Capítulo 2
Ponto de vista de Eve
—O Alfa disse que você pode sair.
A voz fria do guarda ecoou pela masmorra. A porta de ferro se abriu, raspando com um guincho áspero, e a luz do sol, ofuscante, cortou a escuridão como uma lâmina.
Depois de uma noite naquela cela, meu corpo doía por inteiro, mas, no instante em que ouvi aquelas palavras, a adrenalina disparou. Noah! Eu precisava salvar o Noah!
Nem esperei meus olhos se acostumarem — só cambaleei em direção à saída. Cada segundo que eu perdia podia significar a morte do meu filho!
—Pare! Você não pode sair sem a autorização do Alfa!
Dois guardas bloquearam o portão principal, as lanças cruzadas barrando meu caminho.
—Saiam da minha frente! — empurrei os dois, desesperada. — Meu filho está me esperando!
—Desculpe. Você está restrita aos limites da residência.
—NÃO! O Noah vai MORRER! — eu gritei, metendo as unhas nos vãos da armadura deles. — Por favor! Me deixem passar!
Mas os guardas não se mexeram. Eu me senti completamente sem esperança. Eu tinha que encontrar Arthur.
Girei nos calcanhares e corri para o jardim dos fundos, gritando enquanto ia:
—Arthur! ARTHUR!
Então eu vi aquela cena nojenta.
Arthur estava sentado tranquilamente a uma mesa de ferro branca, tomando chá, enquanto Lilith, vestida com um vestido rosa de renda, sentava do outro lado, dando doces para aquele maldito furão com uma colher de prata.
—Arthur! — corri até ele, com a voz falhando. — Por favor! Mande alguém salvar o Noah!
Arthur franziu a testa e pousou a xícara.
—Eve, você passou a noite inteira nas masmorras e ainda não está pronta para encarar a realidade?
—Eu não estou inventando isso! — agarrei a manga dele, desesperada. — O Noah pode estar vivo! Ele está lá fora, esperando que eu vá salvá-lo!
—Nossa, Eve, você está péssima. — Lilith se levantou. — A noite na masmorra deve ter sido horrível. Aqui… — Ela pegou uma caixinha de veludo da mesa e sorriu, estendendo-a para mim. — Este é um colar de rubi que o Arthur escolheu especialmente para mim ontem. Eu quero dar a você como compensação. Por favor, não fique mais brava com a gente, sim?
—Eu não quero isso. — eu bati com força na mão dela, afastando-a.
A caixa caiu no chão com um baque surdo.
—Eve! — Arthur se pôs de pé num salto, as pupilas douradas ardendo de fúria. — Qual é o seu problema? A Lilith te oferece um presente e é assim que você trata ela? Quer passar outra noite na masmorra?
Não. Eu não podia ser trancada de novo. O Noah não podia esperar.
Cerrei os dentes e me abaixei para pegar a caixinha de joias caída.
—Desculpa — eu disse, em voz baixa.
—Assim é melhor. — Arthur se sentou novamente. — Agora você entende o seu erro?
—Entendo. — fechei as mãos em punhos e então caí de joelhos. — Arthur, eu estou te implorando… manda algumas pessoas verificarem a Black Forest? Só algumas pessoas… por favor…
—Pelo amor de Deus, ainda insistindo nessa historinha de merda! — Arthur fez um gesto displicente com a mão. — O Noah está onde VOCÊ escondeu ele! Não pense que eu não enxergo os seus joguinhos!
Lilith entrou na conversa, na hora certa, como sempre.
—É, para com essa bobagem. Traz o Noah de volta logo — todo mundo está preocupado com ele.
—Eu não escondi ele em lugar nenhum… — balancei a cabeça, amargurada, enquanto as lágrimas escorriam pelo meu rosto. — Ele foi levado mesmo… por que vocês não acreditam em mim…
—CHEGA! — Arthur ameaçou. — Vá para o seu quarto antes que eu te obrigue!
Foi então que o desespero me deu uma ideia — minha única opção.
—Eu vou concordar em romper o vínculo de companheiros.
Arthur e Lilith me encararam, chocados.
—O quê?
—Eu disse que quero dissolver o nosso vínculo de companheiros. — repeti, pronunciando cada palavra com cuidado. — Se você mandar uma equipe para a Black Forest para salvar o Noah, eu assino os papéis da dissolução.
