Capítulo 5 Capítulo 5- Alexei
Fico surpreso quando sinto Giorgina desferindo golpes em meu corpo, seus punhos carregados de raiva e frustração. O impacto de cada golpe reverbera através de mim, mas mantenho minha postura firme, sabendo que esse é um processo necessário para ela expressar suas emoções reprimidas.
Enquanto Giorgina desabafa sua raiva, procuro não revidar, nem resistir fisicamente. Em vez disso, permito que ela libere sua frustração e sua dor, consciente de que seria mais fácil lidar com ela depois.
Observo sua expressão, seus olhos cheios de angústia e seu corpo tenso, e tento entender o que ela poderia estar sentindo, mas não consigo se quer imaginar.
Impaciente com aquela situação, giro seu corpo de repente contra o meu, a imobilizando sem muito esforço, pouco antes de pressionar seu corpo contra o colchão na cama.
- Já chega - Ordeno, segurando com firmeza seus braços, ela ainda tenta relutar, falhando no mesmo instante.
Observo Giorgina parar subitamente, seu corpo exausto e as lágrimas que molham seu rosto. A compaixão toma conta de mim ao presenciar a intensidade de suas emoções sendo liberadas de forma tão visceral.
Ao testemunhar as lágrimas de Giorgina, um profundo pesar toma conta de mim. Não é isso que eu desejava ao buscarmos a reconciliação entre nossas famílias. A dor que ela está expressando é uma lembrança vivida do impacto negativo que a rivalidade entre nossas famílias teve em tantas vidas.
Me sinto sobrecarregado pelo peso dessa responsabilidade que meu pai colocou sobre meus ombros. A expectativa que ele depositou em mim era de encontrar uma solução, trazer um fim a esse ciclo de sofrimento. No entanto, percebo agora que talvez a resposta não seja tão simples quanto imaginava.
As lágrimas de Giorgina revelam a extensão do sofrimento causado por essa rivalidade arraigada. A pergunta que ecoa em minha mente é: o que meu pai realmente esperava de mim?
A rivalidade entre nossas famílias não é algo que possa ser resolvido com um simples gesto ou palavra.
Decido sair do cômodo onde estava com Giorgina e me encaminhar para o escritório de meu pai.
Ao chegar ao escritório, encontro meu pai imerso em papéis e documentos, como de costume. Seu semblante sério e concentrado revela a importância das tarefas que ocupa seu tempo. Dou uma batida suave na porta e entro, cauteloso para não interromper seu trabalho.
Ele ergue os olhos e encontra meu olhar, reconhecendo minha presença. Um sorriso sutil se forma em seus lábios, indicando que está pronto para ouvir o que tenho a dizer.
- Se divertindo? - pergunta ainda sorrindo. Não sabia como explicar que não conseguiria tocar num fio de cabelo daquela mulher, mesmo com ele e todos dizendo que era nossa inimiga.
- Por quê... me deu ela? - Tenho dificuldade em formar a frase.
Ele dá de ombros, como se tivesse me dado um presente comum. Um carro. Uma moto. Mas era uma pessoa!
- Pensei que iria gostar. Se não gostou, eu posso...- Balanço a cabeça de um lado para o outro, interrompendo ele - Qual é o problema, Alexei? Achei que estava pronto para seguir a sua vida, depois daquele episódio...
- Eu consigo - digo abruptamente.
Ele ergue as sobrancelhas, se recostando na cadeira.
A imagem de Giorgina chorando continua a ecoar em minha mente, me deixando com um sentimento de questionamento sobre o que meu pai espera de mim. A carga emocional da situação parece esmagadora, e a incerteza sobre como proceder mina minhas forças.
Me sinto abalado diante do sofrimento de Giorgina, e a ideia de tomar ações que possam causar mais dor é insuportável. Questiono se é realmente possível seguir adiante com o plano de meu pai em exterminar todos os Caccini, mas antes disso, fazer a última sobrevivente sofrer.
Minha determinação vacila, e uma sensação de impotência se instala. Como posso ser o agente de mudança que meu pai espera se não consigo ver uma maneira clara de aliviar o sofrimento de Giorgina e não fazer o que tinha que ser feito?
Permaneço imóvel por um momento, me permitindo sentir essas emoções conflitantes e processar o impacto dessa situação.
Meu pai se levanta e caminha até mim, colocando uma das mãos em meu ombro.
- Não tem com o que se preocupar, Alexei. Ela é a última dos Caccini, nenhum deles retornará da sepultura para se vingar.
