratégia.
Uma forma de atingir meu pai e destruir o império que ele construiu sobre medo e sangue.
Mas quanto mais eu pensava nela, mais aquela explicação parecia incompleta.
Eu tinha visto o olhar dela.
A dor.
A raiva.
A maneira como ela se colocou na frente da irmã mesmo sabendo que não tinha nenhuma chance contra homens armados.
Ela não era fraca.
Ela não era apenas uma garota inocente presa em uma guerra que não escolheu.
Havia algo nela que me intrigava.
Talvez fosse a força.
Talvez fosse a forma como, mesmo destruída, ela ainda encontrava motivos para lutar.
Ou talvez fosse porque eu reconhecia aquele olhar.
O olhar de alguém que perdeu tudo e decidiu continuar respirando apenas para conseguir vingança.
Eu conhecia aquele vazio.
Conhecia aquela sensação de acordar todos os dias carregando um peso que ninguém mais conseguia enxergar.
Por isso, contra todo o bom senso, eu precisava saber mais sobre ela.
Precisava entender quem era Giorgia Caccini antes de se tornar minha esposa.
Antes de nosso acordo.
Antes da tragédia.
Antes de eu colocar minha vida ao lado da dela.
Levantei-me sem pensar duas vezes.
Eu sabia que era uma péssima ideia.
Sabia que entrar no território dos Caccini sozinho era praticamente pedir para ser morto.
Mas ficar parado parecia ainda pior.
Eu precisava de respostas.
Peguei as chaves do carro e saí.
A noite estava silenciosa quando deixei a mansão. O ar frio tocava meu rosto enquanto caminhava até o veículo, mas não era o frio que fazia meu corpo ficar tenso.
Era a consciência do risco.
Durante anos, minha família e os Caccini estiveram em lados opostos.
Havia sangue demais entre nossos sobrenomes.
Mortes demais.
Ódio demais.
Eu tinha crescido ouvindo que eles eram inimigos.
Que eram uma ameaça.
Que nunca deveriam ser confiados.
Mas naquela noite, pela primeira vez, eu estava indo até o território deles não como um inimigo.
Mas como alguém procurando entender a mulher que fazia parte do meu futuro.
Entrei no carro e liguei o motor.
As ruas estavam quase vazias.
A cidade parecia diferente durante a madrugada.
Mais honesta.
Sem máscaras.
Sem pessoas fingindo que tudo estava bem.
Enquanto dirigia, minha mente continuava voltando para Giorgia.
Para a forma como ela segurava a arma com as mãos trêmulas.
Para a maneira como tentou enfrentar homens muito mais fortes do que ela.
Para o medo que escondia atrás da raiva.
Eu sabia que ela me odiava.
E tinha motivos.
Meu sobrenome era uma lembrança constante do homem que destruiu a vida dela.
Mesmo que eu não fosse responsável pelos atos do meu pai, eu carregava o peso das escolhas dele.
Todos nós carregávamos.
Quando finalmente cheguei ao território dos Caccini, desliguei o carro alguns metros antes da entrada principal.
Não queria chamar atenção.
Não queria que ninguém soubesse que eu estava ali.
Observei o local em silêncio.
A mansão permanecia imponente diante de mim.
Mas havia algo diferente.
Não existia movimento.
Não existia segurança.
Não existia aquela sensação de poder que famílias como a nossa costumavam transmitir.
Apenas silêncio.
Um silêncio pesado.
Como se aquele lugar ainda carregasse o eco da violência que aconteceu ali.
Saí do carro lentamente.
Por alguns segundos, fiquei parado.
Uma parte de mim dizia para voltar.
Dizia que aquilo era uma armadilha.
Que eu estava entrando em um lugar onde qualquer pessoa poderia tentar me matar.
E essa parte estava certa.
Mas outra parte era mais forte.
A necessidade de descobrir a verdade.
Caminhei até o muro que cercava a propriedade.
Olhei ao redor, certificando-me de que não havia ninguém observando.
Então escalei.
O movimento foi rápido e silencioso.
Assim que meus pés tocaram o outro lado, permaneci imóvel por alguns segundos.
Escutei.
Nada.
