Capítulo 4 Capítulo 4 - Giorgina

A primeira coisa que senti quando despertei foi a dor.

Uma dor profunda e pulsante que parecia atravessar minha cabeça de um lado ao outro.

Por alguns segundos, permaneci imóvel, tentando entender onde estava.

O silêncio ao meu redor era estranho.

Não era o silêncio assustador da minha casa depois do ataque.

Não era o silêncio pesado que veio depois dos tiros.

Era diferente.

Mais calmo.

Mais seguro.

E isso me deixou ainda mais desconfiada.

Minha garganta estava seca.

Tão seca que respirar parecia difícil. Minha boca parecia coberta por areia, e cada tentativa de engolir trazia uma sensação desconfortável de ardência.

Tentei abrir os olhos, mas minhas pálpebras pareciam pesadas demais.

Meu corpo inteiro parecia estar lutando contra mim.

As lembranças vieram aos poucos.

Primeiro, a imagem dos meus pais.

Depois, o som do tiro.

O sangue.

O grito de Luce.

O homem de cabelos brancos.

A dor na minha cabeça.

Um arrepio percorreu meu corpo quando tudo voltou de uma vez.

Eu me sentei rapidamente, mas me arrependi no mesmo instante.

A dor explodiu na minha cabeça, fazendo minha visão escurecer por alguns segundos.

Levei a mão à testa, tentando respirar enquanto esperava a tontura passar.

Eu estava viva.

Essa era a primeira coisa que minha mente conseguiu processar.

Eu estava viva.

Mas isso não significava que estava segura.

Olhei para minhas mãos.

Não havia cordas.

Meus pulsos estavam livres.

Assim como meus tornozelos.

Mas as marcas ainda estavam ali.

Linhas avermelhadas na pele que lembravam que aquilo não tinha sido um sonho.

Eu realmente tinha sido capturada.

Eu realmente tinha perdido meus pais.

Passei a mão pelo rosto, tentando afastar as lágrimas que ameaçavam cair.

Não.

Eu não podia desabar.

Não agora.

Eu precisava entender onde estava.

Precisava encontrar Luce.

Essa era minha prioridade.

Levantei-me devagar da cama.

Meu corpo protestou imediatamente.

Cada músculo parecia pesado.

Cada movimento trazia lembranças da violência que eu tinha sofrido.

Mas eu ignorei.

Eu não tinha o luxo de sentir dor.

Não enquanto minha irmã poderia estar em perigo.

Observei o quarto ao meu redor.

Era completamente diferente do lugar onde eu esperava acordar.

Não parecia uma cela.

Não parecia uma sala de tortura.

Era um quarto.

Um quarto confortável.

A cama era grande.

Os móveis eram elegantes.

Havia uma janela coberta por cortinas escuras.

Tudo parecia cuidadosamente organizado.

E aquilo me assustava mais do que se eu estivesse presa.

Porque significava que alguém tinha escolhido me colocar ali.

Alguém tinha planejado aquilo.

Caminhei até a porta.

Minha mão tocou a maçaneta.

Eu precisava sair.

Precisava encontrar uma maneira de fugir.

Não importava quem estivesse do outro lado.

Eu não podia permanecer naquele lugar.

Segurei a maçaneta e respirei fundo.

Então abri.

Mas antes que pudesse dar o primeiro passo, a porta foi aberta do outro lado.

O impacto me fez recuar imediatamente.

Meu corpo entrou em alerta.

Meu coração disparou.

E então eu o vi.

Por alguns segundos, fiquei sem reação.

Não porque não soubesse quem ele era.

Mas porque nunca imaginei que seria ele a primeira pessoa que encontraria.

Alexei Corleone.

O nome que eu ouvi durante toda a minha vida.

O nome ligado ao medo.

O nome ligado ao inimigo.

O filho do homem que destruiu minha família.

Ele estava parado diante de mim, observando minha reação.

E a primeira coisa que senti foi ódio.

Um ódio tão intenso que quase apagou todo o resto.

Eu esqueci a dor.

Esqueci a fraqueza.

Esqueci que meu corpo ainda estava tentando se recuperar.

Tudo que eu conseguia enxergar era o sobrenome dele.

Corleone.

Minha respiração ficou pesada.

— Você...

Minha voz saiu baixa.

Mas carregada de tudo que eu sentia.

Ele estreitou levemente os olhos.

Como se já esperasse aquela reação.

E talvez esperasse mesmo.

Afinal, ele sabia quem eu era.

Sabia o que tinha acontecido.