—Você ficou louco? Por três anos você disse não, e agora de repente quer cair fora? —a testa de Arthur se franziu. —Acha que eu não estou vendo que isso é só mais uma tática de manipulação?
—Sem mim, quanto tempo você acha que uma mulher civil como você sobreviveria? —ele escarneceu. —Ou você já arranjou um substituto?
—Eu não encontrei mais ninguém. —Fechei os olhos. —Eu só quero salvar meu filho.
Lilith se pronunciou, com doçura:
—Arthur, por que você não dá uma pequena equipe para Eve? O Noah provavelmente só está brincando de esconde-esconde por aí. Quando eles procurarem e voltarem de mãos vazias, ela vai desistir. Aí não vai ter desculpa para não cumprir a promessa.
Arthur pensou por um momento e, por fim, assentiu.
—Tá bom. Vou te dar cinco homens. Mas se eles não encontrarem nenhum metamorfo renegado, você assina aqueles papéis e dá o fora.
—Fechado.
—Vou pegar os documentos da dissolução. —Arthur se virou e marchou em direção à casa.
Só restamos Lilith e eu no jardim. Soltei um suspiro de alívio — finalmente havia esperança de salvar Noah.
Mas então Lilith caminhou devagar até mim, a máscara gentil escorregando para revelar um sorriso cruel.
—Que pena, Eve —ela disse baixinho. —Mesmo que você vá agora, já é tarde demais para salvar aquele bastardinho.
Ergui a cabeça num solavanco, o coração disparado.
—O que você quer dizer?
Lilith não respondeu — apenas sorriu ainda mais.
De repente, eu entendi.
—Foi você... VOCÊ machucou o Noah!
—Ora, ora, você não pode sair dizendo uma coisa dessas. —Lilith arquejou e cobriu a boca, piscando com inocência. —Afinal, foi VOCÊ que não vigiou seu filho direito! Foi VOCÊ que machucou o Noah, não foi?
Eu perdi o controle e avancei nela.
—Sua VADIA! Eu vou TE MATAR!
Mas Lilith estava preparada. Ela gritou de repente e se atirou com força contra a mesa.
—AH! Eve! Você me empurrou!
Xícaras e pratos se espatifaram no chão enquanto ela agarrava a testa, o sangue escorrendo entre os dedos.
—Socorro! Arthur! A Eve está tentando me matar!
—Sua VADIA desgraçada! —eu berrei. —Você matou meu filho!
Arthur saiu furioso, em disparada.
—Que diabos está acontecendo?
—Arthur! —Lilith chorou, correndo até ele. —A Eve enlouqueceu! Ela disse que ia me matar e me empurrou contra a mesa!
—ELA matou o Noah! —apontei para Lilith, gritando. —Ela mandou aqueles metamorfos renegados...
—Você ainda está mentindo pra caralho! —Arthur rugiu. —Deem cinquenta chibatadas nela!
Os guardas me agarraram imediatamente. O chicote estalou no ar, e a agonia rasgou meu corpo.
Uma chibatada, duas, três... Eu mordi com força para não gritar.
Depois de cinquenta chibatadas, eu estava caída no chão, mal respirando.
—Ainda quer que alguém salve o seu Noah tão precioso? —Arthur escarneceu. —Só nos seus sonhos! Vai pro seu quarto e pensa nessa merda!
Arthur foi embora com a Lilith aos prantos, deixando-me sozinha para me debater no meu próprio sangue.
Eu me arrastei para ficar de pé. Agora eu só podia contar comigo. Mesmo que me matasse, eu tinha que encontrar Noah. Eu não podia deixar meu filho morrer sozinho naquele lugar escuro. Cada passo reabria as feridas nas minhas costas, mas eu precisava continuar.
—Senhora! —o mordomo veio apressado na minha direção, o rosto pálido. —Os guardas do portão entregaram um pacote... endereçado especificamente à senhora...
Ele apontou para uma caixa de madeira no canto. Sangue vazava pelas frestas, enchendo o ar com o cheiro espesso de morte.
Meu coração parou.
Eu caminhei até a caixa, tremendo, e levantei a tampa.
Dentro havia uma cabecinha. Cachos dourados, olhos fechados, e o rostinho que eu tinha beijado mil vezes.
Meu Noah.