Apenas o vento passando pelas árvores.
Respirei fundo e comecei a caminhar.
Cada passo era calculado.
Cada sombra poderia esconder uma ameaça.
Eu conhecia aquele tipo de lugar.
Sabia que o perigo raramente avisava antes de aparecer.
A mansão se aproximava cada vez mais.
E quanto mais perto eu chegava, mais uma sensação estranha crescia dentro de mim.
Não era medo.
Era algo diferente.
Como se eu estivesse prestes a descobrir uma verdade que mudaria tudo.
Quando cheguei à porta principal, tentei abri-la.
Estava trancada.
Usei mais força.
Depois de algumas tentativas, consegui entrar.
A escuridão me recebeu.
Acendi a lanterna do celular e avancei.
O primeiro detalhe que percebi foi o silêncio.
Depois veio a destruição.
Tudo estava exatamente como uma cena de guerra.
Objetos quebrados.
Marcas de confronto.
Sinais claros de que aquela casa havia sido invadida.
Continuei andando.
E então encontrei o sangue.
Muito sangue.
O chão da sala estava manchado.
As paredes carregavam marcas da violência.
Meu estômago se contraiu.
Por alguns segundos, apenas fiquei parado.
Eu já tinha visto mortes.
Mais do que gostaria.
Mas aquilo era diferente.
Porque agora eu sabia exatamente de quem era aquela casa.
Sabia quem tinha vivido ali.
Sabia quem tinha perdido tudo.
Giorgia.
Minha futura esposa.
A mulher que eu pretendia usar em um jogo de vingança.
Pela primeira vez, aquela ideia pareceu cruel demais.
Meu pai havia planejado aquilo.
Ele havia feito aquilo.
E eu precisava descobrir o motivo.
Continuei investigando o ambiente.
Não havia corpos.
Apenas rastros.
O suficiente para entender que tudo tinha acontecido rapidamente.
Eles foram pegos de surpresa.
Meu pai tinha preparado cada detalhe.
Como sempre.
Ele nunca fazia nada sem calcular todos os passos.
Mas algo não fazia sentido.
Eu nunca achei que os Caccini fossem uma ameaça tão grande para ele.
Nunca imaginei que meu pai os enxergasse como alguém que precisava ser eliminado daquela forma.
Havia algo escondido.
Algo que eu ainda não sabia.
E eu precisava descobrir.
Subi as escadas lentamente, ainda segurando o celular como única fonte de luz naquele ambiente tomado pela escuridão.
Cada degrau rangia sob meus pés, e o som parecia alto demais naquele silêncio absoluto.
Era estranho estar ali.
Eu já havia entrado em muitos lugares onde a morte esteve presente. Já tinha visto mansões transformadas em cenários de guerra, já tinha caminhado por corredores onde o medo parecia estar impregnado nas paredes.
Mas aquela casa era diferente.
Porque não era apenas um território inimigo.
Era o lugar onde uma família existia antes de ser destruída.
Era o lugar onde Giorgia tinha crescido.
Onde ela tinha sido apenas uma filha.
Uma irmã.
Uma mulher comum antes de ser obrigada a se transformar em alguém que precisava lutar para sobreviver.
Continuei andando pelo corredor.
Eu não sabia exatamente o que procurava.
Talvez respostas.
Talvez alguma prova de que existia algo além da versão que meu pai havia contado.
Ou talvez eu apenas estivesse tentando entender a mulher que, em breve, estaria ligada a mim.
Meu olhar parou em uma porta no final do corredor.
Eu não sabia explicar o motivo, mas alguma coisa me fez caminhar até ela.
Era apenas uma porta.
Mas havia algo diferente.
Uma sensação.
Como se aquele lugar carregasse uma parte dela.
Girei a maçaneta e entrei.
No instante em que a luz da lanterna iluminou o quarto, eu soube.
Era dela.
O ambiente não combinava com a imagem que eu tinha criado na minha cabeça.
Eu esperava algo mais delicado.
Talvez algo cheio de detalhes que lembrassem uma garota protegida, alguém que tivesse vivido uma vida tranquila.
Mas aquele quarto era diferente.
Havia suavidade, mas também personalidade.