Sabia exatamente o motivo pelo qual eu o odiaria.

Eu dei um passo para trás.

Não por medo.

Mas porque precisava manter distância.

Porque algo dentro de mim dizia que aquele homem era perigoso.

Muito perigoso.

— Giorgia — ele disse.

O fato de ele saber meu nome fez minha raiva aumentar.

— Não diga meu nome.

Minha voz saiu mais forte.

Ele permaneceu imóvel.

— Você sabe quem eu sou.

Não era uma pergunta.

Eu sabia.

Ele sabia.

Não havia motivo para fingir.

— Sei.

Minha garganta apertou.

— Alexei Corleone.

O silêncio que veio depois parecia pesado.

Ele não tentou negar.

Não tentou se explicar.

E isso me irritou ainda mais.

— Você e sua família são responsáveis por tudo isso.

As palavras saíram antes que eu pudesse controlar.

Toda a dor acumulada encontrou uma saída.

— Pelo sangue derramado. Pela morte dos meus pais. Por destruir minha vida.

Minha voz falhou, mas continuei.

— Eu nunca vou perdoar vocês.

Alexei me encarou em silêncio.

Por um momento, vi algo diferente em sua expressão.

Não culpa.

Mas algo próximo disso.

Como se minhas palavras tivessem atingido algum lugar que ele não esperava.

Mesmo assim, eu não deixei que isso me confundisse.

Ele continuava sendo um Corleone.

Continuava sendo parte daquele mundo.

E eu não esqueceria isso.

Foi então que percebi alguns detalhes nele.

As tatuagens no pescoço.

A barba curta.

O olhar intenso.

Ele era diferente da imagem que eu tinha criado.

Eu esperava alguém parecido com o pai.

Cruel.

Frio.

Sem qualquer humanidade.

Mas Alexei tinha algo diferente.

E isso me incomodava.

Porque por um instante, contra toda lógica, meu cérebro percebeu que ele era bonito.

E eu odiei a mim mesma por isso.

Como eu poderia notar qualquer coisa além do ódio?

Como poderia existir qualquer tipo de atração por alguém ligado à destruição da minha família?

Não.

Eu não permitiria isso.

A aparência dele não mudava nada.

A presença dele não mudava nada.

Ele ainda era meu inimigo.

— Eu não me lembro de ter matado seus pais.

A voz dele me trouxe de volta.

Meu queixo tremeu.

A dor voltou com força.

— Você pode não ter puxado o gatilho.

Dei um passo à frente.

— Mas é filho do homem que matou eles.

As palavras saíram entre dentes.

— Carrega o mesmo sangue.

O maxilar dele ficou tenso.

Por alguns segundos, pensei que ele fosse responder.

Mas apenas desviou o olhar brevemente.

— Que seja.

A resposta fria me atingiu.

— Isso não muda nada.

Ele voltou a me encarar.

— Você continua sob minha posse até quando eu quiser.

Meu corpo congelou.

Por alguns segundos, eu não consegui compreender.

Posse.

A palavra ficou ecoando na minha cabeça.

Como se meu cérebro se recusasse a aceitar.

— O quê?

Minha voz saiu quase como um sussurro.

Ele permaneceu sério.

— Você ouviu.

Um medo diferente começou a surgir.

Não era medo da morte.

Era medo de perder quem eu era.

De perder minha liberdade.

De ser reduzida a algo sem escolha.

— Do que você está falando?

Alexei me observava.

E então respondeu:

— Você foi dada a mim como um presente.

Meu estômago se revirou.

Não.

Aquilo não podia ser verdade.

— Não...

Balancei a cabeça.

— Não.

Eu queria acordar.

Queria descobrir que ainda estava presa em algum pesadelo.

Que tudo aquilo não era real.

Mas a expressão dele não mudou.

— Antes que pense que é meu aniversário ou alguma coisa assim...

Ele fez uma pausa.

— Não é.

A seriedade dele tornava tudo ainda pior.

— Meu pai fez isso.

Ele parecia tão confuso quanto eu.

— E eu ainda não descobri o motivo.

Olhei para ele em choque.

Eu tinha sido transformada em uma coisa.

Um prêmio.

Uma propriedade.

Um objeto.

E naquele momento, uma coisa dentro de mim quebrou.

Mas junto com a dor veio outra coisa.

Raiva.

Uma raiva tão forte que quase me fez perder o controle.

Alexei deu mais um passo.

— Se serve de consolo...

Eu ergui os olhos.

Esperando qualquer coisa.