Sustento o olhar de meu pai, buscando nele um sinal de confirmação de que, não está tentando me provar de alguma coisa e que por acaso, de alguma forma, estava usando Giorgia para isso.
Nesse momento de silêncio, nossos olhares se comunicam sem a necessidade de palavras.
- Agora vá - diz dando dois tapas leves no meu rosto, sorrindo - E não vou dizer para se divertir novamente.
Observo meu pai voltar sua atenção para os papéis sobre a mesa, mergulhando novamente em suas tarefas. A imagem de sua concentração nos documentos reforça a percepção de que ele tem suas próprias preocupações e responsabilidades a lidar.
Dou alguns passos em direção à saída do escritório, mas sou interrompido quando me deparo com minha tia no corredor. Seu rosto expressa uma mistura de curiosidade e expectativa, como se estivesse aguardando ansiosamente para saber o desenrolar dos acontecimentos.
Olho para minha tia por um momento, sentindo a necessidade de compartilhar com ela as emoções e as reflexões que surgiram durante meu encontro com Giorgina. Sua presença familiar e sua sabedoria sempre me proporcionaram conforto e perspectiva.
- Não vou perguntar se gostou ou não do “presente” do seu pai.
Suspiro.
- Não achei que perguntaria.
Ela olha para a porta fechada.
- Mas tenho que admitir que ele se superou dessa vez.
A presença constante de Irene em minha vida desde a morte de minha mãe é algo que valorizo profundamente. Ela se tornou minha figura materna, me acolhendo e cuidando de mim como se eu fosse seu próprio filho. A decisão dela de não ter filhos depois de uma desilusão amorosa só reforçou o quanto ela investiu em cuidar de mim.
Me lembro dos momentos em que Irene esteve ao meu lado, me consolando em tempos de tristeza, me encorajando em momentos de desafio e celebrando comigo nas ocasiões de alegria. Sua dedicação e amor incondicional moldaram a pessoa que sou hoje.
Ela sempre priorizou meu bem estar e meu crescimento, oferecendo conselhos sábios e orientações compassivas. Sua presença constante em minha vida me deu a segurança e a confiança necessárias para enfrentar os desafios que a vida me apresentou.
A desilusão amorosa que Irene enfrentou não a impediu de amar e cuidar de mim como seu filho. Sua escolha de dedicar sua energia e amor a mim é uma prova do seu caráter e da força de seu amor materno.
Sou grato por ter Irene ao meu lado, como uma mãe de coração.
- Cadê a menina? - perguntou da forma mais direta que ela conseguia.
Solto o ar dos pulmões.
- Em um dos quartos lá em cima - murmuro.
Ela dá um passo na minha direção.
- Não fez nada com ela, não é? - questiona.
Irene sempre foi uma mulher de coração generoso e compassivo. Ela compreende profundamente o valor da vida e a importância de tratar todas as pessoas com dignidade e respeito, independentemente das circunstâncias ou diferenças. Sua ética pessoal e sua empatia inerente a impedem de causar dano a alguém, mesmo que essa pessoa seja considerada um inimigo.
Ela acredita firmemente na resolução pacífica de conflitos e na busca da reconciliação, procurando sempre encontrar soluções que promovam a harmonia e o entendimento mútuo. Para Irene, a violência e o sofrimento só perpetuam ciclos intermináveis de dor, e ela se recusa a contribuir para isso.
- Não - digo no mesmo instante.
- Ótimo. Quero ver ela - diz antes de passar por mim, decidida em ver nossa inimiga.
Decido acompanhar Irene até o local onde Giorgina está. Caminhamos juntos pelo corredor, em silêncio. Sinto uma mistura de ansiedade e esperança enquanto seguimos em direção ao quarto.
Chegando ao quarto, vejo Giorgina ainda envolta em tristeza e vulnerabilidade.
Permaneço ali, observando a interação entre Irene e Giorgina, atento aos gestos e às palavras trocadas. Confio que Irene, com sua experiência e compreensão do poder da empatia, saberá lidar com a situação melhor que eu.
Observo com atenção quando Giorgina se afasta rapidamente da cama, parecendo acuada e assustada, encolhida em um canto do quarto. Sua reação instintiva revela o quanto a rivalidade entre nossas famílias está deixando marcas profundas
em sua vida.
Me aproximo de Giorgina com cautela, consciente de que é importante respeitar seu espaço e sua necessidade de se sentir segura.
- Não vou fazer nada com você. Minha tia só quer... - Antes mesmo que terminasse, sou atingido por um tapa no rosto.