Os tons claros das paredes transmitiam uma sensação de calma.
Os objetos estavam organizados de uma maneira que demonstrava cuidado.
Não era um quarto vazio.
Era um pedaço dela.
Caminhei lentamente pelo ambiente, observando cada detalhe.
Fotografias estavam espalhadas.
Quadros.
Pequenos objetos que pareciam sem importância para qualquer outra pessoa, mas que carregavam memórias.
E então vi o rosto dela.
Em todos os lugares.
Giorgia sorrindo.
Giorgia ao lado da irmã.
Giorgia ao lado dos pais.
Uma versão dela que eu ainda não conhecia.
Uma versão antes da dor.
Antes da vingança.
Antes de tudo ser destruído.
Peguei uma das fotografias.
Era uma imagem simples.
Ela estava sorrindo.
Um sorriso verdadeiro.
Não aquele sorriso que ela usava para esconder a raiva e o medo.
Era um sorriso de alguém que acreditava que o mundo era seguro.
Fiquei alguns segundos olhando aquela imagem.
Era estranho sentir aquilo.
Eu não costumava me importar.
Aprendi cedo que sentimentos eram fraquezas.
No nosso mundo, quem demonstrava demais acabava perdendo.
Mas ali, segurando aquela fotografia, eu não conseguia enxergar Giorgia como uma inimiga.
Eu enxergava uma mulher que teve tudo arrancado dela.
Uma mulher que, mesmo machucada, ainda pensava primeiro na irmã.
Isso dizia muito sobre quem ela era.
Mais do que qualquer informação que eu pudesse encontrar.
Coloquei a fotografia no lugar e continuei observando o quarto.
Havia livros sobre a mesa.
Alguns desenhos.
Anotações.
Pequenos pedaços de uma vida normal.
Uma vida que ela nunca mais teria.
Meu olhar caiu sobre uma poltrona próxima à cama.
Havia um casaco jogado ali.
Peguei o tecido sem pensar.
E então senti.
O cheiro dela.
Era uma coisa simples.
Um perfume suave misturado com algo que eu não conseguia identificar.
Mas era dela.
Por alguns segundos, permaneci parado.
Aquilo parecia errado.
Eu estava no quarto de uma mulher que mal conhecia.
Uma mulher que me odiava.
Uma mulher que acreditava que minha família era responsável pela destruição da dela.
E ainda assim, aquele simples objeto fazia com que ela parecesse mais próxima.
Mais real.
Fechei os olhos por um instante.
Eu precisava lembrar do motivo de estar ali.
Não tinha ido até aquela casa para sentir nada.
Tinha ido porque precisava descobrir a verdade.
Porque precisava entender meu pai.
Porque precisava saber exatamente onde estava entrando.
Mas a verdade era que algo havia mudado.
Quando conheci Giorgia, vi apenas uma mulher consumida pelo ódio.
Agora eu começava a enxergar o que existia por trás daquela raiva.
A dor.
A perda.
A força.
Ela não era apenas uma peça em um jogo.
Ela era alguém que tinha sobrevivido ao pior dia da sua vida.
E, pela primeira vez, senti uma necessidade que não fazia parte dos meus planos.
Eu queria protegê-la.
A ideia me incomodou.
Porque proteção significava envolvimento.
E envolvimento era algo que eu não podia permitir.
Eu tinha um objetivo.
Eu precisava destruir meu pai.
Precisava descobrir o que ele escondia.
Precisava terminar aquela guerra.
Mas naquele momento, sozinho no quarto dela, percebi que talvez o maior perigo não fosse enfrentar meu inimigo.
Talvez o maior perigo fosse começar a me importar com alguém.
Saí do quarto lentamente.
Antes de fechar a porta, olhei uma última vez para o ambiente.
Para a vida que ela tinha antes.
Para a garota que existia antes da tragédia.
Eu prometi a mim mesmo que descobriria toda a verdade.
E, se meu pai realmente fosse responsável por tudo aquilo, ele pagaria.
Não importava o preço.
Desci as escadas novamente.
Mas antes de deixar a mansão, parei na sala de estar.
O sangue seco ainda estava ali.
A lembrança da violência.