Mas suas próximas palavras apenas aumentaram minha fúria.

— Eu ainda não decidi o que vou fazer com você.

Foi o suficiente.

Minha mente parou de pensar.

Meu corpo agiu sozinho.

Eu não seria uma posse.

Não seria um troféu.

Não seria uma vítima.

Eu avancei.

Eu avancei sem pensar.

Não havia estratégia.

Não havia cautela.

Não havia medo.

Havia apenas a necessidade desesperada de fazer aquele homem entender que eu não era um objeto que ele poderia controlar.

Meu primeiro golpe foi direcionado ao rosto dele.

Eu coloquei toda a força que ainda existia em meu corpo naquele movimento, alimentada pela raiva, pela dor e pela vontade de vingança.

Mas Alexei era mais rápido do que eu esperava.

Ele desviou por pouco, e meu punho atingiu apenas o espaço vazio.

Antes que eu pudesse reagir, ele segurou meu braço.

O toque dele fez meu corpo inteiro ficar tenso.

Não pela força.

Mas pela lembrança.

Pela sensação de estar novamente presa.

Pela sensação de não ter controle sobre minha própria vida.

Puxei meu braço com força.

— Me solta!

Minha voz saiu carregada de ódio.

Alexei não parecia surpreso.

Na verdade, havia algo em seu olhar que eu não conseguia decifrar.

Não era diversão.

Não era desprezo.

Parecia quase admiração.

E isso me irritou ainda mais.

— Você realmente acha que vai conseguir me vencer assim? — perguntou.

A calma dele me deixou furiosa.

— Eu não preciso vencer você.

Minha respiração estava acelerada.

— Só preciso que você saiba que nunca vou me render.

Por um instante, o olhar dele mudou.

Como se minhas palavras tivessem despertado alguma coisa.

Mas então ele voltou a ser aquele homem frio diante de mim.

Eu aproveitei a distração.

Com o outro braço, tentei acertá-lo novamente.

Dessa vez, consegui atingir seu ombro.

Não foi um golpe forte.

Meu corpo ainda estava fraco.

Mas foi o suficiente para fazer ele dar um passo para trás.

E, pela primeira vez desde que entrou naquele quarto, Alexei pareceu realmente surpreso.

Não porque eu tinha conseguido machucá-lo.

Mas porque eu tinha tentado.

A maioria das pessoas teria ficado paralisada diante dele.

Eu também deveria estar.

Mas eu não conseguia.

Porque tudo que eu tinha era minha raiva.

E naquele momento, ela era a única coisa mantendo minha mente funcionando.

— Você é louca.

A frase saiu baixa.

Eu ri sem humor.

— Depois de tudo que aconteceu comigo, essa é a sua conclusão?

Ele ficou em silêncio.

E aquele silêncio me deu mais coragem.

— Minha família foi assassinada.

Minha voz começou a falhar.

Mas eu continuei.

— Minha casa virou uma cena de guerra. Eu vi meus pais morrerem na minha frente. Minha irmã quase morreu comigo tentando protegê-la.

Meus olhos queimaram.

Mas eu me recusei a chorar na frente dele.

— E você aparece aqui dizendo que eu sou sua posse?

Minha respiração ficou pesada.

— Você realmente acha que eu vou simplesmente aceitar isso?

Alexei me encarava de uma forma diferente agora.

Como se estivesse me vendo pela primeira vez.

Não como uma Caccini.

Não como uma inimiga.

Mas como uma pessoa.

E aquilo me deixou desconfortável.

Eu não queria a compreensão dele.

Não queria sua pena.

Não queria nada vindo dele.

Eu queria justiça.

Eu queria vingança.

Eu queria que todos aqueles que destruíram minha vida sentissem uma parte da dor que eu sentia.

Avancei novamente.

Dessa vez, ele estava preparado.

Segurou meus dois pulsos antes que eu pudesse atingir qualquer lugar.

A proximidade me fez prender a respiração.

Eu conseguia sentir o calor do corpo dele.

O cheiro dele.

E aquilo me irritou ainda mais.

Porque meu corpo estava reagindo de uma maneira que minha mente rejeitava completamente.

Ele era meu inimigo.

Eu precisava lembrar disso.

— Me solta.

Falei entre dentes.

— Giorgia...

O jeito que ele disse meu nome me fez estremecer.

Não porque foi gentil.

Mas porque havia algo diferente na voz dele.

Algo que eu não esperava encontrar.

— Não faça isso.

Meu olhar se encontrou com o dele.

— Não faça o quê?