A prova de que algo muito maior estava acontecendo.
Observei o local em silêncio.
Meu pai nunca fazia nada sem motivo.
E se ele tinha destruído a família Caccini daquela forma, existia uma razão.
Uma razão que ele não queria que ninguém descobrisse.
Entrei no carro e liguei o motor.
Enquanto deixava o território dos Caccini para trás, uma certeza crescia dentro de mim.
O casamento com Giorgia não seria apenas um acordo.
Não seria apenas uma estratégia.
Porque agora eu precisava descobrir a verdade.
Por ela.
E talvez esse fosse o primeiro erro que eu cometeria.
Porque no momento em que comecei a querer protegê-la, deixei de enxergá-la como uma inimiga.
E em nosso mundo, amar alguém poderia ser mais perigoso do que qualquer guerra.
O caminho de volta pareceu mais longo do que o normal.
Eu dirigia pelas ruas silenciosas da cidade, mas minha mente permanecia presa naquela casa.
Naquela sala destruída.
Naquele quarto.
Nela.
Giorgia.
Era estranho como uma única noite podia mudar a forma como enxergávamos alguém.
Horas antes, ela era apenas o sobrenome Caccini.
Uma inimiga.
Uma mulher que fazia parte de uma família que meu pai passou anos tentando destruir.
Mas agora eu conseguia enxergar além disso.
Conseguia enxergar a garota nas fotografias.
A irmã que segurava a mão de Luce enquanto tentava esconder o próprio medo.
A filha que perdeu os pais de uma maneira brutal.
A mulher que, mesmo quebrada, ainda encontrava forças para desafiar homens que poderiam matá-la sem pensar duas vezes.
Eu não deveria sentir nada.
Esse era o problema.
Eu tinha passado anos aprendendo a controlar minhas emoções.
Aprendi que sentimentos eram brechas.
Fraquezas que seus inimigos usariam contra você.
Meu pai sempre dizia que homens como nós não tinham o direito de hesitar.
Não podíamos amar demais.
Não podíamos confiar demais.
Não podíamos permitir que alguém tivesse poder sobre nós.
Mas, pela primeira vez em muito tempo, eu me perguntei se ele estava errado.
Porque naquela noite, no quarto dela, eu não vi uma fraqueza.
Vi uma força que eu não esperava encontrar.
Cheguei à mansão e estacionei o carro.
Antes de entrar, permaneci alguns segundos parado.
Eu sabia que precisava voltar à realidade.
Ao jogo.
Ao plano.
Ao homem que eu precisava ser.
Alexei Corleone.
O filho do homem que todos temiam.
O homem que deveria assumir o controle de um império.
Não alguém que ficava pensando no sorriso de uma mulher que deveria ser apenas uma aliança.
Entrei.
O silêncio da casa me recebeu.
Mas, diferente da mansão dos Caccini, aquele silêncio não carregava tristeza.
Carregava segredos.
Eu conhecia aquele lugar.
Conhecia cada corredor.
Cada sala.
Cada sombra.
Mas naquela noite, pela primeira vez, tive a sensação de não conhecer minha própria família.
Subi até meu escritório.
Precisava organizar meus pensamentos.
Precisava separar o que eu sentia do que eu precisava fazer.
Coloquei as mãos sobre a mesa e fiquei olhando os documentos espalhados.
Informações sobre os Caccini.
Movimentos financeiros.
Relatórios.
Tudo que meu pai havia reunido durante anos.
Tudo que eu sempre aceitei sem questionar.
Até agora.
Peguei alguns arquivos.
Comecei a ler novamente.
E quanto mais eu analisava, mais algo parecia errado.
Meu pai nunca atacava sem uma razão.
Ele sempre tinha uma justificativa.
Um motivo.
Uma vantagem.
Mas daquela vez parecia diferente.
O ataque aos Caccini tinha sido pessoal.
Não estratégico.
E isso me incomodava.
Porque significava que havia algo que eu não sabia.
Algo que ele escondia até de mim.
Meu próprio pai.
A pessoa que me ensinou tudo sobre aquele mundo.
A pessoa que me preparou para assumir seu lugar.
Ele sempre dizia que confiança era conquistada.
Mas nunca confiou o bastante em mim para contar a verdade.
Fechei o arquivo com força.
Eu precisava descobrir.
Não apenas por Giorgia.
Mas por mim.
Porque se eu fosse realmente assumir o controle de tudo, precisava saber exatamente qual era o império que estava herdando.
Um império construído sobre mentiras poderia destruir seu próprio dono.
Peguei meu celular.
Havia uma mensagem de um dos meus homens.
Uma atualização sobre a situação.
Nada importante.
Nada que explicasse o que aconteceu naquela noite.
Respirei fundo.
Então meus pensamentos voltaram para ela.
Para a maneira como seus olhos me encararam quando descobriu quem eu era.
Não havia medo.
Havia ódio.
Mas também havia algo mais.
Uma pergunta silenciosa.
Como se ela tentasse descobrir se eu era igual a todos os outros.
E talvez esse fosse o problema.
Eu também não sabia a resposta.
Meu sobrenome carregava uma história.
Uma história que eu não tinha escolhido.
Mas que ainda assim me seguia.
No dia em que eu me casasse com Giorgia Caccini, ela não estaria apenas se unindo a mim.
Ela estaria se unindo ao nome Corleone.
E eu sabia que isso seria uma batalha.
Ela me odiaria.
Talvez nunca confiasse em mim.
Talvez passasse todos os dias ao meu lado lembrando que eu era filho do homem que destruiu sua família.
Mas, mesmo assim, eu tinha tomado uma decisão.
Eu descobriria a verdade.
E se meu pai fosse realmente o responsável pela morte dos pais dela...
Eu não deixaria o sangue deles ser esquecido.
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No dia seguinte, encontrei Giorgia novamente.
E percebi imediatamente que algo nela havia mudado.
Ou talvez eu apenas estivesse olhando com mais atenção.
Ela estava sentada em silêncio, mas sua postura ainda carregava aquela resistência que eu tinha visto desde o primeiro momento.
Ela não parecia uma mulher derrotada.
Parecia uma mulher esperando o momento certo para atacar.
E eu quase admirei isso.
Quase.
— Você foi até a minha casa — ela disse.
Não era uma pergunta.
Eu a encarei.
Ela sabia.
Claro que sabia.
Giorgia Caccini não era alguém fácil de enganar.
— Fui.
Seus olhos ficaram mais frios.
— Por quê?
Eu poderia mentir.
Poderia inventar uma resposta simples.
Mas algo me impediu.
— Porque eu precisava entender você.
Ela pareceu surpresa por um instante.
Mas rapidamente voltou a esconder qualquer emoção.
— Você acha que me entende?
A pergunta veio carregada de desafio.
— Não.
A resposta sincera fez com que ela ficasse em silêncio.
— Mas estou tentando.
Ela desviou o olhar.
Por um momento, vi a dor escondida atrás da raiva.
Apenas por um segundo.
Então desapareceu.
— Você não deveria tentar.
Sua voz era baixa.
— Pessoas como você sempre têm um motivo.
Aquelas palavras me atingiram mais do que eu esperava.
Porque ela estava certa.
Eu sempre tinha um motivo.
Sempre existia um objetivo.
Mas pela primeira vez, eu não sabia explicar completamente o meu.
— Talvez você esteja certa.
Ela me encarou.
Como se não esperasse ouvir aquilo.
— Mas talvez você também esteja errada.
O silêncio entre nós ficou intenso.
Duas pessoas destruídas.
Duas famílias em guerra.
Dois inimigos presos em uma aliança que nenhum dos dois escolheu.
E ainda assim, naquele momento, eu tive a sensação de que havia algo diferente acontecendo.
Algo perigoso.
Algo que não fazia parte do plano.
Porque o plano era simples.
Casar.
Usar essa união.
Destruir meu pai.
Terminar a guerra.
Mas eu estava começando a perceber que Giorgia Caccini seria a única coisa naquele plano que eu não conseguiria controlar.
E talvez fosse exatamente isso que a tornava tão perigosa.
Porque pela primeira vez na minha vida, eu não tinha medo de perder uma batalha.
Eu tinha medo de perder a mim mesmo.