Ele ficou em silêncio por alguns segundos.

Como se estivesse procurando uma resposta.

Mas eu não queria respostas.

Eu queria odiá-lo.

Era mais fácil.

O ódio era simples.

O ódio não confundia.

O ódio não fazia perguntas.

— Fingir que não está com medo.

Aquelas palavras me atingiram.

Porque eram verdade.

Eu estava com medo.

Muito.

Eu tinha perdido meus pais.

Tinha sido sequestrada.

Estava presa na casa do filho do homem que eu culpava por tudo.

Mas admitir isso seria dar a ele poder.

E eu não daria.

— Eu não tenho medo de você.

Mentira.

Ele percebeu.

Eu odiei que percebeu.

Alexei soltou meus pulsos lentamente.

O gesto me surpreendeu.

Eu esperava que ele continuasse me segurando.

Que usasse sua força para me lembrar da diferença entre nós.

Mas ele simplesmente me soltou.

Dei alguns passos para trás imediatamente.

Criando distância.

Ele passou a mão pelo rosto, parecendo irritado.

Não comigo.

Com a situação.

— Você não entende o que está acontecendo.

Soltei uma risada amarga.

— Você está certo.

Cruzei os braços.

— Eu não entendo como alguém consegue falar sobre uma pessoa como se ela fosse um objeto.

Ele me encarou.

— Não foi minha escolha.

A resposta me fez parar por um segundo.

Eu não esperava ouvir aquilo.

Mas rapidamente lembrei quem ele era.

— Mesmo assim, você aceitou.

O silêncio tomou conta do quarto.

Porque dessa vez ele não tinha uma resposta.

E isso me deu uma pequena sensação de vitória.

Ele desviou o olhar.

Por um momento, parecia menos o homem perigoso que todos temiam.

Parecia apenas alguém preso em uma situação que não compreendia.

Mas eu não podia esquecer.

Pessoas como ele eram perigosas justamente porque sabiam esconder suas verdadeiras intenções.

— Onde está minha irmã?

A pergunta saiu de repente.

Foi a primeira coisa que realmente importava.

A expressão dele mudou.

— Ela está viva.

Meu coração quase parou.

Por um segundo, toda a raiva foi substituída por alívio.

Mas durou pouco.

— Onde ela está?

Ele não respondeu imediatamente.

E meu medo voltou.

— Alexei.

Minha voz saiu como uma ameaça.

Ele me observou.

— Ela está segura.

— Eu não perguntei isso.

Dei um passo à frente.

— Eu perguntei onde ela está.

A tensão entre nós aumentou.

Ele parecia dividido entre dizer ou não.

E isso me deixou ainda mais desconfiada.

— Se você fez alguma coisa com ela...

Minha voz ficou baixa.

Mas carregada de promessa.

— Eu juro que vou acabar com você.

Pela primeira vez, vi algo parecido com respeito no olhar dele.

Como se ele entendesse que aquela ameaça não era vazia.

— Você realmente faria isso.

Não era uma pergunta.

Era uma constatação.

— Sim.

Respondi sem hesitar.

Alexei ficou me encarando.

E naquele instante eu percebi algo.

Ele não estava acostumado com pessoas que o enfrentavam.

Ele estava acostumado com medo.

Com obediência.

Com pessoas abaixando a cabeça.

Mas eu não faria isso.

Não importava o quanto ele fosse forte.

Não importava o quanto fosse perigoso.

Ele poderia ter o sobrenome Corleone.

Poderia ter dinheiro.

Poderia ter poder.

Mas ele não teria minha submissão.

Não teria minha alma.

Não teria minha rendição.

Alexei caminhou até a porta.

Antes de sair, parou.

— Descanse.

Eu quase ri diante da ironia.

— Você me sequestra e manda eu descansar?

Ele ignorou a provocação.

— Você vai precisar de força.

Franzi a testa.

— Para quê?

Ele olhou para mim por alguns segundos.

E então respondeu:

— Para sobreviver ao que vem pela frente.

A porta se fechou.

E eu fiquei sozinha novamente.

Mas dessa vez, algo havia mudado.

Eu ainda odiava Alexei Corleone.

Ainda acreditava que ele fazia parte do motivo pelo qual minha vida tinha sido destruída.

Mas agora havia uma dúvida.

Uma pequena e perigosa dúvida.

Porque o homem diante de mim não parecia exatamente o monstro que eu imaginei.

E isso era um problema.

Porque odiar um inimigo era fácil.

Difícil era quando começávamos a enxergar a humanidade por trás dele.

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